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Terça-feira, 12/7/2011
Quem tem medo de Gerald Thomas? (Parte I)
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4300 Acessos

Em uma entrevista há muitos anos atrás, Gerald Thomas acendeu um cigarro e, citando Mallarmé, disse para a jornalista: "eu preciso de uma cortina de fumaça entre eu e o mundo". Esse filtro entraria para a própria linguagem do seu teatro, na forma da cortina de filó como metáfora do impedimento da possibilidade de um entendimento direto e objetivo do que ali se vê. Seu teatro dialogoa com a frase de Mallarmé: "Nommer um object c´est supprimer les trois quarts de la jouissance".

Aviso aos navegantes: Gerald Thomas, antes de tudo, não é um encenador de teatro tradicional. Partindo disso, não se pode avaliar seu trabalho sob as rédeas de um olhar tradicionalista, cartesiano, aristotélico. Se o público não consegue digerir o inusitado, que leia ao menos A obra aberta, de Umberto Eco, e atente-se aos comentários sobre Webern, Berio, Mallarmé e Finnegans Wake de Joyce, Stockhausen e Calder.

Gerald faz um teatro de significados abertos, uma espécie de work in progess. Seus mestres são Beckett, Artaud, Joyce, Duchamp, John Cage, Haroldo de Campos, Andy Warhol, Francis Bacon, Rembrandt, Schoenberg, Luciano Berio, Bunüel e por aí vai - todos libertários e transgressores.

Gerald Thomas e Samuel Beckett em Paris

Sua busca sempre foi "por um teatro imagístico, visionário, abstrato, de metáforas visuais e sensoriais", como ele mesmo disse. Se o público não se deixar atingir pelo poder das "metáforas visuais" do seu teatro não entenderá nada mesmo e perderá o que é precioso e único na força do seu trabalho. É o que o diferencia do teatro "falado", "verborrágico", que se apresenta por aí. Para ele, o teatro é o lugar da arte total, no sentido wagneriano mesmo, onde tanto a luz, como as palavras, os gestos e a música são personagens integrados na criação das "metáforas visuais".

Gerald não ignora o que acontece no mundo: "eu não posso ignorar nada", ele disse ao programa Starte, ao incorporar dia a dia elementos das tensões internacionais atuais ao seu trabalho Trhoats. Como ele se transforma a cada salto que o mundo dá, seu teatro vai junto. Work in progress. Se o mundo é confusamente recriado a cada dia, porque o teatro mascararia isso inventando uma ordem, uma beleza, uma harmonia falsas? Diz Gerald: "A arte impura é justamente onde vejo a beleza. Pureza é uma noção besta, infantil, quase nazista do estado das coisas". O que ele quer (e diz isso sem pudor) é "poluir ao máximo a falsidade perversa escondida atrás do terrível conceito de pureza".

Seu trabalho com os atores é radical, no sentido de desconstrução das técnicas aprendidas na tradição do corpo que cospe textos. Retornando o corpo e a fala dos atores a um estado de pânico inicial, desconfortável, mas alerta, Gerald rompe com o sentido imediatamente dado pela gramática às palavras, buscando o seu sentido mais onomatopaico e concreto.

"Se um espetáculo meu significar uma única coisa eu me retiro de cena ou me suicido", diz Gerald. A língua é fascista, avisava Barthes, porque é o código da lesgislação que é a linguagem. Mas a criação não, pois nela se pode trapacear com a língua. É a arte que desconfigura o discurso oficial da língua, da gramática, do poder. É a arte que "inventa línguas na malícia da maravilha", como diz Caetano Veloso. O teatro de Gerald escapa da "língua fascista" como o diabo da cruz: ele busca destruir os chavões dos significados esperados.

Como artista de vanguarda que é, Gerald Thomas mostrou a bunda para o público carioca que o vaiou por ter colocado Tristão e Isolda no gabinete do Dr. Sigmund Freud (Gerald admira Freud, mas também O anti-édipo de Deleuze/Guatarri). Foi processado por uma elite carioca para lá de conservadora, em arte e moralmente (o que nos deixa pasmos!). Atentado ao pudor? Sim, moral e estético. Depois dos mestres da desconstrução, quem ainda tem medo de Gerald Thomas?

Muitas outras vezes vaiado, ele diz: "eu sou muito orgulhoso das vaias que recebi". Gerald não mede seu teatro apenas pelos elogios que recebe, mas pelas críticas que o faz reavaliar sempre seu próprio trabalho. Por isso sua angústia, seu desejo, às vezes, de parar. Mas, não parará nunca, pois incomodado que é pelo mundo, quer incomodar também o mundo.

Gerald publicou neste ano o livro Nada prova nada!, pela Ed. Record, onde, numa série de artigos publicados em jornais e no seu blog, expõe suas idéias sobre afetos artísticos com textos sobre Susan Sontag, Beuys, Kazuo Ohno, John Lennon, Beckett, Cage, Arthur Miller e outros. Também apresenta-se ali um olhar caleidoscópio sobre fatos do mundo contemporâneo, da política às perversidades do capitalismo. Há no livro uma belíssima apresentação do músico Philip Glass, com quem Gerald tem trabalhado desde sua ópera Matogrosso. Não é um livro escrito sob a ótica da análise fria dos fatos, ali transborda revolta, insatisfação, angústias pessoais e sociais. Livro que nos trás de volta a uma clave próxima à perplexidade crítico-emotiva de um Glauber Rocha (e tantos outros artistas afetados) com "as dores do mundo".

Angustiado com os rumos da arte em tempos de "meia-verdades", ainda em uma entrevista ao Starte, da Globo News, Gerald diz: "Hoje em dia não se faz teatro. O teatro não é um elemento de necessidade, de urgência. Porque o teatro é geralmente um lugar onde você pode fritar os testículos no momento em que nenhuma mídia permite que você se expresse. Hoje em dia através da internet você pode falar o que você quiser. Então, o teatro não é um veículo organicamente necessário".

Talvez ele nem acredite nisso que falou, pois seu teatro continua cruel, visceral, neo-barroco (veja-se o uso dramático da luz, esse personagem tão caro a Rembrandt e Caravaggio), dizendo mais intensamente no palco aquilo que não se pode dizer na internet.

No próximo texto, farei uma análise do percurso do teatro de Gerald Thomas, suas influências estéticas e suas principais idéias sobre a arte de encenar, para que o leitor do Digestivo possa ter contato com a arte daquele que Haroldo de Campos chamou de "o mais importante criador de teatro no Brasil depois de Nelson Rodrigues, do Zé Celso do "Rei da Vela" e de Antunes Filho de "Macunaíma".


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 12/7/2011


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