Fique de cinto até a parada total da aeronave | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 19/7/2013
Fique de cinto até a parada total da aeronave
Ana Elisa Ribeiro

+ de 3700 Acessos

Aquele plec, plec, plec de fivelas de cinto de segurança se abrindo me irrita muito. Mas não me irrita porque o barulho me faça sentir gastura; me irrita porque, geralmente, o comissário de bordo acabou de dizer: "Mantenham-se sentados, com o cinto de segurança atado, até a parada total da aeronave". Sinto como uma mãe que acaba de dizer "não faça" ao pimpolho, mas o atrevido a olha bem nas pupilas e a desobedece. É, afinal, dessa educação parca de que se está tratando aqui.

Sempre, sempre mesmo, que viajo de avião - e isso ocorre muitas vezes ao ano -, eu vejo as pessoas fazerem isso sem cerimônia. Eu tenho cerimônia para abrir o cinto e para me levantar, enquanto a aeronave se move. Mas não principalmente por isso. Minha cerimônia existe porque deve haver um motivo para terem pedido que eu ficasse sentada, de cinto atado. Por isso é que informação costuma ser importante. Se todos soubéssemos o que nos pode acontecer se desobedecêssemos, talvez mais pessoas me acompanhassem nesta cerimônia.

No entanto, isso não rola porque as pessoas curtem a experiência empírica. Fazem uma, duas, três vezes. Se não acontece nada visível, tipo, se o avião não cai, então pensam que não precisam obedecer mais a qualquer norma desse tipo. Ou não. Sei que ter informação não é tudo justamente porque conheço muita gente que a tem, aos borbotões, e nem por isso consegue conter sua má educação. Começo por mim, que sempre fui muito leitora e esclarecida, mas engravidei sem planejar, assim mesmo.

Bem, mas ocorre que também já vi cenas curiosas por conta da desobediência das pessoas, dentro dos aviões comerciais. Numa dessas cenas, a aeromoça, um tanto impaciente, disse a todos, pelo sistema de som, pausadamente: "Mantenham-se SEN-TA-DOS, com os cintos A-FI-VE-LA-DOS, até a parada TO-TAL da aeronave". As pessoas riram, algumas retornaram aos assentos, outras despistaram, mas a maioria achou graça e agiu como se fosse apenas piada.

De outra vez, o comissário pegou o microfone e disse, para toda a turma que estava ali: "Peço aos senhores, por gentileza, que mantenham-se sentados, com os cintos, até que o avião pare de se mover, conforme JÁ DISSEMOS". Aí eu me solidarizo bastante com esse moço, que me lembra, em muito, minha atuação nas salas de aula. E mesmo na sala da minha casa, onde um guri de 9 anos tenta aprender a se conter quando é devido.

O outro recado que me impressiona é aquele sobre fumar nos banheiros. Mas será o Benedito? Alguém fuma escondido, em avião, ainda? Não subestimo nunca a estupidez alheia. Conhecimento empírico também. Bem, se é preciso dar o recado, é porque ainda não chegamos a outra situação. Vai ver.

E tem mais um: aquele recado sobre desligar os aparelhos eletrônicos, inclusive os que têm "modo avião". Vamos lá, pessoal, vamos desligar o telefone. Durante o voo ele não "pega". Será que não se pode mais ficar sem isso por uma hora, duas, três, seis? OK. Se algo acontecer lá embaixo, você vai pedir pra descer, caso seja avisado pelo celular? Bem, mas existem aqueles voos com internet e telefonia móvel. São pra quem pode, né? Já viu quanto fica uma chamadinha atendida pelos ares?

Mas, desta última vez em que viajei, foi muito mais comovente. A comissária de bordo, uma senhora mais velha, com cabelos amarelo-gema e uma voz insuportavelmente infantil, implorou, isto mesmo, implorou aos passageiros - a maioria cansada de voar de avião - que todos desligassem os aparelhos eletrônicos, inclusive os celulares. E não adiantou.

Foi constrangedor. Depois de pedir o desligamento dos equipamentos uma vez, ela percorreu o avião para verificar encostos de assentos, cintos etc. Mas viu que muita gente continuava falando ao celular, jogando, mexendo aqui e ali, mandando SMS, etc. Ela falou com um, falou com outro, e as pessoas faziam muxoxo. Até que ela desistiu, correu lá adiante, pegou o microfone e implorou que as pessoas desligassem os celulares: "Senhoras e senhores, conforme já pedi, por favor, mas por favor mesmo, eu ficaria realmente muito agradecida, se vocês desligassem seus aparelhos. Nós pedimos tanto, nós falamos sobre isso porque precisamos cumprir as normas da Anac. Isto é SEGURANÇA, meus senhores. Mas são tantas pessoas com aparelhos ligados que nem parece que eu já pedi! Por favor, eu ficaria mesmo MUITO GRATA se vocês desligassem esses aparelhos para termos um voo seguro e tranquilo". Pensei: nossa, agora esse povo desliga. Que horror. Mas não.

O que rolou foi muxoxo de todo lado, um ou outro desligando o equipamento e gente fina, finíssima, tecendo comentários assim: "ai, ai, ela pensa que manda na gente". Eu, agora, não me contive. Era uma situação em que ninguém falava diretamente para ninguém, mas todo mundo fazia um comentário alto, para alguém ouvir. Teci o meu: "Uma pena que ela precise falar isto".

Essas são as pessoas finas e educadas que viajam de avião e que vão pedir coisas por aí. São as pessoas que não conseguem cumprir um protocolo mínimo de recomendações dentro do avião, enquanto vão passear ou trabalhar. São esses meninos e meninas que olhavam dentro dos olhos dos pais e os desacatavam em casa; e desacatavam o professor na sala; e não têm noção de bem comum ou de civilidade mesmo. Talvez. Se estamos todos dentro do avião, agir corretamente não é pensar no bem comum? Acho que exagerei, né? Não devia. É que fiquei comovida com a comissária de bordo de cabelos pintados. O trabalho dela é muito chato, muito mesmo. Lidar com gente mal educada todos os dias e ainda ouvir ironia não é pra qualquer um.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 19/7/2013


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