A via férrea da poesia de Mario Alex Rosa | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
80183 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Contos do Índio e da Floresta estreia dias 03 e 04 de outubro na Sympla Streaming
>>> “Conversa de Criança – Coronavírus” discute o acolhimento das emoções das crianças durante pandemia
>>> São Paulo ganha grafitti gigante que propõe reflexão sobre igualdade racial
>>> Buena Onda Reggae Club faz maratona de shows online a partir de 1ª de outubro
>>> Filó Machado e Felipe Machado dividem o palco em show online pelo CulturaEmCasa
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Meu malvado favorito
>>> A pintura do caos, de Kate Manhães
>>> Nem morta!
>>> O pai tá on: um ano de paternidade
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - I
>>> Contentamento descontente: Niketche e poligamia
>>> Cinemateca, Cinemateca Brasileira nossa
>>> A desgraça de ser escritor
>>> Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori
>>> Um grande romance para leitores de... poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> A última performance gravada de Jimmi Hendrix
>>> Sebo de Livros do Seu Odilon
>>> Sucharita Kodali no Fórum 2020
>>> Leitura e livros em pauta
>>> Soul Bossa Nova
>>> Andreessen Horowitz e o futuro dos Marketplaces
>>> Clair de lune, de Debussy, por Lang Lang
>>> Reid Hoffman sobre Marketplaces
>>> Frederico Trajano sobre a retomada
>>> Stock Pickers ao vivo na Expert 2020
Últimos Posts
>>> Assim ainda caminha a humanidade
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
>>> Deu branco
>>> Entre o corpo e a alma
>>> Amuleto
>>> Caracóis me mordam
>>> Nome borrado
>>> De Corpo e alma
Blogueiros
Mais Recentes
>>> War is peace; freedom is slavery; ignorance is strength
>>> É Julio mesmo, sem acento
>>> Infeliz Dia dos Namorados
>>> Deepak Chopra Speaker Series
>>> Nota Bene
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Comer é viver
>>> Sugerido para adultos?
>>> Ação e Romance
>>> O Conselheiro também come (e bebe)
Mais Recentes
>>> Plotinus - ennead, v.5 de Plotino; A. Hilary Armstrong pela Loeb-Harvard University P (1984)
>>> O mar de monstros (PercyJackson e os olimpianos - livro 2) de Rick Riordan pela Intrínseca (2009)
>>> Colóquio Artes, número 36, março 1978 de Elena Calas, René Micha, Eduardo Lourenço e outros, pela Fundação Calouste Gulbenkian (1978)
>>> As lágrimas da girafa de Alexander McCall Smith pela Companhia das Letras (2003)
>>> Paul Rudolph 1946-1974 de Vários pela A+U Publishing (1977)
>>> Lições de Economia Política de Temperani Pereira pela Civilização Brasileira (1967)
>>> Tudo Que Eu Devia Saber na Vida Aprendi no Jardim-de-Infância de Robert Fulghum pela BestSeller (1988)
>>> Documentos do Arquivo da Casa dos Contos de José Afonso Mendonça de Azevedo (Org.) pela Do Autor
>>> Hibisco Roxo de Chimamanda Ngozi Adichie pela Companhia das Letras (2011)
>>> Liberte a Intuição! de Roy H. Williams pela Futura (2003)
>>> O anjo azul de Josef von Sternberg ( um filme de) pela Folha de São Paulo (2014)
