A música clássica ensurdece a democracia caótica | Wellington Machado | Digestivo Cultural

busca | avançada
36466 visitas/dia
1,2 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 3/1/2012
A música clássica ensurdece a democracia caótica
Wellington Machado

+ de 3400 Acessos

Crença de criança dificilmente é removida com argumentos adultos. Quando a mais inocente das mentes infantis em formação - a "tábula rasa" de John Locke - é preenchida por uma ideia ou teoria contrária aos ensinamentos dos adultos, dificilmente se consegue reverter a situação. Dia desses fui surpreendido por meu sobrinho com a seguinte frase: "Tio, sabia que música clássica pode provocar surdez?" A informação me remeteu automaticamente a Beethoven, e tentei dar o troco: "Não, você deve estar fazendo confusão; o compositor Beethoven é que ficou surdo". Mal acabara de falar e ele me tascou o seu livro de escola na cara, com uma pequena nota de canto de página (uma espécie de "janela de curiosidades"), avalizando sua afirmativa. Era um livro de ciências e, possivelmente, a matéria versava sobre os agudos provocados pelo violino ou outros instrumentos da orquestra. Admirador de música clássica que sou (e meu sobrinho sabe disso), não tive como contra-argumentar. Foi sua vingança, já que ele não curte muito o estilo.

Não vou citar aqui o nome do livro adotado na escola de meu sobrinho - na verdade trata-se de uma apostila, um dos volumes de uma espécie de "pacote educacional" padronizado, contendo todas as matérias; muito comum nas escolas atualmente. O material é de ótima qualidade e eu seria leviano se o condenasse por uma notinha de curiosidades. Prefiro encarar a informação como um deslize, que poderia ser evitado, já que inúmeros exemplos poderiam ser citados ali. Mas, por mínima que seja, a nota correu o país nas escolas que adotaram o livro.

O Brasil não é um país paradoxal; mas é um país exótico. O improvável parece conspirar a nosso favor, transformando em sucesso as mais remotas ou estapafúrdias possibilidades. Em recente perfil da nossa presidente na revista New Yorker, o país foi considerado uma "democracia caótica", com problemas estruturais graves, apesar do crescimento econômico dos últimos anos. Crescemos economicamente, mas somos um arraso social. Somos um carro novo rodando a todo vapor com combustível de quinta categoria. Mesmo com toda a crise na Europa, que reflete na economia mundial, o Brasil ainda cresce, ainda que timidamente.

Há muito que a economia predomina, em nível mundial, sobre a política e a cultura. Não há mais uma completa soberania do estado; todos os líderes têm de basear suas decisões nos humores dos mercados, sofrendo pressões de grandes conglomerados financeiros que atuam além das fronteiras. Haja vista as mudanças no comando dos países europeus, alçando ao poder tecnocratas "mais competentes" em lidar com as finanças.

Ouvir que o Brasil é um país emergente nos encanta. Estamos perto de concretizar a velha profecia de que éramos (quase somos, agora) o país do futuro. Darcy Ribeiro, em sua obra um tanto ufanista, O povo brasileiro, já adiantava, no início dos anos 90, que a vez do Brasil chegaria, muito em função da sua mistura de raças. Para o antropólogo, o povo brasileiro é um povo ímpar, sem igual em todo mundo; um povo criativo por obra do mestiçamento.

Esse predomínio do econômico, em particular no Brasil, impulsiona o país independentemente do seu desenvolvimento cultural. Temos na ciência, na literatura, nas universidades e hospitais, personalidades mundialmente famosas. Mas são exemplos muito pontuais. A maioria dessas "cabeças" é proveniente de famílias com uma certa estrutura material, ou seja, tiveram suporte para chegarem aonde chegaram. Temos boas universidades, mas a melhor delas (a USP) não está nem entre as cem mundiais.

A tal "democracia caótica" leva a nossa organização social (habitação, ruas, transporte particular e coletivo etc.) e o nosso sistema educacional a seguirem o mesmo caminho do caos. Amargamos o 84º lugar no IDH mundial. Os dois governos pós-ditadura, ocupados por um intelectual e um ex-operário, fracassaram na redução substancial da desigualdade social - os avanços foram modestos pelo que se esperava. Não conseguimos superar o velho "Princípio de Pareto", a tal "relação 80-20", onde uma pequena parcela da sociedade detém um naco enorme do bolo coletivo.

Enquanto o Brasil cresce economicamente - e carece cada vez mais de capital intelectual -, ocupamos a vergonhosa 88ª posição no ranking mundial de educação da ONU. Certamente teremos de importar mão de obra qualificada nos próximos anos. Os jovens alunos asiáticos, de países também emergentes, estudam em horário integral. Nós não temos essa tradição e disciplina.

Economia e números à parte, concentremo-nos em um outro tipo de caos: a cultura. Causou-me espanto o abrangente e criterioso artigo do Affonso Romano de Sant'anna, na edição virtual do jornal Rascunho. O poeta traçou um excelente panorama da crise editorial brasileira. Ele chega à conclusão de que não temos livros demais, mas leitores de menos. As editoras não têm mais onde colocar as sobras de suas edições, que ficam encalhadas e armazenadas em galpões alugados. O número de leitores brasileiros é vergonhoso - e os que se interessam pelas letras leem poucos livros por ano. Que a chegada dos kindles e tablets da vida nos salvem!

