Um demente chamado J.G. Ballard | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

busca | avançada
37883 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Impressões sobre São Paulo
>>> Lobato e os amigos do Brasil
>>> A Promessa da Política, de Hannah Arendt
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Luciano do Valle (1947-2014)
>>> Por que as velhas redações se tornaram insustentáveis on-line
>>> Ação Social
>>> Dá-lhe, Villa!
>>> forças infernais
>>> 20 de Abril #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> Fantasma Equilibrista de Tânia Alexandre Martinelli pela Positivo (2009)
>>> A História de Cada Um de Juciara Rodrigues pela Scipione (2010)
>>> Exercícios de Admiração de E. M. Cioran pela Rocco (2011)
>>> A Baleia de Cláudio Feldman pela FTD (2006)
>>> Teoria do Drone de Grégoire Chamayou pela Cosac Naify (2015)
>>> Uma Temporada no Inferno & Iluminações de Arthur Rimbaud pela Francisco Alves (1982)
>>> Viagem a Portugal de José Saramago pela Companhia das Letras (2011)
>>> Para Uma Revolução Democrática da Justiça de Boaventura de Sousa Santos pela Cortez (2011)
>>> Dicionário de termos ambientais de Antonio Leal pela Letras & Magia (2007)
>>> Casa de Praia com Piscina de Herman Koch pela Intrínseca (2015)
>>> Natureza Humana, Justiça vs. Poder de Michel Foucault e Noam Chomsky pela Martins Fontes (2014)
>>> A Arvore dos Anjos de Lucinda Riley pela Arqueiro (2017)
>>> A Herdeira da Morte de Melinda Salisbury pela Fantastica Rocco (2016)
>>> Uma Gentileza por Dia de Orly Wahba pela Benvira (2017)
>>> Eu sou as Escolhas que Faço de Elle Luna pela Sextante (2016)
>>> Coroa Cruel - Série a Rainha Vermelha de Victoria Aveyard pela Seguinte (2016)
>>> Sade em Sodoma de Flávio Braga pela BestSeller (2008)
>>> Curso de Filosofia em Seis Horas e Quinze Minutos de Witold Gombrowicz pela José Olympio (2011)
>>> O pequeno Principe de Antoine de Saint Exupery pela Agir (2009)
>>> Zoloé e Suas Duas Amantes de Marquês de Sade pela Record (1968)
>>> Expressões Diante do Trono de Ministério de Louvor Diante do Trono pela Diante do Trono (2003)
>>> A separação dos amantes - uma fenomenologia da morte de Igor Caruso pela Cortez (1989)
>>> Os Titãs / A Saga da Família Kent (Volume V) de John Jakes pela Record/ RJ.
>>> A Universidade em Ritmo de Barbárie de José Arthur Giannotti pela Brasiliense (1986)
>>> A Mulher Só de Harold Robbins/ (Tradução) Nelson Rodrigues pela Record/ RJ.
>>> Dependência e desenvolvimento na América Latina - ensaio de interpretação sociológica de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto pela Zahar (1970)
>>> Tubarão de Peter Benchley pela Nova Cultural (1987)
>>> O Titã de Fred Mustard Stewart pela Record
>>> O Beijo da Mulher Aranha de Manuel Puig pela Codecri/ RJ. (1981)
>>> A Traição de Rita Hayworth/ Capa Dura de Manuel Puig pela Circulo do Livro/ SP. (1993)
>>> Boquitas Pintadas/ Capa Dura de Manuel Puig pela Circulo do Livro/ SP. (1988)
>>> Kit De Estudo Para Concursos: Só concursos (3 CDs + Folheto) + Guia do Concurseiro + Redação para Concursos de Equipe Mundial Editorial pela DCL - difusão cultural do livro (2016)
>>> Numa Terra Estranha de James Baldwin pela Rio Gráfica (1986)
>>> 1934 de Alberto Moravia pela Rio Gráfica (1986)
>>> Mil Platôs Vol. 1 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela 34 (2011)
>>> A Menina que Roubava Livros de Markus Zusak pela Intrínseca/RJ. (2007)
>>> Mil Platôs Vol. 2 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela 34 (2011)
>>> Mil Platôs Vol. 3 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela 34 (2012)
>>> Ajin - Demi-Human #01 de Gamon Sakurai pela Panini (2016)
>>> Ajin - Demi-Human #02 de Gamon Sakurai pela Panini (2016)
>>> Ajin - Demi-Human #03 de Gamon Sakurai pela Panini (2016)
>>> Incendio de Troia (capa dura couro) de Marion ZimmerBradley pela Circulo do Livro/ SP. (1994)
>>> Ajin - Demi-Human #04 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #05 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #06 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #07 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #08 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #09 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> The Buenos Aires Affair de Manuel Puig pela Nova Cultural (1987)
>>> Ajin - Demi-Human #10 de Gamon Sakurai pela Panini (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 3/7/2013
Um demente chamado J.G. Ballard
Luiz Rebinski Junior

+ de 3300 Acessos

Já foi provado cientificamente que conhecer um autor de ficção faz mal à saúde mental do leitor. Para quem procura apenas o que realmente importa na literatura - ou seja, os livros -, o bom mesmo é não saber uma linha sequer da biografia dos escritores que lê. O que, claro, é quase impossível em nossa época, em que sabemos mais dos escritores do que de seus livros.

