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Terça-feira, 3/1/2012
A música clássica ensurdece a democracia caótica
Wellington Machado

+ de 3100 Acessos

Crença de criança dificilmente é removida com argumentos adultos. Quando a mais inocente das mentes infantis em formação - a "tábula rasa" de John Locke - é preenchida por uma ideia ou teoria contrária aos ensinamentos dos adultos, dificilmente se consegue reverter a situação. Dia desses fui surpreendido por meu sobrinho com a seguinte frase: "Tio, sabia que música clássica pode provocar surdez?" A informação me remeteu automaticamente a Beethoven, e tentei dar o troco: "Não, você deve estar fazendo confusão; o compositor Beethoven é que ficou surdo". Mal acabara de falar e ele me tascou o seu livro de escola na cara, com uma pequena nota de canto de página (uma espécie de "janela de curiosidades"), avalizando sua afirmativa. Era um livro de ciências e, possivelmente, a matéria versava sobre os agudos provocados pelo violino ou outros instrumentos da orquestra. Admirador de música clássica que sou (e meu sobrinho sabe disso), não tive como contra-argumentar. Foi sua vingança, já que ele não curte muito o estilo.

Não vou citar aqui o nome do livro adotado na escola de meu sobrinho - na verdade trata-se de uma apostila, um dos volumes de uma espécie de "pacote educacional" padronizado, contendo todas as matérias; muito comum nas escolas atualmente. O material é de ótima qualidade e eu seria leviano se o condenasse por uma notinha de curiosidades. Prefiro encarar a informação como um deslize, que poderia ser evitado, já que inúmeros exemplos poderiam ser citados ali. Mas, por mínima que seja, a nota correu o país nas escolas que adotaram o livro.

O Brasil não é um país paradoxal; mas é um país exótico. O improvável parece conspirar a nosso favor, transformando em sucesso as mais remotas ou estapafúrdias possibilidades. Em recente perfil da nossa presidente na revista New Yorker, o país foi considerado uma "democracia caótica", com problemas estruturais graves, apesar do crescimento econômico dos últimos anos. Crescemos economicamente, mas somos um arraso social. Somos um carro novo rodando a todo vapor com combustível de quinta categoria. Mesmo com toda a crise na Europa, que reflete na economia mundial, o Brasil ainda cresce, ainda que timidamente.

Há muito que a economia predomina, em nível mundial, sobre a política e a cultura. Não há mais uma completa soberania do estado; todos os líderes têm de basear suas decisões nos humores dos mercados, sofrendo pressões de grandes conglomerados financeiros que atuam além das fronteiras. Haja vista as mudanças no comando dos países europeus, alçando ao poder tecnocratas "mais competentes" em lidar com as finanças.

Ouvir que o Brasil é um país emergente nos encanta. Estamos perto de concretizar a velha profecia de que éramos (quase somos, agora) o país do futuro. Darcy Ribeiro, em sua obra um tanto ufanista, O povo brasileiro, já adiantava, no início dos anos 90, que a vez do Brasil chegaria, muito em função da sua mistura de raças. Para o antropólogo, o povo brasileiro é um povo ímpar, sem igual em todo mundo; um povo criativo por obra do mestiçamento.

Esse predomínio do econômico, em particular no Brasil, impulsiona o país independentemente do seu desenvolvimento cultural. Temos na ciência, na literatura, nas universidades e hospitais, personalidades mundialmente famosas. Mas são exemplos muito pontuais. A maioria dessas "cabeças" é proveniente de famílias com uma certa estrutura material, ou seja, tiveram suporte para chegarem aonde chegaram. Temos boas universidades, mas a melhor delas (a USP) não está nem entre as cem mundiais.

