O primeiro e pior emprego | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 9/10/2015
O primeiro e pior emprego
Marta Barcellos

+ de 2200 Acessos

As pessoas da minha geração viveram solitariamente alguns sofrimentos que na época não eram muito reconhecidos ― sequer nomeados ―, como assédio e bullying. Ao ler o romance O próximo da fila, de Henrique Rodrigues, fui remetida a uma dessas experiências antigas ― e ainda sem nome, acho ―, que eu e o protagonista tivemos em comum: o sofrimento no primeiro emprego.

No romance de Rodrigues, o jovem protagonista não tem nome, e sua existência parece incerta a ele próprio: a invisibilidade garantida, primeiro, pela condição social e, depois, pelo uniforme da multinacional então símbolo do "imperialismo americano" (trata-se obviamente do McDonald's, não mencionado). Ele passa por todos os perrengues desta espécie de "batismo" que muitos julgavam necessários para se adentrar na selva do sistema capitalista. "O mundo como ele é". Deste trote inicial, acreditava-se, sairia um aprendizado sobre dinheiro, lucro, persistência, competição etc.

Imaginando-se que tudo isso seja passado, e que os jovens hoje sejam devidamente respeitados em seus primeiros passos no mercado de trabalho, vamos à minha história.

Como o jovem do romance, eu tinha 17 anos. Minha condição econômica, no entanto, era mais privilegiada: não precisava ajudar a pagar o aluguel. No livro, a família está ameaçada de despejo, quando houver o reajuste assombroso da hiperinflação.

Mas, ao contrário de meus amigos de classe média, meus pais não poderiam financiar o início da tão sonhada "independência". Ou seja: eu não ganharia um carrinho usado aos 18 anos, não teria uma mesada para a vida universitária, não teria uma linha de telefone (era assim!) se conseguisse sair de casa e alugar um apartamento. Ou seja (2): precisava ralar.

Foi assim que, quando passei no vestibular para a UFRJ, mas para iniciar o curso no segundo semestre, pensei: perfeito. Vou ganhar dinheiro e começar a economizar para comprar o meu carro. Algo dispensável para um jovem de hoje, é verdade. Mas, naquele tempo, acreditem, tratava-se do melhor plano para iniciar um patrimônio e se proteger da inflação. Carro era investimento.

Uma menina de "boa aparência" (leia-se branca, loura, bem-vestida) tinha alguma facilidade para conseguir empregos temporários em butiques. No entanto, eu queria aproveitar ao máximo aqueles meses antes da faculdade, à qual pretendia me dedicar integralmente, até porque as aulas eram à tarde. Em vez de procurar emprego temporário, de fim de ano, respondi a um anúncio de jornal para uma vaga fixa ― ninguém precisava saber que pediria demissão no final de julho.

Para resumir o primeiro e pior emprego da minha vida, a data da demissão ― 31 de julho ― foi meu maior consolo durante aqueles meses. Durante as crises de choro e exaustão, pensava nela como uma espécie de vingança: ao contrário de todos ali, eu teria outra vida, seria jornalista.

Primeira característica típica do primeiro emprego dado a um jovem como se fosse um trote: coloque-o para fazer tarefas desgastantes e absolutamente desnecessárias. O protagonista do livro é orientado, no primeiro dia, a varrer o estacionamento da lanchonete. Sem parar. "E quando não tiver mais nada para limpar?", questiona o rapaz. "Você continua dando voltas até achar algo", responde a treinadora. Se precisar ir ao banheiro, ele precisa "solicitar".

Pois aos 17 anos, em meu primeiro dia como vendedora de butique do BarraShopping, o maior do Rio de Janeiro, recebi instruções bem parecidas: só podia ir ao banheiro depois de pedir à gerente. O shopping abria às 10h, mas eu precisaria chegar às 9h, pontualmente, para arrumar a loja (que já estava arrumada) e me maquiar. Eu era praticamente a primeira a entrar no shopping, depois de mostrar o crachá aos seguranças: os vendedores de todas as outras lojas chegavam minutos antes da abertura.

Os detalhes de crueldade e humilhação, como se os superiores quisessem dar lições sobre "a vida real" para os novatos, ou, talvez, vingar-se da própria iniciação que tiveram um dia, estão todos no livro, e estavam também naquela minha traumática experiência de trabalho. Detalhe: como se trata do primeiro trabalho, você não tem como saber que nem todo trabalho é assim.

Não por acaso, a alternativa que o protagonista vislumbrava no romance era o serviço militar. Teria sido menos duro?

Enquanto o rapaz de O próximo da fila precisava mover o esfregão continuamente, desenhando o símbolo do infinito no chão da loja, eu, ou a menina que eu era, não podia sentar. Nunca. Os corredores do shopping estavam desertos, nenhum comprador à vista, mas a regra era clara: nunca uma vendedora pode sentar. "Por quê?", me arrisquei a perguntar. "Porque pega muito mal o cliente entrar na loja e ver o vendedor sentado", a gerente respondeu. E depois acrescentou: "Foi assim que fiquei cheia de varizes. Você vai ficar também".

No fim do expediente, todas as vendedoras precisavam, com discrição, mostrar a bolsa aberta para a gerente, antes de ir embora. Ela não tocava em nada, apenas olhava e acena afirmativamente com a cabeça. A revista era simplesmente uma "praxe" no setor, me foi dito.

Outras lições do capitalismo que aprendi neste emprego: se preciso, engane o consumidor. O que importa é vender. A cliente achou a blusa apertada e não temos tamanho maior? Pegue outra do mesmo tamanho, corte a etiqueta e jure que aquela está muito melhor. Outra: faça tudo para a cliente entrar na cabine, e, depois, não a deixe sair de lá sem ter certeza de que vai comprar algo. Empurre um cinto, uma calça que fica bem com a blusa, encha-a de elogios e a deixe zonza. Se ela sair sem comprar, a culpa é da vendedora.

Como era uma loja de roupas para senhoras, com frequência as táticas funcionavam. E muitas clientes até voltavam, felizes, querendo a atenção, os elogios e o monte de roupas que empilhávamos para elas provarem na cabine.

Eu já era bastante eficiente naquelas técnicas de convencimento quando veio a notícia: durante o mês de julho, por causa da liquidação, todas as vendedoras deveriam dobrar o horário de trabalho. Em vez de sair às 16h, eu precisaria trabalhar até as 22h. De 9h às 22h. Minhas pernas latejavam cada vez mais, e eu costumava pedir para ir ao banheiro apenas para sentar. E se eu me demitisse um mês antes? Não, aquilo parecia ser a prova do meu fracasso no mundo do trabalho ― já que o mundo do trabalho era totalmente representado por aquele emprego.

A liquidação foi um estouro de vendas. A cada comissão gorda que eu ganhava, pensava no meu carro: talvez nem precisasse ser um Fusca. Quem sabe um Chevette. Como agora eu saía na hora em que o shopping fechava, pegava o ônibus lotado e precisava ficar em pé.

Ao contrário do livro que inspirou esta coluna, porém, o final de meu breve "romance de formação" foi feliz: em 31 de julho, depois de descobrir ter sido a "melhor vendedora" (= com mais vendas) da liquidação, pedi demissão. Foi uma grande surpresa na loja. O Chevette, só consegui comprar sete anos depois, quando trabalhava no Globo. Em compensação, nunca tive varizes. Não tenho tendência.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 9/10/2015


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