Senhor Amadeu | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 12/5/2017
Senhor Amadeu
Ana Elisa Ribeiro

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No dia em que eu nasci, talvez quase naquele momento exato - passava da meia noite -, a mãe do senhor Amadeu morreu. Não sei de quê, mas de velhice. Não sei em que circunstância, mas estava internada no hospital fazia um tempo. Não sei como foi. Mas o senhor Amadeu, filho único, a acompanhava.

O senhor Amadeu era velho. Há pessoas que são sempre velhas para nós. Nossos avós, anos atrás, eram já velhos quando nascemos. Hoje, podem ser apenas avós. E nem ser propriamente velhos, idosos. É sempre estranho, quando nasce um filho, um sobrinho, um neto, sermos percebidos como velhos. Meu filho, por exemplo, me acha velha desde que ele nasceu. E eu preciso sempre confirmar para ele que fui jovem, fui criança e fui bebê.

O senhor Amadeu era dessas pessoas que para mim sempre foram velhas. Sempre se vestiram igual - talvez um colete, um pulôver, uma calça social. Talvez eu o esteja confundindo com o meu avô materno. Minha memória já me trai?

Amadeu era velho desde sempre, desde que nasci. Isso costuma ser o sempre de todas as pessoas. Amadeu tinha nome de velho. Um nome perfeitamente velho, como Cícero, com que não me deixaram batizar o meu filho, alegando justamente isso: é nome de velho. E se for? Qual é o problema? É mais problema ser novo com nome de velho? Ou ser velho com nome de novo, como Lucas ou Iuri? (Devíamos ter o direito de trocar de nome como as cobras trocam de pele).

Senhor Amadeu, para mim, era o nome completo dele. Senhor Amadeu, não apenas Amadeu. Chamá-lo de Amadeu me dá, ainda, a sensação de irreverência e desrespeito que jamais passou pela minha cabeça. O senhor Amadeu era velho e respeitável. E ainda é. Discreto, tímido e acompanhante da mãe, até a morte.

O senhor Amadeu perdeu a mãe no dia em que eu nasci. Meu pai era o médico que a acompanhava, desde havia dias, no leito do hospital. E havia ali uma relação de cuidado, seriedade e gratidão. Dona Elisa morreu quando eu nasci. E nasci para me chamar Elisa.

Elisa é nome de velha. Sempre achei. Ana, não. Ana é nome que atravessa vidas. Pode-se nascer e morrer como Ana. A passagem difícil é o dia em que o "dona" aparece. Dona Ana. Don'Ana. Não cheguei lá. Nem pretendo. Mas nasci Elisa, enquanto dona Elisa morria, em algum quarto do mesmo prédio. E Amadeu ficava triste e perdido, por alguns momentos, em sua solidão de filho único. Órfão.

Nunca soube quase nada sobre a vida de Amadeu. Mas ele soube da minha. Soube que nasci, uma Elisa bebê. Um dia ou dois depois, o senhor Amadeu veio visitar a filha do doutor, Elisinha, para dar a ela um presente. Ganhei, com alguns dias, um relógio de pulso, de corda, com pulseiras pretas e vidro protuberante. Um luxo, uma joia que só pude tocar muito mais velha.

Amadeu me elegeu, quase me adotou. Durante 14 anos, quase 15, fez-me uma visita, em casa, em meu aniversário. Quatorze aniversários, todos, para me dar um presente, que era sempre um bom presente. Uma boa boneca, um disco de vinil da minha banda favorita, uma casinha inteira, um objeto valioso ou valoroso. E eu o atendia, sob o olhar carinhoso da minha mãe. Eu me emocionava com as visitas do senhor Amadeu, que devia sempre lembrar da morte da própria mãe quando me dava um tímido abraço.

Nos meus 14 anos, eu e minha mãe chegamos a comentar sobre a possível festa dos 15. Falta um ano! Amadeu era discreto, tímido, quieto. Só aparecia antes de qualquer convidado. Não aceitava os convites para festinhas. Não se exibia. Fazia sua visita à Elisinha e pronto. À tarde, antes de ser visto por outras pessoas. Amadeu parecia uma lenda.

Os 15 anos se aproximaram. Era hora de Amadeu me visitar. Quais seriam suas palavras? E qual presente ele traria para esta debutante? Que ideia ele teria? Não haveria festa, porque eu não era menina disso, mas o abraço dele não faltaria.

Mas o senhor Amadeu não pôde vir. Dez dias antes dos meus 15 anos, ele morreu. Foi encontrado morto, sozinho, em seu apartamento. Morreu discretamente, sem que alguém soubesse. Amadeu não veio à tarde e muito menos para a festa.

Meu pai me deu essa notícia como se não fosse nada. Baixei a cabeça e chorei quinze anos de lágrimas. Achei que não fosse mais me levantar a mesma. Não teve abraço, não teve presente. Amadeu não veio porque morreu. O senhor Amadeu era uma lenda. Uma espécie de avô adotivo que dava flor uma vez ao ano.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 12/5/2017


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