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Terça-feira, 21/3/2017
Revolusséries
Luís Fernando Amâncio

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O bom de ficar mais velho - e não é fácil encontrar vantagens - é bater no peito e dizer sobre algum assunto: eu vi isso acontecer. Porque o tempo passa e é inevitável que coisas, sejam elas quais forem, aconteçam. Coisas boas, coisas ruins, o diabo a quatro. O tempo não fica parado. Às vezes passa mais devagar, é verdade. Quando eu volto do almoço para o serviço, por exemplo, sei que as 17 horas vão demorar uma pequena eternidade para chegar. Mas chegam. E rapidinho são 18 e eu estou em casa, me sentindo com o ânimo de um folião na Quarta-feira de Cinzas, depois de ser atropelado por um trio elétrico. Cadê os físicos para explicarem essa macumba?

Enquanto eles não chegam, vamos seguir o raciocínio. Coisas acontecendo. São muitas. Só que raramente a gente percebe o que está mudando, não damos o valor às pequenas revoluções do dia a dia. Sabem o motivo? Porque estamos ocupados demais com outros assuntos.

Mas não. Esta não é uma crônica sobre as mazelas da vida contemporânea, sobre a correria dos nossos dias, blá blá blá. Usamos essa desculpa desde antes da queda da Bastilha. Mas a real é a seguinte: em 2017, as pessoas esquecem de levar o cachorro para passear, do aniversário de casamento, o filho na escolinha de futebol, de pagar o IPTU, de dizer o sagrado e sempre necessário #foraTemer de cada dia, por um único motivo, que não é o trabalho, não são os estudos, não é o trânsito, tampouco a filantropia. O motivo da nossa correria atende pelo nome de Netflix.

Caramba. Como a humanidade viveu sem isso até aqui? Eu sou do tempo em que para ver séries era preciso sintonizar nas madrugadas da TV aberta, ou levar o prato da macarronada de domingo para a sala, enquanto Celso Portiolli fazia jogos com os telespectadores nos intervalos. Intervalos, lembram deles?

Assistir série era um passatempo de poucos. As pessoas até nos discriminavam. "Sabe fulano? Ele é até legal. Mas assiste série, sabe, esses programas americanos, com risadas no fundo? Acho isso meio chato".

Mas o tempo têm a velocidade do Flash e não há revolução mais forte do que as silenciosas. Hoje em dia, meus amigos cultivam séries de estimação. E não é uma ou duas. São dezenas! Há série para se ver sozinho, em casal e até aquelas, para toda família. Série de humor, para descontrair; série de episódios com reviravolta, para ficar impressionado; série de terror, pra dormir com medo; Black Mirror, pra temer os caminhos da humanidade; tem até série novelão, pra quem prefere uma A Usurpadora que talks in English. Enfim, há séries à rodo. Inclusive séries ruins.

Há relatos de que a frase "você vem sempre por aqui?" foi substituída nas baladas por "você assiste Game of Thrones?". Também fiquei sabendo que há pessoas que assistem séries com aceleração de quadros para poder ver mais. Tempo era dinheiro, agora significa séries.

Os seriados já existiam antes da Netflix e dominam canais pagos da tv brasileira há algumas décadas. Também há os dvds com temporadas completas, os downloads ilegais e, insisto, as madrugadas do SBT. Mas o Netflix (há outros serviços de streaming, eu sei), com um preço mais justo do que o cobrado pelas operadoras de canais pagos, além de sua acessibilidade mais dinâmica aos dias atuais, massificou o processo.

Seguir algumas séries virou pressão social. Houve um tempo em que eu pensava que acompanhar o futebol era o que me ajudava a interagir com metade das pessoas que conheço. Hoje, refazendo os cálculos, concluo que a outra metade só me dá bom dia porque sabe que eu vi Breaking Bad.

Será que, se vivesse hoje, ao invés de criticar a revolução industrial, Charles Chaplin abordaria a revolução das séries em Tempos Modernos?

Não sei. Só sei que, se você chegou ao fim dessa crônica, provavelmente resistiu a uma janela em seu navegador aberta no Netflix. Obrigado pela leitura. Agora, vai lá, coloca sua vida em dia. Ou seja, pode terminar aquela temporada da série que está assistindo.


Luís Fernando Amâncio
Belo Horizonte, 21/3/2017


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