>>> Jules e Jim uma mulher para dois de François Trufaut (um filme de) pela Folha de São Paulo (2014)
>>> Dinâmicas de Leitura Para Sala de Aula de Mary Rangel pela Vozes (1990)
>>> Força Interior - Ensinamentos práticos para uma vida melhor de Carlos França pela Circulo do Livro (1988)
>>> Castas, estamentos e clases sociais de Sedi Hirano pela Alfa-Omega (1974)
>>> Word Perfect vocabulary for fluency de Mark Harison pela Nelson (1990)
>>> Plotinus Ennead III de Plotinus; A.H.Armstrong pela Loeb (1967)
>>> Volar Sobre El Pantano - novela de valores para superar la adversidad y triunfar de Carlos Cuauhtémoc Sánchez pela Selectas Diamante (1995)
>>> 200 Sonetos de Luis Vaz de Camões pela Lepm (2001)
>>> Academia Goiana de Letras - História e Antologia de Coelho Vaz pela Kelps (2008)
>>> O Poder Infinito da Oração - Descoberta da força capaz de produzir milagre de Lauro Tevisan pela Mente
>>> Não Mato por Prazer de John Godey pela Nova Época (1974)
>>> A Outra América: Pobreza nos Estados Unidos de Michael Harrington pela Civilização Brasileira (1964)
>>> O Vôo da Borboleta de Morah Lofts pela Melhoramentos (1987)
>>> Encontros Com Homens Notáveis de G. I. Gurdjieff pela Pensamento (1980)
>>> A Morte no Japão de Ian Fleming pela Globo (1965)
>>> Um de Richard Bach pela Record (1988)
>>> Os Grandes Clássicos da Literatura: Elogio da Loucura - O Livre Arbítrio de Erasmo de Roterdã – Artur Schopenhauer pela Novo Brasil (1982)
>>> Esconde-Esconde de James Patterson pela Best Seller / Círculo do Livro (1997)
>>> Sherlock Holmes: O Ritual Musgrave e Outras Aventuras de Sir Arthur Conan Doyle pela Melhoramentos (2006)
>>> Platero e Eu de Juan Ramón Jimenez pela Rio Gráfica (1987)
>>> O Original de Jean-Jacques Fiechter pela Record (1996)
>>> Aura de Carlos Fuentes pela L&PM (1981)
>>> As Ninfas do Vale de Gibran Khalil Gibran pela Catavento (1978)
>>> A Brincadeira de Milan Kundera pela Nova Fronteira (1986)
>>> A Rainha de Provence de Jean Plaidy pela Record (1993)
>>> Esfinge de Robin Cook pela Círculo do Livro (1987)
>>> Cérebro de Robin Cook pela Círculo do Livro (1997)
>>> A Ira dos Anjos de Sidney Sheldon pela Nova Cultural (1985)
>>> Nada Dura Para Sempre de Sidney Sheldon pela Círculo do Livro (1998)
>>> Um Estranho no Espelho de Sidney Sheldon pela Círculo do Livro (1987)
>>> O Outro Lado da Meia-Noite de Sidney Sheldon pela Círculo do Livro (1989)
>>> Palavras que Curam - A força terapêutica das hist. bíblicas de Walther H, Lechler/Alfred Meier pela Prestígio (2006)
>>> A História da Primeira Guerra Mundial. 1914-1918 - Com 4 Volumes de David Stevenson pela Novo Século (2018)
>>> Wild Cards: Ases Nas Alturas - Livro 2 de George R. R. Martin pela Leya (2013)
>>> Wild Cards: Guerra aos Curingas - Livro 9 de George R. R. Martin pela Leya (2018)
>>> Wild Cards: Luta de Valetes - Livro 8 de George R. R. Martin pela Leya (2017)
>>> Wild Cards: Ás na Manga: Livro 6 de George R. R. Martin pela Leya (2017)
>>> Pense e Enriqueça - para Mulheres Texto Completo de Sharon Lechter pela CDG Grupo Editorial (2017)
>>> Atitude Mental Positiva de Napoleon Hill pela CDG Grupo Editorial (2015)
COLUNAS

