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Sexta-feira, 14/6/2019
A Copa, o Mundo, é das mulheres
Luís Fernando Amâncio

+ de 5700 Acessos

Começou, no dia 07 de junho, a Copa do Mundo Feminina de Futebol. A competição, que ocorre França, promete ser uma edição histórica para a modalidade. Nunca se teve uma cobertura tão ampla da mídia para o torneio, confirmando um momento especial para o esporte, com mais investimento e, consequentemente, melhor nível técnico.


Foto: reprodução/ Wikipedia

A princípio, eu diria que a realidade do futebol feminino é contraditória. Afinal, estamos falando do esporte mais popular do planeta. Seus principais torneios, como a Champions League e a Copa do Mundo, são acompanhados por bilhões de expectadores. As transferências de jogadores e salários chegam a valores astronômicos. Em contrapartida, a prática do futebol por mulheres tem peso de curiosidade. É mera nota de pé de página numa mídia que explora ao limite pormenores do jogo dos homens e a vida de seus astros.

Uma análise um pouco mais atenta, porém, demonstra que não há nada de contraditório na situação do futebol jogado por mulheres. Pelo contrário. O esporte é um dos exemplos mais cristalinos de como nossa sociedade patriarcal perpetua a desigualdade entre os gêneros. Aos homens, o protagonismo. Às mulheres, papel secundário. Se muito.

O esporte, em geral, é espaço de desigualdades. Tomemos os Estados Unidos como exemplo. O país, especialista em promover espetáculos, atualmente celebra as finais da NBA, sua principal liga profissional de basquete. O evento é acompanhado por todo o mundo, inclusive com transmissão em canal de televisão aberta no Brasil. O Superbowl, final do futebol americano, talvez seja o evento esportivo de maior audiência no planeta.

Mas, e a prática feminina destes esportes? A WNBA possui números modestos de audiência e apenas 12 equipes filiadas – 18 a menos do que a liga masculina. O futebol americano feminino, por sua vez, é representado pela Legends Football League, que antigamente se chamava Lingerie Football League. Sim, você não leu errado. Trata-se de um campeonato com mulheres jogando futebol americano usando roupas íntimas.

Chegamos a um ponto fundamental sobre o esporte praticado por mulheres: a exposição do corpo. Não quero dizer que a audiência no esporte feminino se dê exclusivamente pela exploração da imagem da figura feminina. Mas acredito que haja certo fetiche em como as mulheres são expostas em seus uniformes esportivos. Pense nos uniformes do voleibol de praia, ginástica artística, tênis... Lola Aronovich, do blogue Escreva Lola Escreva, dissertou sobre como os uniformes femininos precisam ser sensuais aqui e aqui.

Com o futebol feminino foi diferente. No Brasil, o esporte bretão foi considerado inadequado para mulheres, sendo proibido, por decreto, em 1941. A proibição perdurou até 1979, com o esporte sendo regulamentado apenas em 1983, quando competições internacionais e nacionais começaram a ser organizadas. A situação foi catastrófica para a modalidade. Afinal, foram quatro décadas em que as mulheres só puderam jogar clandestinamente. A situação corroborou com o pensamento arcaico de que o futebol não era para meninas. O projeto Museu do Impedimento, do Google, reúne relatos sobre este período.

Houve tentativas de colocar o futebol feminino no foco tornando suas atletas objetos do desejo masculino. É emblemática a capa de agosto de 1995 da Revista Placar, por anos a maior referência sobre futebol em mídia escrita, com modelos de costas, trajando uniformes minúsculos e a frase “as garotas batem um bolão”. Em 2001, o Campeonato Paulista, competição estadual mais tradicional no futebol feminino, tinha, em seu regulamento, o critério “beleza” no draft para a escolha dos elencos dos 12 participantes. O blogue Dibradoras conta bem essa história. A página, inclusive, é uma fonte importante de conteúdo sobre futebol feminino e merece o prestígio do clique.


Foto: Reprodução/ Mercado Livre

Hoje, parece, estamos presenciando uma virada nesse jogo. Cresce, com longo atraso e como resposta a críticas do movimento feminista, a consciência de que precisamos de mulheres protagonistas nos produtos culturais que consumimos. O futebol é um deles. Clubes tradicionais estão investindo em equipes femininas. Na Europa, sobretudo, já é uma realidade.

A América do Sul está atrasada nesse bonde da história. A Libertadores da América de Futebol Feminino, por exemplo, é disputada há alguns anos, mas de forma precária em algumas edições. Agora, com Commebol e CBF obrigando os clubes que disputam suas principais competições a manterem times femininos adultos e em categorias de base, a situação deve mudar.

No Brasil, muitos times tradicionais no masculino inauguraram ou retomaram seus times de mulheres. O São Paulo, por exemplo, que teve um time forte nos anos 1990, com jogadoras como Sissi e Kátia Cilene, reativou seu futebol feminino com um projeto estruturado. O clube contratou Cristiane, maior artilheira em Olimpíadas e autora de três gols na estreia do Brasil na Copa da França. Embora a jogadora, retornando de lesões, tenha atuado pouco pelo clube, ela foi parte importante da campanha de marketing no lançamento do uniforme do clube versão 2019.


Foto: Divulgação Adidas, Uniforme I SPFC

Porque, vejam bem, investir no futebol feminino não é só fazer o mínimo pela igualdade de gênero. É também pensar em negócios. Ao focar suas campanhas de marketing apenas nos homens, os clubes ignoram que pelo menos 50% da população é composta por mulheres. Dar às garotas a possibilidade de ter heroínas também no futebol pode auxiliar o crescimento das receitas dos clubes.

Pois, sim, o futebol feminino precisa ser sustentável. E, olha, ele pode ser. Estádios lotados na Europa, em Manaus e em Santos (em 2018, o maior público na Vila Belmiro foi em jogo das Sereias da Vila), por exemplo, demonstram que há potencial. Precisa, é claro, de mais atenção. Que os torcedores não se comovam com a modalidade apenas em épocas de grandes competições de seleções. E que os noticiários esportivos tirem ao menos dois minutos para mostrar os gols da rodada do Campeonato Brasileiro Feminino.

Porém, o aspecto financeiro não é o mais importante. Toda notícia sobre a modalidade é recepcionada por comentários misóginos a atacar o futebol feminino. O esporte é um incômodo para aqueles que não suportam um mundo onde as mulheres podem ser o que quiserem. Inclusive jogadoras de futebol. E só por ser uma pedra no sapato dessas pessoas, o futebol feminino já tem minha simpatia.


Luís Fernando Amâncio
Belo Horizonte, 14/6/2019


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