Um demente chamado J.G. Ballard | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

busca | avançada
44867 visitas/dia
1,2 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 3/7/2013
Um demente chamado J.G. Ballard
Luiz Rebinski Junior

+ de 3300 Acessos

Já foi provado cientificamente que conhecer um autor de ficção faz mal à saúde mental do leitor. Para quem procura apenas o que realmente importa na literatura - ou seja, os livros -, o bom mesmo é não saber uma linha sequer da biografia dos escritores que lê. O que, claro, é quase impossível em nossa época, em que sabemos mais dos escritores do que de seus livros.

Ler um livro no escuro talvez seja, hoje, o que de mais honesto o leitor pode fazer para um escritor, já que a avaliação prévia que fazemos de todo autor, nesse caso não existirá. Foi com esse espírito livre, esteado por minha ignorância a respeito de J.G. Ballard, que li Crash, um de seus livros mais célebres que, até então, para mim não existia. Ainda que realmente tenha convicção do que escrevi no primeiro parágrafo, paradoxalmente sou um leitor de entrevistas e biografias de escritores. Mas quando abri o romance de Ballard, por uma razão que desconheço, não li nem mesmo seu pequeno resumo biográfico na orelha de trás do volume. Talvez estivesse sob a influência da estranheza do romance e de seus protagonistas.

Narrado em primeira pessoa, não há nada em Crash que aproxime Ballard de algo como "um escritor amargurado tentando demonstrar que, apesar de seu fracasso profissional ou literário, ele, no fundo, é um gênio e toda a história que se empenhou para contar é apenas para reforçar a sua crença". O narrador Ballard de Crash fala em uma primeira pessoa desvinculada do ego, se é que me entendem. O cara tem um texto tão fino - o que não quer dizer rebuscado -, que os "eus" desaparecem em meio à sua prosa desconcertante e recheada de pensamentos, igualmente na medida, sobre a humanidade e seu plano fracassado. Tudo feito de forma que as reflexões passem longe de qualquer almanaque filosófico.

Ballard é um roteirista de cinema e TV que sofre um acidente de carro próximo ao aeroporto de Londres, matando um homem e deixando sua mulher gravemente ferida. Mas antes de o leitor ficar extasiado com a narração do acidente, nas primeiras linhas do livro já é possível sacar que aquela não se trata de uma história convencional: "Vaughan morreu ontem em seu último desastre de carro. Ao longo de nossa amizade, ele ensaiava sua morte em muitos desastres, mas esse foi seu único acidente de verdade. Conduzindo em rota de colisão com a limusine da atriz de cinema, seu carro saltou sobre o parapeito do elevado do aeroporto de Londres e mergulhou no teto de um ônibus cheio de passageiros de uma companhia aérea". Um ótimo prólogo para o que vem pela frente.

Ballard e Vaughan são dois doentes mentais que, aos poucos, criam uma confraria de lunáticos que sentem prazer em provocar e ver acidentes automobilísticos. Uma tara que excita os participantes dessa estranha turma, que ainda conta com uma mulher mutilada, um dublê de acidentes, além da própria esposa de Ballard e, para deixar a coisa ainda mais quente, a médica que perdeu o marido na colisão com Ballard. Realmente é um time de peso. Mas ninguém tira o posto de lunático premium de Vaughan, que, como o Brás Cubas de Machado, inicia o romance morto. Vaughan é uma espécie de Antonio Conselheiro das estradas e dos acidentes, que reúne em torno de suas obsessões alguns tarados tão loucos quanto ele. Ex-especialista em computadores, Vaughan percorre as rodovias da Inglaterra fotografando acidentes e casais transando. Leva em seu carro quase todo o seu acervo, que não é pequeno. Fotos de braços decepados, tórax esmagados e carne humana presa em ferragens de caminhões se misturam a imagens de sexo oral e bundas cabeludas flagradas por sua grande angular.

Todos os membros da confraria, de uma maneira ou de outra, foram vítimas do voyerismo de Vaughan, que exerce um perturbador fascínio em que se aproxima dele, apesar de ser um homem feio, cheio de cicatrizes pelo corpo. É aí que a coisa fica mais bizarra, pois os defeitos físicos, para esse povo, são parte do prazer, como se pudessem, de alguma forma, vivenciar sexualmente os acidentes que tanto veneram.

Minha leitura não é propriamente muito original, mas me satisfaz. É quase um ato-contínuo relacionar a tara dos malucões comandados por Vaughan com os tarados por tecnologia de hoje, essa gente com uma estranha obsessão por maçãs já mordidas que faz de tudo olhando para uma tela, até mesmo sexo - ou principalmente isso. Em 1973 os computadores ainda não estavam em alta, e talvez os carros fossem um símbolo forte de tecnologia da época, mas é só trocar o carro por computadores, telefones e internet, que Crash imediatamente passa a ser um romance dos anos 2000. Ballard, portanto, pode se sentar ao lado daqueles escritores conhecidos por vislumbrar o futuro com suas ficções, pelo menos no meu entendimento.

