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Terça-feira, 7/5/2013
A via férrea da poesia de Mario Alex Rosa
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 5600 Acessos

A vida como um caminho de ferro. Metáfora para um grupo de poemas que o poeta mineiro Mario Alex Rosa acaba de lançar pela editora Cosac Naify. O livro se chama Via Férrea e é a terceira publicação do autor, antecedido por outros livros de poesia, Fresta, publicado pela editora não-comercial Espectro Editorial, de Ronald Polito (2009) e Ouro Preto, pela Scriptum, de Belo Horizonte (2012).

O livro leva ao leitor 42 poemas, uma apresentação na sua orelha pelo também poeta Armando Freitas Filho e uma epígrafe do escritor Franz Kafka.

Como no livro Ouro Preto (resenhado por mim neste site em 25/09/2012), também em seu novo livro o signo da negatividade atravessa toda a poesia de Mário Alex. No entanto, não há nada paralisante nessa ausência de positividade. O poeta segue em frente, mesmo estando a existência determinada a ser dura, férrea, só possível por trilhos dolorosos. A poesia trabalha, inclusive, sobre esse eixo. É ele que determina a forma dos poemas, sua dureza, fruto daquilo que Murilo Marcondes detectou como sendo a sua "voz baixa, no sentido em que é recolhida e algo taciturna".

A epígrafe de Kafka (esse escritor de uma "literatura menor") é nesse sentido importante, pois ela indica a ideia do caminhar a partir de certo ponto, esse ponto em que a vida atinge uma certa lucidez da qual não se pode retornar. "É exatamente esse o ponto que devemos alcançar", diz Kafka. O ponto, talvez, que força o sujeito a tornar-se poeta, último recurso diante da existência sofrida como negatividade.

E não é à toa que o primeiro poema do livro se chama "Bicho" (pense-se no inseto kafkiano). Aqui há também uma metamorfose, produzida pela "dor que não adormece", pois "pela manhã sou o bicho que sai". Não há saída para o poeta: o dia que poderia trazer a vita nova só lhe traz o inferno dantesco da repetição: "Detrás da noite não há outra: só a noite vasta". Aqui não incipt vita nova (começa a vida nova).

Esse animal resmunguento, o poeta, que "se nutre da vivência concreta, embora jamais se dilua em confissão imediata" (como disse Murilo Marcondes), existe no exato momento da falha, como no poema "Freio de mão", lugar do seu embate: "o coração para de bater/ no outro e sozinho bate contra o muro".

Toda essa existência em crise que é a poesia de Mario Alex não deixa alento nem para o resultado da poesia, que de dentro de si mesma se questiona sobre a garantia do seu existir, como se pode ver no sintomático poema "Não":

Não. Não saio do poema

de mãos lavadas, peito fechado

saio aberto a tudo, sujo, sem máscara,

do corte, do apurado - palavra ou ferida.

Tudo é nítido e tudo vira manhã sem véspera

e se fere ou fezes, amor ou flor,

não garante o poema, mas a camisa de força

que controla a sua dor.

O "apurado" é que se faz poema, esses versos que lemos como resultado do confronto entre vida e sentimentos e a necessidade de que também se resulte desse embate a escrita da poesia. E ela sai dura, férrea, sem rimas, aberta tal qual ferida, incomodando o leitor, em desconcerto (proposital?) e extraviada como a vida.

Sombras, inverno, faltas, abismo, fazem pensar na poesia romântica, mas duro engano, aqui não se encontra o sublime, mas "o pó das sobras", como no poema "Mobília" onde a metáfora maior é a do "cacto na sacada implorando por uma gota d`água". E a sacada, símbolo da expectativa da vida que apenas observa e espera, não tem para si senão "o ar árido".

A negatividade desta poesia não dá descanso ao leitor. Como no caso de "Maio", onde "feridas se abrem", "um amor que não passa", "dores repousadas na memória", os mais frios e duros sentimentos norteiam esse clima gelado que "não demora a repousar só em você". Aliás, o último verso citado aponta essa solidão absoluta, já que "repousa só em você".

Um poema parece preparar o outro, "esses trilhos da continuidade eram estendidos pelo destino e circunstâncias", indo "em frente tão engatados que pareciam um sair do outro sem perder a urgência primeira", como disse acertadamente Armando Freitas Filho na orelha do livro. Por exemplo, após "Maio", citado acima, temos "Camisa de força", essa espécie de "aproximação do terror". Da lembrança de uma ave que se esfacela na asa do avião, tomada pelo poeta para sua vida presente, à "medida horizontal" (metáfora da morte) retardada, quando só "pode muito pouco", mas que o levará à "camisa de força". As feridas abertas do poema anterior levam aos versos do posterior.

"O lugar que se habita", título de um dos poemas, é o "não", morada do poeta, de onde pode partir (de onde é necessário partir) para a escrita (ou para a briga). Essa dor do existir alimenta o verso, encharcando-o de falta: "Na falta da palavra sim,/ o que dizer do não,/ do lugar que se habita?".

Creio que essa negatividade não parte apenas da experiência do existir, mas das escolhas literárias do poeta. De Kafka a ideia do estranho bicho que é o artista, deslocado no mundo, esse asqueroso ser que "nasceu na água, vive na terra, mas que deseja voar".

Outra influência, creio, é a poesia de Ronald Polito, também negativa, de quem Mario Alex é leitor atento. Com a diferença de que Ronald inscreve a negatividade num sentido beckettiano, da impossibilidade de enunciar até a falta, secando a linguagem de qualquer desejo de redenção. Em Mario Alex a poesia se inscreve como nervo aberto, traçando o verso como dor. E mesmo que não sirva de alento, a palavra ainda resulta na afirmação última da vida, como um "sim" nietzschiano. Há sangue, mas há também o calor desse líquido que se anuncia jorrar. Em Ronald Polito, o sangue já estaria seco.

A solução da poesia é nítida no verso "devorar a própria palavra até você desaparecer", como no poema "Ele só bate", que fala do coração que tanto só bate (não sente?) como também pode ser lido como bate só (sempre com a ausência). Por isso, "não adianta tocar o coração (...)/ Não tente de novo, ele só bate".

Mesmo em "Sábado, dia de alegria!", com exclamação e tudo, "a vida imprime o desassossego do fim". O que torna o poema uma espécie de "Noturno" de Chopin, melancólico, onde "a sombra ronda o dia/ que ronda o relógio das sobras". E o dia de alegria se torna um sábado que "diariamente,/ vai anoitecendo".

A riqueza da poesia de Mario Alex é que ela não dá mole para a dor, não lhe aplica calmantes, antidepressivos, deixa-a contorcer-se dentro dos versos, que se tornam para o leitor essa experiência da vida por um triz. "Extravio", último poema do livro, diz tudo: o milagre de ousar dizer o indizível, tarefa do poeta, que "risca um verso no rés da vida", sabendo que essa "via pode ser uma saída".

Para ir além


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 7/5/2013


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