Daniel Piza: uma lanterna cultural | Wellington Machado | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 24/1/2012
Daniel Piza: uma lanterna cultural
Wellington Machado

+ de 5600 Acessos

Tenho mania de mandar e-mail pra mim mesmo. Sempre quando leio algo interessante na internet, procuro o envelopinho em algum canto, clico lá e digito meu endereço. Geralmente guardo matérias contendo referências culturais para futuras pesquisas. É um método meio caótico, pois acabo ficando com um punhado de mensagens "dormentes" em minhas pastas. Uma das que "enviei-me" (que contorcionismo!) era uma matéria do Daniel Piza, na qual ele comentava os lançamentos culturais de 2011. Chamou-me a atenção o seu comentário sobre aquele que seria o livro do ano, na sua opinião: um livro de ensaios cujo título é A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal.

Causou-me estranheza essa indicação. Primeiro: onde teria o Daniel Piza "chafurdado" pra descobrir esse Edmund de Waal? Nunca ouvira falar do autor (já descontando as minhas inúmeras lacunas culturais). Segundo: esse "Waal" me remeteu ao livro do Daniel sobre o Paulo Francis. Fui conferir na capa, mas havia uma diferença: o nome do livro sobre o Francis é "Waaal" ― tem um "a" a mais. Terceiro: como é que o Daniel descobriu esse livro, posto que sua editora (Intrínseca) não tem tradição em publicar ensaios?

Por vários anos achei que o Daniel Piza blefava, que suas opiniões e polêmicas que criava eram puro marketing. Por um momento pensei que ele fosse apadrinhado na imprensa pelo Paulo Francis. Não conseguia conceber ― na verdade, aceitar ― um cara tão novo escrever sobre temas tão variados e complexos. Desconfiava de seu tom de voz macio, da sua calma ao falar e da sua polidez.

Algumas coisas eu também não perdoava nas colunas do Daniel Piza: política, futebol e novela. Ele saltava de uma análise de Dostoiévski para um comentário sobre o desfecho da novela das oito. E falar de política, futebol ― enfim, de temas voláteis e descartáveis ― não combinava com o Machado de Assis citado na coluna ao lado.

A política
A imprensa brasileira está dividida ideologicamente em guetos ― não sei se há essa mesma permeabilidade ideológica na imprensa de outros países. Um grupinho da ala liberal (rotulados "de direita") se aglomera em jornais, revistas, sites e ficam futricando o outro lado. O outro grupinho (o "de esquerda") se aloja em uma outra revista ou site, mais "vermelhos", e ficam devolvendo os torpedos pro lado de lá. Discordo que os conceitos de direita e esquerda tenham caído por terra ― ou perdido o sentido ― com a queda do Muro de Berlim. A cisão ainda vigora, e é nítida na nossa imprensa.

Os "direitistas", liberais, odeiam de antemão o próximo livro do Chico Buarque que está ainda no prelo. Coitado do Chico, é perseguido por ser simpatizante do PT, por ser filho do Sérgio Buarque (fundador do partido) e por ser irmão da ministra da cultura. Os liberais rejeitam tudo o que o Saramago (comunista declarado) escreveu ou qualquer obra de Niemeyer (o último dos comunistas?).

Os "de esquerda" arrepiam só de ouvir o nome do Paulo Francis ou do Roberto Campos ― economista ultraliberal, que foi ministro no regime militar. Os esquerdistas abominam qualquer linha escrita pelo Diogo Mainardi. O Daniel Piza acabava sendo incluído nessa "tribo liberal", mas em menor grau, creio.

Acho que o Daniel cometia um grande erro em dar importância à política. Talvez seja essa a maior influência que o Francis exerceu sobre ele. As opiniões políticas em sua coluna eram, inevitavelmente, pontuais e datadas. Numa antologia do seu trabalho não entraria um texto político sequer.

Mas o Daniel era muito menos afetado do que seus colegas "de tribo". Em grau bem inferior, suas opções ideológicas, rotuladas de liberais, influenciavam sua análise cultural. A separação do valor estético do ideológico era nítida em seus escritos. Lembro bem de seu texto totalmente elogioso ao Saramago, quando o escritor morreu.

