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Segunda-feira, 28/11/2011
Um bocado da Índia na Mantiqueira
Ricardo de Mattos

+ de 4300 Acessos

Para minha Lily, pelos nossos dois anos.


"Assim vês que há muitas formas de sacrifício e adoração, ó Arjuna. Se compreenderes isto, chegarás a ser livre de erros" (Bhagavad Gita).

O primeiro foi Brahma, a divindade representante do princípio criador. Tal como na tradição judaico-cristã, possui num livro - os Vedas - a descrição de seus atributos. Apresenta-se ora como ganso, ora como elefante, ora como cisne, ecoando nesta forma a adotada por Zeus para seduzir Leda. Compartilha com ele a galantaria, inclusive, o que explica seus quatro rostos. Ao contrário dos cristãos, que outrora calcularam até a distância entre os olhos do Criador, seus fiéis são poucos e com pouco a contar a seu respeito. Padece da falta de templos especificamente dedicados, assim como percebeu Voltaire ao erigir, no século XVIII, uma igreja exclusiva para Deus.

Brahma, como Brahma, parece fundamentar certa concepção teológica segundo a qual a divindade, após o ato criador, afasta-se e mantém-se inerte durante períodos longuíssimos. Talvez para compensar esta ausência, a tradição tenha feito Vishnu e Shiva entrarem em cena. Vishnu representaria o princípio conservador. Shiva, por sua vez, o princípio destruidor ou renovador.


Ascensão, por Elyane Klughist

Peculiares deuses estes, questionareis, que um cria, mas não conserva; Outro conserva, mas periga tudo perder para um terceiro. A superfície é esta. Entretanto, na excepcional Autobiografia de um iogue, Paramahansa Yogananda é uma voz original - isto é, encontrada na cultura de origem - a afirmar que Brahma, Vishnu e Shiva são três aspectos da mesma divindade, invocados pelos fiéis conforme seus anseios.

Desta forma, a divindade cria - Brahma -, não sendo crível que a sabedoria absoluta erga para, em sequência, destruir. Si decide conservar - Vishnu -, é com alguma finalidade. Sendo bem sucedida a busca pelo objetivo, é necessário tudo renovar para seguir em frente e evitar a estagnação. Ao contrário, instalada a corrupção e inviabilizada a conquista final, é necessário tudo destruir e recomeçar. Neste caso, tanto a renovação, quanto a destruição, encerram um ciclo - Shiva.


Olhando para o Alto, por Elyane Klughist

Nada é destruído "sem mais aquela palha". Como bom conservador, Vishnu encarrega-se, primeiro, de verificar o que pode ser feito e salvo antes de mais drástica decisão. Faz isso mesmo que lhe seja necessário encarnar entre os homens. "Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião - aí então eu próprio descendo" (Bhagavad Gita). E Krishna é a mais importante encarnação de Vishnu entre os homens.

Encontra-se no grande épico Mahabharata a fonte primária de informações a respeito de Krishna, e nele inserto como um de seus capítulos, o Bhagavad Gita ou Sublime Canção. O Mahabharata estaria para a Bíblia Sagrada assim como o Bhagavad Gita estaria para o Novo Testamento. Esta aproximação merece, inclusive, maior aprofundamento. Há tal similitude de fundo que muitos reencarnacionistas ocidentais empolgam-se com a leitura da obra indiana. Mesmo nosso querido Léon Denis, continuador de Allan Kardec no aspecto filosófico do Espiritismo, arriscou dizer que Krishna seria uma encarnação anterior de Jesus Cristo.


Resposta aos céticos, por Elyane Klughist

Coube ao indiano Swami Prabhupada (1896-1977) fundar a "Sociedade Internacional da Consciência Krishna" - ISKCON - com diversos centros de difusão do Movimento "Hare Krishna" no mundo. O mais próximo de nós é o sítio de Nova Gokula, localizado em trecho da Serra da Mantiqueira pertencente à zona rural do município de Pindamonhangaba. Fica bem longe do centro da cidade. Quem não conhecer estas paragens e quiser visitá-las, é melhor que procure alguém que já a tenha visitado. Além da insegurança causada na primeira vez pela distância, a estrada nem sempre é boa.

Lá estivemos diversas vezes a partir do ano de 2007. Quatro fora registradas pelas gravuras adquiridas e penduradas em nosso quarto de dormir, após adequadamente emolduradas. Ultrapassado o pórtico e espantado o gado com buzinadas, descortina-se-nos o templo. É necessário descalçar-se para adentrar o salão do altar, e nesta construção não há comércio. Não é impossível pegar uma palestra em curso e assisti-la o quanto quiser. Ou encontrar um devoto receptivo, pronto para conversar. À saudação "Hare Krishna", responde-se da mesma forma ou "Hare Bo".


Quietude, por Elyane Klughist

Nas imediações do templo há restaurantes, um quiosque de produtos naturais e a indefectível loja de souvenirs. Entre os quitutes à venda, a surpreendente coxinha recheada com jaca verde. É preparada de tal forma que, quem não é avisado, come-a como se de carne fosse. Pode-se acompanhá-la dum copo de suco de lulo, planta colombiana levada para lá por um dos moradores. Mais afastadas do templo ficam, de um lado a pousada e, de outro, a área residencial. Ao que parece, há uma escola, mas não chegamos a conhecê-la.

Há uma biblioteca. Pequena, recém-inaugurada e bem fornida, confirma a expressão atribuída a Cicerus: "quem possui uma biblioteca e um horto, possui um reino". Livros em vários idiomas e diversas traduções do Gita: inglês, francês, português... Se deduzimos corretamente, há volumes em sânscrito. Recebemos regularmente por e-mail informativos da ISKCON. Alguns trouxeram-nos textos a respeito da relação dos devotos com as obras da literatura sagrada e os respectivos suportes. "A Verdade que foi revelada é absoluta, mas, no curso do tempo, ela é maculada pela natureza dos receptores, e, de geração em geração, é transformada pela contínua troca de mãos. Novas revelações, portanto, são continuamente necessárias para manter a verdade em sua pureza original", diz um excerto da autoria de Srila Bhaktivinoda Thakura. "Os livros não devem ser colocados sobre o chão ou sobre o assento de uma cadeira, tampouco utilizados como repouso para outros objetos", assevera Rohininandana dasa.

Este sítio insere-se na mata nativa, sendo possível deambular entre o arvoredo atlântico. Um riacho gélido convida-nos a mergulhar os pés - ou mesmo o corpo todo, conforme a coragem. Funciona em Nova Gokula um centro de soltura de animais silvestres libertados do cativeiro. Em nossas visitas, além de pássaros diversos, um jacu - Penelope ochrogaster - exibiu-se antes de sumir entre as árvores. Doutra feita, um filhote de tatu cruzou-nos o caminho.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 28/11/2011


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