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COLUNAS

Sexta-feira, 11/12/2015
Uma entrevista literária
Marta Barcellos
+ de 4500 Acessos

Na primeira vez em que os papéis se inverteram - e me transformei de entrevistadora em entrevistada -, percebi estar ocupando um lugar muito estranho. Como jornalista, eu já tinha elaborado (um pouco) as questões em torno da dificuldade de perguntar, de seduzir o entrevistado para os próprios interesses (não necessariamente os dele), e da importância de uma edição honesta das respostas (a "redução" é inevitável).

Na inversão, seria fácil criticar - como em geral fazem os entrevistados, que, naturalmente, não elaboram as dificuldades inerentes à função do jornalista.

Por isso, aqui, só vou contar (enquanto não elaboro melhor) que a maior parte das entrevistas que tenho dado, depois de ganhar o Prêmio Sesc 2015 na categoria contos, foi por e-mail, por sugestão dos entrevistadores. Que a primeiríssima não foi publicada, não sei por quê. E que esta entrevista abaixo, concedida por e-mail, resultou na ótima matéria "Prêmios de 2015 são das mulheres", de Leonardo Cazes, publicada no Globo em 28 de novembro. Mas apenas um parágrafo foi utilizado, como já acontecera outras vezes comigo (estando dos dois lados da situação, diga-se).

Deleuze fala como é difícil "se explicar" numa entrevista: "A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como qualquer outra coisa." Isso porque as questões em geral são voltadas para o futuro, ou para o passado, nunca para os "devires". Especificamente numa entrevista literária, ele diz, há um dualismo entrevistador-entrevistado, seguido de outros, como homem-escritor, vida-obra, intenção-significação da obra etc:

"Há sempre uma máquina binária que preside a distribuição dos papéis e que faz com que todas as respostas devam passar por questões pré-formadas, já que as questões são calculadas sobre as supostas respostas prováveis segundo as significações dominantes." (Diálogos, de Gilles Deleuze e Claire Parnet).

Depois desta breve reflexão, que sem dúvida reduz bastante o valor da entrevista a seguir, ei-la, na íntegra (os leitores adoram entrevistas, bem sei):



- Você ganhou o Prêmio Sesc e publicou o seu primeiro livro de contos. Como foi o seu caminho até essa estreia literária? Já tinha tentado publicar de outras maneiras? Quais eram suas expectativas em relação ao livro?

Sempre escrevi. Primeiro foram pilhas de diários, depois vieram as reportagens em jornal e, com o surgimento da internet, as crônicas em um blog e no portal Digestivo Cultural. Quando saí labuta de jornal diário, depois de vinte anos em redação, busquei o caminho da profissionalização como escritora: entrei para o Laboratório de Vivência Literária, liderado por Luiz Ruffato, e fiz o mestrado em Literatura na PUC-Rio, com uma pesquisa sobre criação literária. Com esta nova base, me senti mais segura para escrever ficção. Na prática, foram cinco anos escrevendo o "Antes que seque", enquanto estudava e buscava uma voz própria para narrar as minhas histórias.

Neste caminho do jornalismo para a literatura, era importante conquistar uma espécie de aval, ter um sinal de que estava no caminho certo, de que tinha encontrado a minha voz própria na literatura. Não queria ser mais uma jornalista brincando de fazer ficção. Busquei o caminho dos concursos literários por acreditar neles, em sua idoneidade (ainda mais quando se usam pseudônimos, como no caso do Prêmio Sesc).

Atualmente, não é difícil publicar. Existem editoras pequenas e autopublicação a baixo custo. O difícil é ser levada a sério, ser lida de verdade, conseguir algum tipo de inserção no ambiente e no mercado literário. Por isso insisti no caminho dos prêmios, antes de partir para a publicação por uma editora pequena. Com o Prêmio Sesc, obtive não só uma chancela como a publicação pela Editora Record, com distribuição nacional e tiragem de 2 mil exemplares - um luxo no Brasil, ainda mais para um livro de contos.

Quanto às expectativas, o livro já começou a ser lido, comentado, a receber resenhas, a afetar as pessoas. Ganhou vida própria. Algumas "devoraram" e agora estão me cobrando o próximo livro. Pela primeira vez sinto uma responsabilidade, como se não dependesse mais de mim a opção de dar continuidade à carreira de escritora.

