Contra a breguice no Facebook | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

busca | avançada
46024 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Nubank na Hotmart
>>> O recente choque do petróleo
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A deliciosa estética gay de Pierre et Gilles
>>> A deliciosa estética gay de Pierre et Gilles
>>> São Francisco Xavier II
>>> Rugas e rusgas
>>> Orra, Meu
>>> Uma outra moda
>>> Ler ao acaso
>>> Um ano de reflexões na Big Apple
>>> Steve Jobs apresentando o iPad
>>> De quantos modos um menino queima?
Mais Recentes
>>> Um Amigo da Família de Lisa Jewell pela Record/ RJ. (2006)
>>> Antes Que Eu Queime de Gaute Heivol pela L&pm, Porto Alegre (2013)
>>> Estava Escrito - O que Realmente Sabmos sobre os Nossos Filhos? de Gunnar Staalesen pela Vertigo (2013)
>>> Queimado de Thomas Enger pela Amarilys (2015)
>>> Como Treinar um Grupo de Trabalho Eficiente (com 59 Psico- Jogos, de E de Rainer E. Kirsten / Joachim Müller-schwarz pela Ediouro (1980)
>>> À Margem da Poética Trovadoresca de Celso Ferreira da Cunha/ Autografado pela Dep. Imprensa Nacional/ Rj. (1950)
>>> A Formação Histórica da Língua Portuguesa de Francisco Silveira Bueno pela Livr. Acadêmica (1958)
>>> A Formação Histórica da Língua Portuguesa de Francisco Silveira Bueno pela Livr. Acadêmica (1955)
>>> Constituição do Estado de Minas Gerais: Estatuto dos Servidores Públic de José do Carmo Veiga de Oliveira: Organizad pela Del Rey/ Belo Horizonte (2003)
>>> Compêndio das Etapas do Processo Eleitoral: ... de J. Nepomuceno Silva: Organizador pela Del Rey/ Belo Horizonte (2010)
>>> (Re) Pensando a Pesquisa Jurídica de Miracy Barbosa de Souza Gustin (...) pela Del Rey/ Belo Horizonte (2006)
>>> A C Repórter - Tempo de Arraes e Vietnã do Norte de Antonio Callado pela Agir (2005)
>>> Mahoma, Profeta y Hombre de Estado de W.M.Watt pela Labor (1967)
>>> Em Risco de Stella Rimington pela Record/ RJ. (2010)
>>> O Círculo dos Eleitos de Vialdi Moreira/ Autogrfado pela Imprensa Oficial/ Belo Hte. (1987)
>>> A Amante de Brecht de Jacques- Pierre Amette pela Record/ RJ. (2005)
>>> Coleção para gostar de ler de Varios pela Atica (1985)
>>> Grande Enciclopédia de Modelismo - Cor e Pintura de Walquir Baptista de Moura - Produção pela Século Futuro
>>> Meu pequeno fim de Fabrício Marques pela Segrac (2002)
>>> Grande Enciclopédia de Modelismo - Materiais e Ferramentas de Walquir Baptista de Moura - Produção pela Século Futuro
>>> Livro Dicionário Enciclopédico Veja Larousse - Volume 1 de Eurípedes Alcântara , Diretor Editorial pela Abril (2006)
>>> O diário de Larissa de Larissa Manoela pela Harper Collins (2016)
>>> Corpo de delito de Patricia Cornwell pela Paralela (2000)
>>> O fio do bisturi de Tess Gerritsen pela Harper Collins (2016)
>>> A garota dinamarquesa de Davdid Ebershoff pela Fabrica 231 (2000)
>>> Uma auto biografia de Rita Lee pela Globo livros (2016)
>>> Songbook Caetano Veloso Volume 2 de Almir Chediak pela Lumiar
>>> A Sentinela de Lya Luft pela Record (2005)
>>> O teorema Katherine de John Green pela Intriseca (2013)
>>> Louco por viver de Roberto Shiyashiki pela Gente (2015)
>>> A ilha dos dissidentes de Barbara Morais pela Gutemberg (2013)
>>> Sentido e intertextualidade de Emanuel Cardoso Silva pela Unimarco (1997)
>>> Mistérios do Coração de Roberto Shinyashiki pela Gente (1990)
>>> Interrelacionamento das Ciências da Linguagem de Monica Rector Toledo Silva pela Edições Gernasa (1974)
>>> Sociologia e Desenvolvimento de Costa Pinto pela Civilização Brasileira (1963)
>>> O Coronel Chabert e Um Caso Tenebroso de Honoré de Balzac pela Otto Pierre Editores (1978)
>>> O golpe de 68 no Peru: Do caudilhismo ao nacionalismo? de Major Victor Villanueva pela Civilização Brasileira (1969)
>>> Recordações da casa dos mortos de Fiodor Dostoiévski pela Nova Alexandria (2006)
>>> Elric de Melniboné: a traição ao imperador de Michael Moorcock pela Generale (2015)
>>> O Príncipe de Nicolau Maquiavel pela Vozes de Bolso (2018)
>>> Deuses Americanos de Neil Gaiman pela Conrad (2002)
>>> Deus é inocente – a imprensa, não de Carlos Dorneles pela Globo (2003)
>>> Memórias do subsolo de Fiodor Dostoiévski pela 34 (2000)
>>> Songbook - Tom Jobim, Volume 3 de Almir Chediak pela Lumiar (1990)
>>> Comunicação e contra-hegemonia de Eduardo Granja Coutinho (org.) pela EdUFRJ (2008)
>>> Caetano Veloso Songbook V. 1 de Almir Chediak pela Lumiar
>>> Origami a Milenar Arte das Dobraduras de Carlos Genova pela Escrituras (2004)
>>> O vampiro Lestat de Anne Rice pela Rocco (1999)
>>> Nova enciclopédia ilustrada Folha volume 2 de Folha de São Paulo pela Publifolha (1996)
>>> Esperança para a família de Willie e Elaine Oliver pela Cpb (2018)
COLUNAS