Terça-feira, 7/5/2013
A via férrea da poesia de Mario Alex Rosa
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 5800 Acessos

A vida como um caminho de ferro. Metáfora para um grupo de poemas que o poeta mineiro Mario Alex Rosa acaba de lançar pela editora Cosac Naify. O livro se chama Via Férrea e é a terceira publicação do autor, antecedido por outros livros de poesia, Fresta, publicado pela editora não-comercial Espectro Editorial, de Ronald Polito (2009) e Ouro Preto, pela Scriptum, de Belo Horizonte (2012).

O livro leva ao leitor 42 poemas, uma apresentação na sua orelha pelo também poeta Armando Freitas Filho e uma epígrafe do escritor Franz Kafka.

Como no livro Ouro Preto (resenhado por mim neste site em 25/09/2012), também em seu novo livro o signo da negatividade atravessa toda a poesia de Mário Alex. No entanto, não há nada paralisante nessa ausência de positividade. O poeta segue em frente, mesmo estando a existência determinada a ser dura, férrea, só possível por trilhos dolorosos. A poesia trabalha, inclusive, sobre esse eixo. É ele que determina a forma dos poemas, sua dureza, fruto daquilo que Murilo Marcondes detectou como sendo a sua "voz baixa, no sentido em que é recolhida e algo taciturna".

A epígrafe de Kafka (esse escritor de uma "literatura menor") é nesse sentido importante, pois ela indica a ideia do caminhar a partir de certo ponto, esse ponto em que a vida atinge uma certa lucidez da qual não se pode retornar. "É exatamente esse o ponto que devemos alcançar", diz Kafka. O ponto, talvez, que força o sujeito a tornar-se poeta, último recurso diante da existência sofrida como negatividade.

E não é à toa que o primeiro poema do livro se chama "Bicho" (pense-se no inseto kafkiano). Aqui há também uma metamorfose, produzida pela "dor que não adormece", pois "pela manhã sou o bicho que sai". Não há saída para o poeta: o dia que poderia trazer a vita nova só lhe traz o inferno dantesco da repetição: "Detrás da noite não há outra: só a noite vasta". Aqui não incipt vita nova (começa a vida nova).

Esse animal resmunguento, o poeta, que "se nutre da vivência concreta, embora jamais se dilua em confissão imediata" (como disse Murilo Marcondes), existe no exato momento da falha, como no poema "Freio de mão", lugar do seu embate: "o coração para de bater/ no outro e sozinho bate contra o muro".

Toda essa existência em crise que é a poesia de Mario Alex não deixa alento nem para o resultado da poesia, que de dentro de si mesma se questiona sobre a garantia do seu existir, como se pode ver no sintomático poema "Não":

Não. Não saio do poema

de mãos lavadas, peito fechado

saio aberto a tudo, sujo, sem máscara,

do corte, do apurado - palavra ou ferida.

Tudo é nítido e tudo vira manhã sem véspera

e se fere ou fezes, amor ou flor,

não garante o poema, mas a camisa de força

que controla a sua dor.

O "apurado" é que se faz poema, esses versos que lemos como resultado do confronto entre vida e sentimentos e a necessidade de que também se resulte desse embate a escrita da poesia. E ela sai dura, férrea, sem rimas, aberta tal qual ferida, incomodando o leitor, em desconcerto (proposital?) e extraviada como a vida.

Sombras, inverno, faltas, abismo, fazem pensar na poesia romântica, mas duro engano, aqui não se encontra o sublime, mas "o pó das sobras", como no poema "Mobília" onde a metáfora maior é a do "cacto na sacada implorando por uma gota d`água". E a sacada, símbolo da expectativa da vida que apenas observa e espera, não tem para si senão "o ar árido".

A negatividade desta poesia não dá descanso ao leitor. Como no caso de "Maio", onde "feridas se abrem", "um amor que não passa", "dores repousadas na memória", os mais frios e duros sentimentos norteiam esse clima gelado que "não demora a repousar só em você". Aliás, o último verso citado aponta essa solidão absoluta, já que "repousa só em você".

Um poema parece preparar o outro, "esses trilhos da continuidade eram estendidos pelo destino e circunstâncias", indo "em frente tão engatados que pareciam um sair do outro sem perder a urgência primeira", como disse acertadamente Armando Freitas Filho na orelha do livro. Por exemplo, após "Maio", citado acima, temos "Camisa de força", essa espécie de "aproximação do terror". Da lembrança de uma ave que se esfacela na asa do avião, tomada pelo poeta para sua vida presente, à "medida horizontal" (metáfora da morte) retardada, quando só "pode muito pouco", mas que o levará à "camisa de força". As feridas abertas do poema anterior levam aos versos do posterior.

"O lugar que se habita", título de um dos poemas, é o "não", morada do poeta, de onde pode partir (de onde é necessário partir) para a escrita (ou para a briga). Essa dor do existir alimenta o verso, encharcando-o de falta: "Na falta da palavra sim,/ o que dizer do não,/ do lugar que se habita?".

