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Sexta-feira, 5/6/2015
Contra a breguice no Facebook
Marta Barcellos

+ de 3900 Acessos

Quando minha filha tinha dois anos, fomos convidados para o aniversário de John, um bebê do nosso prédio que comemoraria seu primeiro ano de vida numa casa de festas de São Paulo. Pouco tempo antes, no playground do edifício, eu tivera a oportunidade de conhecer a mãe de John, enquanto nossos bebês (não) brincavam juntos (ele ainda pegando sol no carrinho; a minha já deslizando perigosamente pelo escorregador). Para minha surpresa, os pais de John não eram estrangeiros, mas do interior de São Paulo, e a curiosidade sobre o nome inglês se dissipou diante da revelação maior da progenitora: seu filho era fruto de um milagre.

Ela repetiu a palavra milagre algumas vezes, enquanto contava de forma bíblica uma história não tão rara: tentara engravidar durante alguns anos, chegara a fazer tratamento, e, quando já tinha desistido, eis que suas preces foram atendidas e a vontade divina se fez. Ouvi o relato atenta e respeitosamente, tomada por aquela perturbação interna que nos acomete quando nos deparamos com alguém de cultura muito diversa da nossa. De certa forma, John e sua família eram mesmo estrangeiros, pelo menos para mim.

Mas quem tem filho pequeno sabe: nesta fase pouco importam as diferenças culturais. Brincadeiras, cantigas de roda, papinhas, vacinas, tudo no universo infantil conspira para a alegre confraternização entre crianças da mesma faixa etária e suas babás, mães, às vezes pais, que circunstancialmente se tornam melhores amigos, cúmplices da mesma dura e adorável rotina. Fomos à festa.

Como a ideia era proporcionar alguma diversão à nossa filha, capaz de se enfiar durante horas nas tramas do "brinquedão" das casas de festas, chegamos cedo. Mas não adiantou. Em pouco tempo a recreação foi interrompida, e iniciou-se um cerimonial interminável com discursos, vídeos, depoimentos, choros e aplausos. Aparentemente, vários membros da família de John, além de padrinhos e amigos, tinham participação relevante, ou eram testemunhas oculares, do milagre de sua existência. O salão fora escurecido por causa do vídeo, todos os brinquedos estavam fechados, o buffet interrompido, e eu não sabia mais como distrair a nossa pequena, entediada entre nossas pernas.

Daquela época, ficou a designação: passamos a adotar, como uma espécie de piada particular do casal, o termo "momento John" para situações em que o sentimentalismo extrapola os (nossos) limites de bom senso ou bom gosto. "Como foi o evento?" "Foi interessante, mas uma senhora protagonizou um 'momento John' daqueles..." E um já sabia do que o outro estava falando.

Mantínhamos a discrição, intuindo que talvez existisse um senso de pieguice/breguice particular, da mesma forma que há diferentes tipos de senso de humor, variando de acordo com o repertório de cada um. Aliás, a hipótese de haver alguma correlação entre as duas coisas, cogito agora, é forte: os tais "momentos John" têm como característica comum a total ausência de humor, ironia ou divertimento - tudo em nome do objetivo maior de exaltar sentimentos e provocar a emoção de quem estiver em volta.

Mas, ultimamente, dei para me sentir especialmente isolada, e também encabulada, por causa do meu senso de breguice talvez apurado demais. Pelo menos, para os tempos atuais. Porque, da festa de John para cá, as pessoas começaram a mandar beijos no coração e a escrever nas redes sociais "eu te amo, mamãe", mesmo que a tal senhora não tenha qualquer familiaridade com a internet. Estaria eu me tornando uma insensível, num mundo cada vez mais afetuoso? Isso não faz muito sentido, considerando que sou a maior "manteiga derretida", sempre chorando por causa de filmes, livros, cenas que vejo na rua.

Eu estava confusa, e propensa a manter secretos para sempre nossos comentários sobre "momentos John", quando me caiu nas mãos um ensaio da escritora Tatiana Salem Levy, com o título "Fora de si", publicado no caderno Fim de Semana do jornal Valor. Talvez com saudades do mestrado, me flagrei catando a caneta marcadora para reler seu texto, uma pequena genealogia da emoção, do ponto de vista da filosofia.

Demonstrar a emotividade não era algo lá muito bem visto pela filosofia clássica. Era tido como uma espécie de fraqueza, relacionada ao "páthos", à paixão, à impossibilidade de agir. Para Kant, a emoção era um "defeito da razão". Aí vieram Hegel e Nietzsche (viva!) para mostrá-la não necessariamente como um sentimento passivo, mas que poderia ser a "fonte original" - da literatura, da música, das artes, nas quais revelará muito mais verdades do que "a Verdade".

Reconhecida como gesto ativo (Henri Bergson), a emoção é um movimento que nos coloca fora de nós mesmos (Huberman), e uma forma de transformação ativa do nosso mundo (Merleau-Ponty). Ela torna-se ato quando nos extravasa e, então, podemos fazer uso dela na sociedade, engendrando transformações naqueles que se emocionam (aqui, acho que é a própria Tatiana falando).

Foi neste ponto que o meu problema com a suposta emotividade alheia começou a clarear. A emoção em sua versão kitsch, extravasada por meio de chavões inautênticos, não me parece transformadora. Não me emociona. No Facebook, me soa como má literatura. Até porque já não é mais a emoção que está ali, e sim a tentativa (mal sucedida) de sua representação, que talvez esconda apenas o exibicionismo de sempre.

Claro que não espero que todo mundo consiga, como o poeta, fingir tão bem a dor que deveras sente. Mas, em caso de pouca inspiração, valeria a pena sermos mais comedidos em nossos extravasamentos/posts. Ou menos pretensiosos, optando pelo divertimento para falar da emoção que já nos escapou.

Se me lanço nesta cruzada, correndo o risco de parecer blasé ou insensível, enfrentando os algoritmos do Facebook que claramente privilegiam a breguice, não é à toa: ando bastante desconfiada desta onda sentimentaloide. Será ela tão inofensiva assim? Como a piada que se vale do preconceito para fazer graça, temo que a breguice ajude a reforçar não somente o lugar-comum, como se propõe, mas também as visões conservadoras. Visões naturalizadas, como a que considera a maternidade a missão maior da mulher, de todas as mulheres, como pensava a mãe do pequeno John.

Tomara que John - agora em seu momento pré-adolescente - esteja bem. Apesar de tudo.



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 5/6/2015


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