Sexta-feira, 5/6/2015
Contra a breguice no Facebook
Marta Barcellos

+ de 3400 Acessos

Quando minha filha tinha dois anos, fomos convidados para o aniversário de John, um bebê do nosso prédio que comemoraria seu primeiro ano de vida numa casa de festas de São Paulo. Pouco tempo antes, no playground do edifício, eu tivera a oportunidade de conhecer a mãe de John, enquanto nossos bebês (não) brincavam juntos (ele ainda pegando sol no carrinho; a minha já deslizando perigosamente pelo escorregador). Para minha surpresa, os pais de John não eram estrangeiros, mas do interior de São Paulo, e a curiosidade sobre o nome inglês se dissipou diante da revelação maior da progenitora: seu filho era fruto de um milagre.

Ela repetiu a palavra milagre algumas vezes, enquanto contava de forma bíblica uma história não tão rara: tentara engravidar durante alguns anos, chegara a fazer tratamento, e, quando já tinha desistido, eis que suas preces foram atendidas e a vontade divina se fez. Ouvi o relato atenta e respeitosamente, tomada por aquela perturbação interna que nos acomete quando nos deparamos com alguém de cultura muito diversa da nossa. De certa forma, John e sua família eram mesmo estrangeiros, pelo menos para mim.

Mas quem tem filho pequeno sabe: nesta fase pouco importam as diferenças culturais. Brincadeiras, cantigas de roda, papinhas, vacinas, tudo no universo infantil conspira para a alegre confraternização entre crianças da mesma faixa etária e suas babás, mães, às vezes pais, que circunstancialmente se tornam melhores amigos, cúmplices da mesma dura e adorável rotina. Fomos à festa.

Como a ideia era proporcionar alguma diversão à nossa filha, capaz de se enfiar durante horas nas tramas do "brinquedão" das casas de festas, chegamos cedo. Mas não adiantou. Em pouco tempo a recreação foi interrompida, e iniciou-se um cerimonial interminável com discursos, vídeos, depoimentos, choros e aplausos. Aparentemente, vários membros da família de John, além de padrinhos e amigos, tinham participação relevante, ou eram testemunhas oculares, do milagre de sua existência. O salão fora escurecido por causa do vídeo, todos os brinquedos estavam fechados, o buffet interrompido, e eu não sabia mais como distrair a nossa pequena, entediada entre nossas pernas.

Daquela época, ficou a designação: passamos a adotar, como uma espécie de piada particular do casal, o termo "momento John" para situações em que o sentimentalismo extrapola os (nossos) limites de bom senso ou bom gosto. "Como foi o evento?" "Foi interessante, mas uma senhora protagonizou um 'momento John' daqueles..." E um já sabia do que o outro estava falando.

Mantínhamos a discrição, intuindo que talvez existisse um senso de pieguice/breguice particular, da mesma forma que há diferentes tipos de senso de humor, variando de acordo com o repertório de cada um. Aliás, a hipótese de haver alguma correlação entre as duas coisas, cogito agora, é forte: os tais "momentos John" têm como característica comum a total ausência de humor, ironia ou divertimento - tudo em nome do objetivo maior de exaltar sentimentos e provocar a emoção de quem estiver em volta.

Mas, ultimamente, dei para me sentir especialmente isolada, e também encabulada, por causa do meu senso de breguice talvez apurado demais. Pelo menos, para os tempos atuais. Porque, da festa de John para cá, as pessoas começaram a mandar beijos no coração e a escrever nas redes sociais "eu te amo, mamãe", mesmo que a tal senhora não tenha qualquer familiaridade com a internet. Estaria eu me tornando uma insensível, num mundo cada vez mais afetuoso? Isso não faz muito sentido, considerando que sou a maior "manteiga derretida", sempre chorando por causa de filmes, livros, cenas que vejo na rua.