A tal "democracia caótica" leva a nossa organização social (habitação, ruas, transporte particular e coletivo etc.) e o nosso sistema educacional a seguirem o mesmo caminho do caos. Amargamos o 84º lugar no IDH mundial. Os dois governos pós-ditadura, ocupados por um intelectual e um ex-operário, fracassaram na redução substancial da desigualdade social - os avanços foram modestos pelo que se esperava. Não conseguimos superar o velho "Princípio de Pareto", a tal "relação 80-20", onde uma pequena parcela da sociedade detém um naco enorme do bolo coletivo.

Enquanto o Brasil cresce economicamente - e carece cada vez mais de capital intelectual -, ocupamos a vergonhosa 88ª posição no ranking mundial de educação da ONU. Certamente teremos de importar mão de obra qualificada nos próximos anos. Os jovens alunos asiáticos, de países também emergentes, estudam em horário integral. Nós não temos essa tradição e disciplina.

Economia e números à parte, concentremo-nos em um outro tipo de caos: a cultura. Causou-me espanto o abrangente e criterioso artigo do Affonso Romano de Sant'anna, na edição virtual do jornal Rascunho. O poeta traçou um excelente panorama da crise editorial brasileira. Ele chega à conclusão de que não temos livros demais, mas leitores de menos. As editoras não têm mais onde colocar as sobras de suas edições, que ficam encalhadas e armazenadas em galpões alugados. O número de leitores brasileiros é vergonhoso - e os que se interessam pelas letras leem poucos livros por ano. Que a chegada dos kindles e tablets da vida nos salvem!

A crise editorial brasileira a que o Affonso se refere me fez pensar sobre a real importância dos livros, em especial os romances. Lembrei então das palavras de Mário Vargas Llosa, em ensaio publicado na Revista Piauí, em defesa do romance diante da supremacia tecnicista: "Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários."

Paralelamente à questão literária, volto à "vingança" do meu sobrinho, acerca da música clássica - que parece não ter muito prestígio entre o povo criativo de Darcy Ribeiro. Os quinhentos e poucos anos de idade do Brasil (um país muito novo, portanto) podem justificar a nossa pouca tradição no gênero e no hábito de ler. Talvez seja tarde para atingirmos os "denominadores comuns da cultura" que nos solidariza, já que somos parte desse "motor do progresso" citado por Vargas Llosa.

Não sei por quê, mas sempre que penso em música erudita no (e para o) Brasil, lembro do programa nacional de incentivo à música clássica da Venezuela (logo o país do pseudo-democrata Hugo Chaves!), voltado para o desenvolvimento musical de crianças carentes. O programa é copiado por vários países e revelou ao mundo um dos seus maiores maestros: Gustavo Dudamel, de 30 anos (hoje, diretor da Filarmônica de Los Angeles). E é duro também lembrar que a Venezuela é também um país "novo", como o Brasil.

Existem, é fato, várias ações esparsas em vários pontos do Brasil. Em Ouro Branco (MG), a Casa de Música faz um belo trabalho de formação de músicos. A escola conta atualmente com mais de 200 alunos que, além de se apresentarem regularmente na cidade, participam de festivais de música erudita em várias cidades. Outra boa iniciativa é a escola Mata Virgem, em Xerém (RJ), fundada e mantida por Zeca Pagodinho. Vez ou outra tomamos conhecimento de projetos desse tipo, o que é um alento. Mas falta um projeto nacional, bancado pelo Governo Federal. Contribui muito para o nosso "caos democrático" um orçamento que destina ao Ministério da Cultura uma fatia que não chega a 1% do arrecadado pela União.

Literatura, música de qualidade, museus, cinema, teatro etc. são ingredientes para o apuramento de algo essencial para o bem estar coletivo: a civilidade. Não adianta termos dinheiro sobrando no bolso, carros reluzentes nas ruas, e estacionarmos na vaga de portadores de necessidades especiais, quando não os somos - se é que me faço entender. Necessitamos de um sonhador como Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982), que cultive uma obsessão em nome da arte. Será que correremos o risco de, com poder aquisitivo, consumirmos tecnologia de ponta mundial e não termos conteúdo pra colocar ali dentro?


Wellington Machado
Belo Horizonte, 3/1/2012


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