Creio que essa negatividade não parte apenas da experiência do existir, mas das escolhas literárias do poeta. De Kafka a ideia do estranho bicho que é o artista, deslocado no mundo, esse asqueroso ser que "nasceu na água, vive na terra, mas que deseja voar".

Outra influência, creio, é a poesia de Ronald Polito, também negativa, de quem Mario Alex é leitor atento. Com a diferença de que Ronald inscreve a negatividade num sentido beckettiano, da impossibilidade de enunciar até a falta, secando a linguagem de qualquer desejo de redenção. Em Mario Alex a poesia se inscreve como nervo aberto, traçando o verso como dor. E mesmo que não sirva de alento, a palavra ainda resulta na afirmação última da vida, como um "sim" nietzschiano. Há sangue, mas há também o calor desse líquido que se anuncia jorrar. Em Ronald Polito, o sangue já estaria seco.

A solução da poesia é nítida no verso "devorar a própria palavra até você desaparecer", como no poema "Ele só bate", que fala do coração que tanto só bate (não sente?) como também pode ser lido como bate só (sempre com a ausência). Por isso, "não adianta tocar o coração (...)/ Não tente de novo, ele só bate".

Mesmo em "Sábado, dia de alegria!", com exclamação e tudo, "a vida imprime o desassossego do fim". O que torna o poema uma espécie de "Noturno" de Chopin, melancólico, onde "a sombra ronda o dia/ que ronda o relógio das sobras". E o dia de alegria se torna um sábado que "diariamente,/ vai anoitecendo".

A riqueza da poesia de Mario Alex é que ela não dá mole para a dor, não lhe aplica calmantes, antidepressivos, deixa-a contorcer-se dentro dos versos, que se tornam para o leitor essa experiência da vida por um triz. "Extravio", último poema do livro, diz tudo: o milagre de ousar dizer o indizível, tarefa do poeta, que "risca um verso no rés da vida", sabendo que essa "via pode ser uma saída".

Para ir além


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 7/5/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1 de Renato Alessandro dos Santos


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2013
01. A Última Ceia de Leonardo da Vinci - 12/2/2013
02. Mondrian: a aventura espiritual da pintura - 22/1/2013
03. Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo - 26/2/2013
04. Cinquenta tons de cinza no mundo real - 3/9/2013
05. O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães - 18/6/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CAÇADAS DE PEDRINHO
MONTEIRO LOBATO
BRASILIENSE
(1997)
R$ 16,00



O DESAFIO DE AMAR
STEPHEN & ALEX KENDRICK
BV BOOKS
(2009)
R$ 18,00



HISTÓRIAS REAIS E FANTÁSTICAS: CRÔNICAS E ENSAIOS SOBRE A POLÍTICA CON
MARIA CLEIDE BERNAL
TABA CULTURAL
(2010)
R$ 25,28



TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA + SUPLEMENTO DE LEITURA
LIMA BARRETO
ATICA
(2006)
R$ 5,50



ELITE ONTEM, HOJE E SEMPRE
MARIA DILECTA GRIEG
OLHO DÁGUA
(2006)
R$ 8,90



DOENÇAS INFLAMATÓRIAS INTESTINAIS (DII)
DAISY MALDAUN
EXCEÇÃO
(2015)
R$ 85,00



FOTOGRAFIA DIGITAL MASTERCLASS TOTALMENTE ATUALIZADO 5562
TOM ANG
ALTA BOOKS
(2014)
R$ 91,00



OS DESTEMIDA. OLHOS DO DRAGAO - VOLUME 1
NATALIE JANE PRIOR
FUNDAMENTO
(2006)
R$ 9,90



VORAGEM POESIA
MARCELO CARDOSO
SCORTECCI
(1995)
R$ 7,56



SAMURAI GIRL: THE BOOK OF THE SWORD - BOOK ONE
CARRIE ASAI
SIMON PULSE
(2003)
R$ 19,82





busca | avançada
80183 visitas/dia
2,2 milhões/mês