- O seu livro reúne 24 contos sobre 12 mulheres. Isso foi algo deliberado ou simplesmente aconteceu? De que forma o fato de você ser mulher influencia a sua escrita e os contos do livro?

O "Antes que seque" tem na verdade 22 contos, dos quais apenas cinco com foco narrativo masculino. De fato, no livro dominam as narrativas com ponto de vista feminino e as personagens mulheres fortes, porque foram estas as histórias que me afetaram no processo de criação literária, que me atravessaram. Acredito, porém, que buscar o ponto de vista do "outro", do diferente de si próprio, é um exercício do escritor - nem sempre fácil. Por enquanto, tenho encontrado no universo feminino um lugar de muitas possibilidades literárias. Talvez, justamente por se tratar de uma minoria, e não do poder dominante, seja um lugar de observação até mais interessante - se não houver preconceitos ou rótulos.

Agora, importante: a condição feminina, em sua complexidade, em suas armadilhas e limitações impostas historicamente pela sociedade, está presente porque atravessam as histórias e as personagens. Não está no livro na forma de denúncia ou de qualquer tentativa de fazer uma literatura feminina, feminista ou engajada. É literatura, ponto.

- Estudos apontam que as mulheres são minoria não só entre escritores, mas também entre personagens de romances. Há cerca de um ano, a escritora Luísa Geisler criticou, num artigo, a baixa representatividade de autoras mulheres em antologias, premiações e festivais. Você concorda com essa avaliação? Se sim, a que você atribui isso?

Obviamente a baixa representatividade das mulheres na literatura está relacionada ao preconceito. Não é algo consciente: o machismo está enraizado na sociedade, em todos nós. Mais em alguns setores da sociedade do que em outros. Parece mais "natural", por exemplo, eleger um escritor homem para representar a literatura brasileira em um evento. A mulher é a exceção, aquela que não é homem, enquanto o escritor homem, com seu personagem masculino e seus "temas" masculinos, parece produzir uma literatura mais "universal". É uma bobagem, claro: a boa literatura não tem gênero. Mas muita gente rotula o livro escrito por mulher como "mulherzinha", sem nem ler.

Isso está começando a mudar. Como acontece em outros setores da sociedade, para "chegar lá", enfrentando preconceitos e barreiras, as mulheres escritoras investem em formação: lotam as oficinas literárias. Nas universidades, onde começam a surgir graduações e pós-graduações em formação do escritor, elas também veem uma oportunidade. Não são tão confiantes, ainda temem não serem levadas a sério, não conseguirem entrar nas panelinhas masculinas, mas estão buscando o caminho da profissionalização.

O Prêmio Sesc deste ano foi exemplar disso. Das 1.966 inscrições, apenas um terço foi de mulheres. Pela primeira vez, foram duas premiadas (eu e Sheyla Smanioto), e com algo em comum: Sheyla fez a oficina literária do Marcelino Freire, enquanto eu fiz o Laboratório de Vivência Literária do Luiz Ruffato. Ambas acabamos de concluir um mestrado em Literatura, com pesquisas sobre criação literária, ela na Unicamp e eu na PUC-Rio. Se você observar os censos no Brasil, é assim que começa: as mulheres até superam os homens na escolaridade, mas ainda têm dificuldade para chegar ao topo (ao reconhecimento literário, aos festivais de literatura etc).

- Este ano, surgiu um clube de leitura, "Leia mulheres", que já está presente em nove cidades do Brasil. Você acha que iniciativas como essa são importantes? Você acredita que a própria tomada das ruas e das redes pelas mulheres este ano de alguma forma pode afetar a literatura e o mercado editorial?

Todo tipo de iniciativa para equilibrar a balança e "desnaturalizar" o preconceito é importante. O problema precisa ser primeiro reconhecido. Os curadores, críticos, jurados de concursos literários, leitores (e leitoras) precisam estar atentos ao próprio machismo, este que está enraizado na nossa cultura e vê a mulher como exceção em ambientes historicamente masculinos. Acredito muito nos novos movimentos feministas, na sua potência e na sua criatividade. Com certeza essa tomada de consciência vai ser refletir também no mercado editorial.



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 11/12/2015

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