Eu estava confusa, e propensa a manter secretos para sempre nossos comentários sobre "momentos John", quando me caiu nas mãos um ensaio da escritora Tatiana Salem Levy, com o título "Fora de si", publicado no caderno Fim de Semana do jornal Valor. Talvez com saudades do mestrado, me flagrei catando a caneta marcadora para reler seu texto, uma pequena genealogia da emoção, do ponto de vista da filosofia.

Demonstrar a emotividade não era algo lá muito bem visto pela filosofia clássica. Era tido como uma espécie de fraqueza, relacionada ao "páthos", à paixão, à impossibilidade de agir. Para Kant, a emoção era um "defeito da razão". Aí vieram Hegel e Nietzsche (viva!) para mostrá-la não necessariamente como um sentimento passivo, mas que poderia ser a "fonte original" - da literatura, da música, das artes, nas quais revelará muito mais verdades do que "a Verdade".

Reconhecida como gesto ativo (Henri Bergson), a emoção é um movimento que nos coloca fora de nós mesmos (Huberman), e uma forma de transformação ativa do nosso mundo (Merleau-Ponty). Ela torna-se ato quando nos extravasa e, então, podemos fazer uso dela na sociedade, engendrando transformações naqueles que se emocionam (aqui, acho que é a própria Tatiana falando).

Foi neste ponto que o meu problema com a suposta emotividade alheia começou a clarear. A emoção em sua versão kitsch, extravasada por meio de chavões inautênticos, não me parece transformadora. Não me emociona. No Facebook, me soa como má literatura. Até porque já não é mais a emoção que está ali, e sim a tentativa (mal sucedida) de sua representação, que talvez esconda apenas o exibicionismo de sempre.

Claro que não espero que todo mundo consiga, como o poeta, fingir tão bem a dor que deveras sente. Mas, em caso de pouca inspiração, valeria a pena sermos mais comedidos em nossos extravasamentos/posts. Ou menos pretensiosos, optando pelo divertimento para falar da emoção que já nos escapou.

Se me lanço nesta cruzada, correndo o risco de parecer blasé ou insensível, enfrentando os algoritmos do Facebook que claramente privilegiam a breguice, não é à toa: ando bastante desconfiada desta onda sentimentaloide. Será ela tão inofensiva assim? Como a piada que se vale do preconceito para fazer graça, temo que a breguice ajude a reforçar não somente o lugar-comum, como se propõe, mas também as visões conservadoras. Visões naturalizadas, como a que considera a maternidade a missão maior da mulher, de todas as mulheres, como pensava a mãe do pequeno John.

Tomara que John - agora em seu momento pré-adolescente - esteja bem. Apesar de tudo.



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 5/6/2015


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Paris branca de neve de Renato Alessandro dos Santos
02. Como eu escrevo de Luís Fernando Amâncio
03. Inferno em digestão de Renato Alessandro dos Santos
04. O artífice do sertão de Celso A. Uequed Pitol
05. Pra que mentir? Vadico, Noel e o samba de Renato Alessandro dos Santos


Mais Marta Barcellos
Mais Acessadas de Marta Barcellos em 2015
01. Contra a breguice no Facebook - 5/6/2015
02. Uma entrevista literária - 11/12/2015
03. Dando conta de Minas - 7/8/2015
04. Quem é o abutre - 6/2/2015
05. O gueto dos ricos - 20/3/2015


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A IMPRENSA NA HISTÓRIA DO BRASIL & FOTOJORNALISMO NO SÉCULO XX
OSWALDO MUNTEAL & LARISSA GRANDI
DESIDERATA/PUC
(2005)
R$ 70,00



UM ROSTO DE MENINA
JOSUÉ MONTELLO
DIFEL
(1983)
R$ 10,00



A LIÇÃO FINAL
RANDY PAUSCH
AGIR
(2012)
R$ 9,92



CURSO DE DIREITO PROCESSUAL CIVIL - VOL. 3
HUMBERTO THEODORO JÚNIOR
FORENSE
(1998)
R$ 39,90



ZABIBA E O REI, 5ª EDIÇÃO
SADDAM HUSSEIN
PUBLICAÇÕES EUROPA - AMÉRICA
(2003)
R$ 65,70



CESPE UNB: 3.000 QUESTÕES COMENTADAS - COLEÇÃO PASSE JÁ
GIANCARLA BOMBONATO
ALFACON
(2015)
R$ 168,30



AS MALUQUICES DO IMPERADOR
PAULO SETÚBAL
SARAIVA
(1971)
R$ 10,00



TERÇO DO MILÊNIO - ORAÇÕES PARA MELHORAR O MUNDO
PAULINO BRANCATO JÚNIOR
NÃO CONSTA
R$ 5,00



ODDISSÉIA
HOMERO
ABRIL
(1981)
R$ 25,00
+ frete grátis



COMPREENSÃO DO CURRÍCULO NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
LENIR ANTONIO HANNECKER
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 363,00





busca | avançada
46024 visitas/dia
1,1 milhão/mês