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Quarta-feira, 2/7/2014
O luto e o luto de Valter Hugo Mãe
Wellington Machado

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Imagem: Jakeline Lins



Tenho a impressão de que o luto está se esvaindo. Já não se cumprem mais lutos como antigamente. Lembro de, quando garoto, sair pra pescar com meu pai nas redondezas da Cordisburgo de Guimarães Rosa. Quando chegamos no rancho, na beirada do Rio das Velhas, encontramos a dona Maria sentada no quintal, cumprindo o luto do Nhô, o rancheiro amigo de meu pai. Havia por perto um par de sapatos, uma camisa e uma calça do falecido. "Deus levou Nhô, faz três meses", foram as palavras de dona Maria, desamparada. Luto durável. Lembro bem também do luto de dona Risoleta, esposa de Tancredo Neves. Me lembro de vê-la, anos depois da morte do marido, surgindo de preto e óculos escuros nos eventos oficiais. E não consigo me esquecer do provável luto eterno dos Rubens Paiva, que há 40 anos espera enterrar seu patriarca.

O ritual do luto está mais curto, acho. Correria da vida moderna? Estaríamos ludibriando o luto com consumo? Vejo pessoas criando fórmulas de burlar o luto. Uma vizinha, ao perder o marido, arrumou as malas e foi "espairecer" em Paris. Não acreditei quando vi na TV uma personalidade brasileira sair de uma festa badalada, um tanto alterada e numa alegria contagiante, poucos meses depois de ter perdido o filho numa morte trágica. Em raras situações presenciei tamanho desprendimento. O tempo ritualístico do luto de dona Maria, esposa do rancheiro Nhô, não é mais o tempo do homem moderno.

O luto poético de Hugo Mãe
O escritor português Valter Hugo Mãe, em seu mais recente romance, A desumanização, retoma de forma cruel a prática familiar do luto, mas de uma maneira poética. O livro narra a história de duas irmãs gêmeas, Sigridur e Halla. A primeira morre aos 12 anos. Halla passa a viver, portanto, sem a sua "metade", em meio a uma família desestruturada. Ela tem uma relação conflituosa - de ódio, até - com a mãe. Por outro lado, ela se identifica com o pai - uma pessoa lúdica e sensível; um poeta. Como se não bastassem os conflitos familiares, Halla engravida de forma prematura de Einar, um adulto truculento, feio e ingênuo. Um rejeitado pela sociedade. A garota tem de lidar com a rejeição social ainda na adolescência.

Mas o fio que conduz a narrativa é a maneira como a família vivencia o luto de Sigridur, a forma como concebem simbolicamente seu corpo afundado na terra, como se fosse um "plantio" para o renascer de uma árvore. Eles tinham a expectativa de que a irmã "brotasse" da terra. O luto a que a família se impõe é cruel, quase masoquista. A mãe sangrava, "vingava-se de si mesma por não ter sabido salvar uma filha". O luto desumaniza, cria "gente sem gente dentro", nas palavras de Hugo Mãe.

A revolta de Halla é impactante. Ela teme o próprio crescimento com o passar dos anos, como se fosse "abandonar" a irmã na memória e na história. Halla se imagina um bonsai ("corta meu corpo, impede-o de mudar"); ela quer manter a aparência da irmã para não perdê-la com o tempo ("vou passar a andar encolhida, dormir apertada, comer menos").

O luto da família se arrasta quase que infinitamente. O ritual de adoração a Sigridur é uma questão de honra familiar, uma espécie de ética. A esperança de trazer a irmã de volta evidencia a inocência e a pureza dos personagens. Mas o tempo se encarrega de regular as coisas. De tanto Sigridur "não vir", a família vai se descolando dos rituais. Ao mesmo tempo a ausência da irmã cumpre a função de reumanizar as pessoas, transformar as personalidades, amolecer corações e semear poesia nas relações. A reorganização familiar é um exemplo de superação.

Ler Valter Hugo Mãe é ter contato com uma narrativa poética a cada parágrafo. Especificamente em A desumanização, o autor se sai bem na pele de Hallar, uma garota adolescente e imatura. Não há como não detectar, em várias partes do livro, a influência de Guimarães Rosa na forma de narrar de Hugo Mãe. Dono de uma das mais autênticas vozes narrativas portuguesas, o escritor surpreende o leitor com a força das cenas criadas. Eis um um pequeno exemplo, na passagem em que Halla narra seu aborto:

As águas saíram fedendo de dentro de mim. Escorreram como mal cozinhadas, a coagular. Traziam sangue e sangue solidificado. Eram novelos vermelhos que tinham pequenos filamentos, como anémonas do coração. Medusas. Monstros do coração. Perdi os sentidos.

Quando me puseram um filho quieto nos braços, julguei que o meu próprio corpo se tinha ao colo. Julguei que os meus braços se seguravam. O corpo quieto do meu filho ainda mal completo. Enrugado. Uns gramas de filho que não se sustentaram. Estavam no pano postos como uma pressa inexplicável. Era um filho à pressa. A minha mãe disse: fazes tudo assim, maldita, fazes tudo como se fosses um bicho. Vou gostar de te ver morta como um bicho também.

E eu respondi: morra a senhora também, minha mãe.

O Eimar veio gritar de louco ao pé da nossa casa. Souberam todos que eu estava de morte ao colo. Souberam todos como ele chorou e se enfureceu. O meu pai, punido, abraçou o louco. Deixou-o entrar. Eu disse-lhe: está morto. Agora, é mais uma coisa de deus.

A pele de minha barriga estava solta. Era muita pele para nada dentro. E estava seca. Tocava-lhe, sem filho, sentia que o corpo se alheava de mim, como muito distinto de mim, Rejeitando-me. Uma casa assaltada. Não era alguém. Era uma casa assaltada. Um lugar que, subitamente, se desocupara. Um lugar que alguém rejeitara.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 2/7/2014


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