Ler um livro no escuro talvez seja, hoje, o que de mais honesto o leitor pode fazer para um escritor, já que a avaliação prévia que fazemos de todo autor, nesse caso não existirá. Foi com esse espírito livre, esteado por minha ignorância a respeito de J.G. Ballard, que li Crash, um de seus livros mais célebres que, até então, para mim não existia. Ainda que realmente tenha convicção do que escrevi no primeiro parágrafo, paradoxalmente sou um leitor de entrevistas e biografias de escritores. Mas quando abri o romance de Ballard, por uma razão que desconheço, não li nem mesmo seu pequeno resumo biográfico na orelha de trás do volume. Talvez estivesse sob a influência da estranheza do romance e de seus protagonistas.

Narrado em primeira pessoa, não há nada em Crash que aproxime Ballard de algo como "um escritor amargurado tentando demonstrar que, apesar de seu fracasso profissional ou literário, ele, no fundo, é um gênio e toda a história que se empenhou para contar é apenas para reforçar a sua crença". O narrador Ballard de Crash fala em uma primeira pessoa desvinculada do ego, se é que me entendem. O cara tem um texto tão fino - o que não quer dizer rebuscado -, que os "eus" desaparecem em meio à sua prosa desconcertante e recheada de pensamentos, igualmente na medida, sobre a humanidade e seu plano fracassado. Tudo feito de forma que as reflexões passem longe de qualquer almanaque filosófico.

Ballard é um roteirista de cinema e TV que sofre um acidente de carro próximo ao aeroporto de Londres, matando um homem e deixando sua mulher gravemente ferida. Mas antes de o leitor ficar extasiado com a narração do acidente, nas primeiras linhas do livro já é possível sacar que aquela não se trata de uma história convencional: "Vaughan morreu ontem em seu último desastre de carro. Ao longo de nossa amizade, ele ensaiava sua morte em muitos desastres, mas esse foi seu único acidente de verdade. Conduzindo em rota de colisão com a limusine da atriz de cinema, seu carro saltou sobre o parapeito do elevado do aeroporto de Londres e mergulhou no teto de um ônibus cheio de passageiros de uma companhia aérea". Um ótimo prólogo para o que vem pela frente.

Ballard e Vaughan são dois doentes mentais que, aos poucos, criam uma confraria de lunáticos que sentem prazer em provocar e ver acidentes automobilísticos. Uma tara que excita os participantes dessa estranha turma, que ainda conta com uma mulher mutilada, um dublê de acidentes, além da própria esposa de Ballard e, para deixar a coisa ainda mais quente, a médica que perdeu o marido na colisão com Ballard. Realmente é um time de peso. Mas ninguém tira o posto de lunático premium de Vaughan, que, como o Brás Cubas de Machado, inicia o romance morto. Vaughan é uma espécie de Antonio Conselheiro das estradas e dos acidentes, que reúne em torno de suas obsessões alguns tarados tão loucos quanto ele. Ex-especialista em computadores, Vaughan percorre as rodovias da Inglaterra fotografando acidentes e casais transando. Leva em seu carro quase todo o seu acervo, que não é pequeno. Fotos de braços decepados, tórax esmagados e carne humana presa em ferragens de caminhões se misturam a imagens de sexo oral e bundas cabeludas flagradas por sua grande angular.

Todos os membros da confraria, de uma maneira ou de outra, foram vítimas do voyerismo de Vaughan, que exerce um perturbador fascínio em que se aproxima dele, apesar de ser um homem feio, cheio de cicatrizes pelo corpo. É aí que a coisa fica mais bizarra, pois os defeitos físicos, para esse povo, são parte do prazer, como se pudessem, de alguma forma, vivenciar sexualmente os acidentes que tanto veneram.

Minha leitura não é propriamente muito original, mas me satisfaz. É quase um ato-contínuo relacionar a tara dos malucões comandados por Vaughan com os tarados por tecnologia de hoje, essa gente com uma estranha obsessão por maçãs já mordidas que faz de tudo olhando para uma tela, até mesmo sexo - ou principalmente isso. Em 1973 os computadores ainda não estavam em alta, e talvez os carros fossem um símbolo forte de tecnologia da época, mas é só trocar o carro por computadores, telefones e internet, que Crash imediatamente passa a ser um romance dos anos 2000. Ballard, portanto, pode se sentar ao lado daqueles escritores conhecidos por vislumbrar o futuro com suas ficções, pelo menos no meu entendimento.