Ballard, o escritor, é daqueles autores que faz o leitor acreditar que todas aquelas palavras do livro são indispensáveis e insubstituíveis - o que certamente, no caso do livro que li, também deve ser creditado o trampo do tradutor. Não há linha ou parágrafo fora do lugar. O que certamente está indissociavelmente ligado às reflexões sobre a relação entre tecnologia e perversão sexual que o romance bizarramente discute. Some-se a essas habilidades, o fato de o mote do romance ser extremamente inventivo e exótico, como poucos hoje.

Os personagens também tomam suas pílulas, pois ninguém vive apenas de sexo e acidentes. E nessa hora Ballard, o escritor, aproveita para ir fundo na mente de suas crias. Mas as viagens de Crash não incluem alucinações que trazem à mente do indivíduo elefantes que voam ou coisas similares que o cinema sempre tentou retratar e nunca conseguiu. As drogas ajudam a capitalizar a sensibilidade dos personagens para que um decifre a mente do outro, num jogo de paranoia ferrado.

"Comecei a compreender os verdadeiros prazeres do desastre de carro depois do meu primeiro encontro com Vaughan. Sustentada num par de pernas tortas e cheias de cicatrizes, machucadas reiteradamente em uma ou outra colisão automobilística, a rude e perturbadora figura desse cientista truculento entrou na minha vida numa época em que suas obsessões eram sem dúvidas as de um louco", diz Ballard em um dos primeiros trechos do livro, sobre o fascínio exercido pelo guru das colisões.

Todos os atores desse roteiro de filme trash têm a convicção de que aquilo que cultuam simplesmente faz parte do mundo, ainda que tenham um mínimo de noção das convenções que os cercam. Assim como os noias do crack, os viciados em jogos e os pedófilos, os personagens de Ballard acreditam piamente que simplesmente existem e nada mais importa. Mas o que é mais impressionante, é que por um momento o leitor passa a acreditar que realmente aquele mundo é possível e até mesmo viável - e talvez o seja mesmo.

Ballard escreveu que ao ler Crash, seu analista disse que aquilo só poderia ter saído de uma mente doentia. O escritor encarou as palavras como um elogio. De minha parte, rezo todos os dias para encontrar livros como o desse demente.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 3/7/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O artífice do sertão de Celso A. Uequed Pitol
02. O tigre de papel que ruge de Celso A. Uequed Pitol
03. A Fera na Selva, filme de Paulo Betti de Jardel Dias Cavalcanti
04. Os Doze Trabalhos de Mónika. 10. O Gerador de Luz de Heloisa Pait
05. Os Doze Trabalhos de Mónika. 9. Um Cacho de Banana de Heloisa Pait


Mais Luiz Rebinski Junior
Mais Acessadas de Luiz Rebinski Junior
01. Literatura pop: um gênero que não existe - 5/12/2007
02. Recordações da casa dos mortos - 12/4/2007
03. Quem é o autor de um filme? - 6/8/2007
04. O jornalismo cultural no Brasil - 2/1/2008
05. Reinaldo Moraes fala de sua Pornopopéia - 2/12/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




COMPLEXO DE CINDERELA
COLETTE DOWLING
MELHORAMENTOS
(1986)
R$ 4,50



HISTÓRIA DO IMPÉRIO A ELABORAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA TOMO 2
TOBIAS MONTEIRO
ITATIAIA
(1981)
R$ 23,00



PEQUENAS COISAS QUE FAZEM UM HOMEM FELIZ
CRISTINA VON
CLARIDADE
(2003)
R$ 4,25



O HOMEM E O PODER AUTOGRAFADO
JOSÉ MARIA RODRIGUES DA SILVA
BERTRAND
(1988)
R$ 50,00



A PRINCESINHA QUE FALAVA SAPOS - RUBEM ALVES (LITERATURA INFANTIL)
RUBEM ALVES
PAULUS
(2005)
R$ 7,00



NOVO -DESENVOLVIDO PARA A MORTE
TED TRAINER
GAIA
(1989)
R$ 8,69



JÉSSICA EDIÇÃO 79 - O LIMITE DO DESEJO
SARA CRAVEN
HARLEQUIN
(2008)
R$ 7,19



ARTE DO RELAX
HERMAN SCHWARTZ
FORENSE
(1954)
R$ 12,00



O ERMITÃO DA GLÓRIA/A PATA DA GAZELA
JOSÉ DE ALENCAR
GUANABARA
R$ 4,00



O ATENEU
RAUL POMPÉIA
NOVA CULTURAL
(2003)
R$ 8,00





busca | avançada
44867 visitas/dia
1,2 milhão/mês