A paixão pela arte
Tenho uma coleção até razoável da revista Bravo! ― a maior parte de seus tempos áureos. A morte do Daniel me fez percorrer a coleção em busca de seus textos. Fiquei perplexo com a variedade dos temas culturais dos quais tratou: arquitetura, literatura, artes plásticas, música e cinema. A maioria dos textos não eram resenhas, mas críticas bem fundamentadas, com citações históricas, comparações de estilo ou escolas artísticas.

Mas o que mais me chamou a atenção foi um texto publicado na revista em 1º de abril de 2004, intitulado "Afeto e liberdade", no qual o Daniel fez uma verdadeira ode ao livro e à literatura, demonstrando com fatos o papel de cada um no desenvolvimento de uma nação e no processo civilizatório (em se tratando de convivência entre pessoas). São raros os escritores, ensaístas ou críticos que deixam de lado, por um momento, a sua matéria-prima, seu objeto de análise (no caso, os livros) para se dedicarem à exaltação da arte ― que é o que interessa, em última análise.

A atitude do Daniel ao escrever o "Afeto e liberdade" é semelhante a do escritor Ohran Pamuk nos ensaios do livro Outras Cores (sobre o qual já escrevi aqui), nos quais ele fala das suas experiências sublimes, únicas, proporcionadas somente pela literatura. Ele cita o impacto da leitura de Os irmãos Karamazov, do aprendizado com as leituras de Virgínia Woolf, Faulkner, Proust e Nabokov. Daniel Piza e Pamuk se juntam a Mario Vargas Llosa, em sua exuberante declaração de amor ao livro, exposta em um ensaio na revista Piauí, onde ele defende com unhas e dentes o objeto livro, ante a sua ameaça de extinção com os novos aparatos digitais.

A fortuna crítica
O Daniel Piza não dava muita bola para seus críticos. Eu era um deles ― menos estridente, mas bem cético. De tanto ignorar a ladainha contrária, o Daniel foi me esvaziando, deixando-me sem argumentos ou falando sozinho. Notei que o jornalista, com seus textos, provocava em mim uma certa "irritação atrativa": toda semana eu o lia pra ter algo com o que implicar. E nessas leituras ele acabou me "pondo nas mãos" o álbum Frank Sinatra sings the select Cole Porter, que nunca mais larguei.

Já com minha implicância mitigada, conheci, através do Daniel, os ensaios de George Orwell, os perfis de David Remnick, e autores como H.L. Mencken, Claudio Magris, Edmund Wilson, Edward Said, Ricardo Piglia, Roberto Bolaño e mais uma centena deles que não cabe aqui citar. Daniel Piza foi voz única na crítica cultural brasileira a apostar cem por cento em Milton Hatoum. Depois que li o Dois irmãos, pude comprovar realmente a qualidade do escritor.

Ler a coluna do Daniel (gostasse ou não de sua pessoa) era uma das formas ― talvez a melhor delas ― de ficar por dentro do que estava sendo lançado em cultura ― no Brasil e no mundo. O Daniel aparentava ser pedante ― essa era a imagem que ele inadvertidamente passava aos seus leitores. Pelo que se pode ler agora dos que conviveram com ele, comprova-se que o jornalista era cordial e atencioso.

Eu tinha um roteiro pra ler as colunas do Daniel: passava pela parte cultural, pulava todas as notas políticas e lia suas opiniões sobre cinema (e discordava da maioria destas). Eram leituras até rápidas, mas raramente eu saía delas sem anotar alguma referência, uma indicação de leitura, um artista plástico. Após muitos anos de desconfiança, os acertos do Daniel fizeram a minha "teoria do blefe" cair por terra. Reconheço que não tinha eliminado completamente aquela "irritação atrativa" pelos seus textos. Mas eu lia o Daniel toda semana. E para um jornalista e escritor, não há homenagem melhor.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 24/1/2012


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