Ballard, o escritor, é daqueles autores que faz o leitor acreditar que todas aquelas palavras do livro são indispensáveis e insubstituíveis - o que certamente, no caso do livro que li, também deve ser creditado o trampo do tradutor. Não há linha ou parágrafo fora do lugar. O que certamente está indissociavelmente ligado às reflexões sobre a relação entre tecnologia e perversão sexual que o romance bizarramente discute. Some-se a essas habilidades, o fato de o mote do romance ser extremamente inventivo e exótico, como poucos hoje.

Os personagens também tomam suas pílulas, pois ninguém vive apenas de sexo e acidentes. E nessa hora Ballard, o escritor, aproveita para ir fundo na mente de suas crias. Mas as viagens de Crash não incluem alucinações que trazem à mente do indivíduo elefantes que voam ou coisas similares que o cinema sempre tentou retratar e nunca conseguiu. As drogas ajudam a capitalizar a sensibilidade dos personagens para que um decifre a mente do outro, num jogo de paranoia ferrado.

"Comecei a compreender os verdadeiros prazeres do desastre de carro depois do meu primeiro encontro com Vaughan. Sustentada num par de pernas tortas e cheias de cicatrizes, machucadas reiteradamente em uma ou outra colisão automobilística, a rude e perturbadora figura desse cientista truculento entrou na minha vida numa época em que suas obsessões eram sem dúvidas as de um louco", diz Ballard em um dos primeiros trechos do livro, sobre o fascínio exercido pelo guru das colisões.

Todos os atores desse roteiro de filme trash têm a convicção de que aquilo que cultuam simplesmente faz parte do mundo, ainda que tenham um mínimo de noção das convenções que os cercam. Assim como os noias do crack, os viciados em jogos e os pedófilos, os personagens de Ballard acreditam piamente que simplesmente existem e nada mais importa. Mas o que é mais impressionante, é que por um momento o leitor passa a acreditar que realmente aquele mundo é possível e até mesmo viável - e talvez o seja mesmo.

Ballard escreveu que ao ler Crash, seu analista disse que aquilo só poderia ter saído de uma mente doentia. O escritor encarou as palavras como um elogio. De minha parte, rezo todos os dias para encontrar livros como o desse demente.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 3/7/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A noite em que Usain Bolt ignorou nosso Vinicius de Elisa Andrade Buzzo
02. Um socialista na Casa Branca? de Celso A. Uequed Pitol
03. Cidade-sinestesia de Elisa Andrade Buzzo
04. O armário que me pariu de Lisandro Gaertner
05. A polícia militar e o atentado à democracia de Gian Danton


Mais Luiz Rebinski Junior
Mais Acessadas de Luiz Rebinski Junior
01. Literatura pop: um gênero que não existe - 5/12/2007
02. Recordações da casa dos mortos - 12/4/2007
03. O jornalismo cultural no Brasil - 2/1/2008
04. Quem é o autor de um filme? - 6/8/2007
05. Reinaldo Moraes fala de sua Pornopopéia - 2/12/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PÉROLA
MAURO RASI
RECORD
(1998)
R$ 19,90
+ frete grátis



MATEMÁTICA FINANCEIRA E ANÁLISE DE INVESTIMENTOS
SILVIO TEIXEIRA COELHO
CIA EDIT NACIONAL
(1979)
R$ 4,99



MEMÓRIAS DO MARECHAL DE CAMPO VISCONDE MONTGOMERY DE ALAMEIN
MONTGOMERY OF ALAMEIN, K. G
IBRASA
(1960)
R$ 14,00



PROVA DE FOGO (2ª ED.)
PEDRO BANDEIRA
ÁTICA
(1997)
R$ 11,90



PIXOTE INFÂNCIA DA MORTE
JOSÉ LOUZEIRO
EDIOURO
(2000)
R$ 4,00



FALCÃO - MULHERES E O TRÁFICO
CELSO ATHAYDE E MV BILL
OBJETIVA
(2007)
R$ 23,00



AMENDOIM A TARTARUGUINHA ENCANTADA
PALMIRA HEINE
GARCIA
(2015)
R$ 16,90



LES POLITIQUES INDUSTRIELLES: LIBÉRALISME OU INTERVENTION DE LÉTA
A. DAVIE
HATIER (PARIS)
(1989)
R$ 19,28



DIÁRIO DE UM BANANA: SEGURANDO VELA
JEFF KINNEY
V&R
(2013)
R$ 14,00



MARKETING PARTICIPATIVO
ROBSON PANIAGO
PLÊIADE
(2010)
R$ 25,00





busca | avançada
37883 visitas/dia
1,3 milhão/mês