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COLUNAS

Terça-feira, 29/5/2018
O massacre da primavera
Renato Alessandro dos Santos

+ de 7900 Acessos

A rinha aconteceu no Théâtre des Champs Élysées, à noite, em Paris. “A estreia resultou no mais famoso escândalo da história da música”, diz Harold C. Schonberg, em A vida dos grandes compositores (2010). “Praticamente ninguém no público estava preparado para tamanha dissonância e ferocidade, tamanha complexidade e estranheza rítmica”. Durante a execução de A sagração da primavera, do camaleão Igor Stravinsky, a orquestra — superdimensionada nas madeiras e nos metais — parecia estar se apresentando a um grupo de irlandeses em um pub. A plateia xingava e gritava, rebelando-se contra a música e a dança, enquanto perdigotos davam piruetas antes de se esborrachar no chão. Era 29 de maio de 1913.

O público — esperando por mais um balé a deslizar no macio azul do mar — não estava preparado para o maremoto e a tempestade de A sagração da primavera e, claro, sentiu-se ofendido com o que viu e ouviu. E o pogo alastrou-se, dividindo os que apoiavam e os que vaiavam tanto a música descomunal como a arte cênica desconjuntada que Vaslav Nijinsky criou. Nunca é demais lembrar que o coreógrafo russo acertou ao dar à Sagração a mesma dose de ousadia que ela recebeu de Stravinsky. “Logo que o fagote terminou sua frase no registro mais alto, na abertura do balé, as risadas estouraram”, diz Schonberg. “Em seguida vieram os assobios e os apupos”.

Já reparou nos títulos que Stravinsky criou para A sagração? “A adoração da Terra”, “Dança das adolescentes”, “Jogo do rapto”, “Círculos místicos das adolescentes”, “Ação ritual dos ancestrais”, “Dança do sacrifício” e por aí vai. De onde vêm esses temas? Enquanto escrevia a música para o balé O pássaro de fogo, Stravinsky teve uma ideia: “eu sonhava com uma cena de um ritual pagão em que uma virgem escolhida para um sacrifício dançava até a morte.” Mas os parisienses não quiseram saber de nada disso.



O barulho era tanto que os bailarinos não conseguiam ouvir a música, corajosamente executada até o fim pelos músicos, atentos à partitura e aos ritmos infernais que tiravam dos instrumentos. Stravinsky escreveu mais tarde que, inconformado com a reação da plateia, levantou-se e foi para os bastidores, onde ficou atrás de Nijinsky, “segurando a cauda de seu fraque”, enquanto em cima de uma cadeira o coreógrafo gritava “os números da contagem da dança para seus bailarinos como se fosse um timoneiro”. As luzes da creche foram acesas e apagadas, sem resultado algum. “A condessa de Pourtalès levantou-se em sua frisa, brandindo seu leque e gritou: 'Esta é a primeira vez em setenta anos que alguém se atreve a fazer pouco de mim'”, conta Schonberg.

Pausa. Vamos iluminar a condessa.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro.

É engraçado pensar que, história afora, a condessa de Pourtalès hoje é mais lembrada não pela tradição de seus laços sanguíneos, ou por seu retrato pintado por Renoir, mas por não ter conseguido ficar em silêncio num momento em que seu coração palpitou mais forte. “Que sejam expulsas as putas setentonas!” — gritou Florent Schimitt, sem elegância alguma, do alto das galerias do teatro, comenta Eduardo Rincón em texto sobre A sagração da primavera. Não parece um ipê amarelo, observado por duas pessoas? Florent o acha lindo, mas condessa de Pourtalès lamenta o entulho que as flores deixarão. Passe a salada, por favor.

Não dá para não lembrar que houve a época em que a música de Beethoven pareceu agressiva ao público, com aquela ousadia, aquelas piruetas que parecem exigir uns dedinhos a mais dos músicos. "[Le sacre du printemps] significou para a primeira metade do século XX o que a Nona de Beethoven e Tristan significaram para o século anterior", diz Schonberg em seu livro. Mas a reação do público à coreografia e ao balé de Stravinsky, em termos comparativos, impressiona pela selvageria.

Já pensou estar ali, naquela noite de espírito transgressor por toda parte?

É sempre uma pena não termos um Delorean para nos levar lá, mas é possível assistir a dois DVDs que resgatam o espírito de A Sagração da Primavera: o primeiro é a recriação do que foi a pancadaria em Paris, como mostra o bom filme Coco Chanel e Igor Stravinsky (2009); o segundo é Stravinsky and the ballets russes (BelAir Classiques, 2009), DVD-tributo que recria as montagens de O pássaro de fogo e de A sagração da primavera,da forma mais fiel possível às apresentações de 1910 e de 1913, mas sem a algaravia da arquibancada. A gravação também não foi no Théâtre des Champs Élysées e, sim, no teatro Mariinsky, em São Petersburgo, em 2008, e traz os mesmos figurinos e cenários do espetáculo original. “Havia somente os testemunhos de críticos, público, músicos e outros envolvidos com aquela conturbada noite de 29 de maio de 1913”, escreveu João Marcos Coelho no jornal O Estado de S. Paulo. “Assistir a Sagração hoje tal como subiu ao palco (…) nos ajuda bastante a compreender o espanto e a intolerância da crítica e do público parisiense em 1913”. O grifo é nosso.

Só há uma palavra para descrever o que é Stravinsky and the ballets russes: sublime.

Nota do Autor:

Renato Alessandro dos Santos é editor do site tertuliaonline.com.br, onde este texto, originalmente, foi publicado em 2 de junho de 2013.


Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 29/5/2018


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