A crise editorial brasileira a que o Affonso se refere me fez pensar sobre a real importância dos livros, em especial os romances. Lembrei então das palavras de Mário Vargas Llosa, em ensaio publicado na Revista Piauí, em defesa do romance diante da supremacia tecnicista: "Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários."

Paralelamente à questão literária, volto à "vingança" do meu sobrinho, acerca da música clássica - que parece não ter muito prestígio entre o povo criativo de Darcy Ribeiro. Os quinhentos e poucos anos de idade do Brasil (um país muito novo, portanto) podem justificar a nossa pouca tradição no gênero e no hábito de ler. Talvez seja tarde para atingirmos os "denominadores comuns da cultura" que nos solidariza, já que somos parte desse "motor do progresso" citado por Vargas Llosa.

Não sei por quê, mas sempre que penso em música erudita no (e para o) Brasil, lembro do programa nacional de incentivo à música clássica da Venezuela (logo o país do pseudo-democrata Hugo Chaves!), voltado para o desenvolvimento musical de crianças carentes. O programa é copiado por vários países e revelou ao mundo um dos seus maiores maestros: Gustavo Dudamel, de 30 anos (hoje, diretor da Filarmônica de Los Angeles). E é duro também lembrar que a Venezuela é também um país "novo", como o Brasil.

Existem, é fato, várias ações esparsas em vários pontos do Brasil. Em Ouro Branco (MG), a Casa de Música faz um belo trabalho de formação de músicos. A escola conta atualmente com mais de 200 alunos que, além de se apresentarem regularmente na cidade, participam de festivais de música erudita em várias cidades. Outra boa iniciativa é a escola Mata Virgem, em Xerém (RJ), fundada e mantida por Zeca Pagodinho. Vez ou outra tomamos conhecimento de projetos desse tipo, o que é um alento. Mas falta um projeto nacional, bancado pelo Governo Federal. Contribui muito para o nosso "caos democrático" um orçamento que destina ao Ministério da Cultura uma fatia que não chega a 1% do arrecadado pela União.

Literatura, música de qualidade, museus, cinema, teatro etc. são ingredientes para o apuramento de algo essencial para o bem estar coletivo: a civilidade. Não adianta termos dinheiro sobrando no bolso, carros reluzentes nas ruas, e estacionarmos na vaga de portadores de necessidades especiais, quando não os somos - se é que me faço entender. Necessitamos de um sonhador como Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982), que cultive uma obsessão em nome da arte. Será que correremos o risco de, com poder aquisitivo, consumirmos tecnologia de ponta mundial e não termos conteúdo pra colocar ali dentro?


Wellington Machado
Belo Horizonte, 3/1/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. De pé no chão (1978): sambando com Beth Carvalho de Renato Alessandro dos Santos
02. O Voto de Meu Pai de Heloisa Pait
03. O Brasil que eu quero de Luís Fernando Amâncio
04. A vida dos pardais e outros esquisitos pássaros de Elisa Andrade Buzzo
05. Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba de Heloisa Pait


Mais Wellington Machado
Mais Acessadas de Wellington Machado em 2012
01. Hugo Cabret exuma Georges Méliès - 27/3/2012
02. De onde vem a carne que você come? - 15/5/2012
03. Daniel Piza: uma lanterna cultural - 24/1/2012
04. Memória externalizada - 3/7/2012
05. Pina, de Wim Wenders - 24/4/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




TRES RUSSOS E COMO ME TORNEI ESCRITOR
GORKI, MAXIMO
MARTINS
R$ 51,43



HITCHCOCK
RUY GARDNIER/ISMAIL XAVIER E OUTROS
CCBB/SESC
(2011)
R$ 145,00
+ frete grátis



AEROBICA MENTAL
STEVE SIMMS
MADRAS
R$ 12,00



USO DE LA GRAMÁTICA ESPAÑOLA JUNIOR INTERMEDIO
RAMÓN PALENCIA
ELDESA
(2008)
R$ 35,00



POETAS DIFÍCEIS? UM MITO
TERESA GUEDES
CAMINHO
(2002)
R$ 45,32



O CRISTIANISMO EM XEQUE
SÉRGIO OLIVEIRA
REVISÃO
(1996)
R$ 20,00



MATERIAIS ELÉTRICOS - VOLUME 1: CONDUTORES E SEMICONDUTORES
WALFREDO SCHMIDT
EDGAR BLÜCHER LTDA
(1979)
R$ 12,00



A MORENINHA
JOAQUIM MANUEL DE MACEDO
DCL
(2006)
R$ 8,00



O CORAÇÃO DE LEÃO VOLUME 3 DA SAGA PLANTAGENETA
JEAN PLAIDY
BESTBOLSO
(2008)
R$ 10,00



O RIO DE JANEIRO, CAPITAL DO REINO
ILMAR ROHLOFF DE MATTOS, LUIS AFFONSO SEIGNEUR DE ALBUQUERQUE, SELMA RINALDI DE MATTOS
ATUAL
(1997)
R$ 13,00





busca | avançada
36466 visitas/dia
1,2 milhão/mês