7 de Setembro | Luís Fernando Amâncio | Digestivo Cultural

busca | avançada
91200 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Clube do Conto Apresenta: Criaturas, de Carol Bensimon
>>> Vancouver Animation School apresenta webinário gratuito de animação
>>> Núcleo Menos1 Invisível evoca novas formas de habitar o mundo em “Poemas Atlânticos”
>>> Cia O Grito faz intervenção urbana com peças sonoras no Brás
>>> Simbad, o Navegante está na mostra online de teatro de Jacareí
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Blue Origin's First Human Flight
>>> As últimas do impeachment
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
Últimos Posts
>>> Renda Extra - Invenção de Vigaristas ou Resultado
>>> Triste, cruel e real
>>> Urgências
>>> Ao meu neto 1 ano: Samuel "Seu Nome é Deus"
>>> Rogai por nós
>>> Na cacimba do riacho
>>> Quando vem a chuva
>>> O tempo e o vento
>>> “Conselheiro do Sertão” no fim de semana
>>> 1000 Vezes MasterChef e Nenhuma Mestres do Sabor
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Have a Book in You?
>>> O desafio dos media-watching
>>> Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo
>>> Realismo fantástico
>>> Snoop Dogg - Ups & Downs
>>> The impact of the Internet
>>> Cigarro, apenas um substituto da masturbação?
>>> Tributo a Paul McCartney
>>> Começos Inesquecíveis
>>> Entrevista com Spacca
Mais Recentes
>>> The Thames and Hudson Manual of Etching and Engraving de Walter Chamberlain pela Thames and Hudson (1972)
>>> The Thames and Hudson Manual of Dyes and Fabrics. de Joyce Storey pela Thames and Hudson (1978)
>>> O menino do pijama listrado de John Boyne pela Companhia das Letras (2009)
>>> Viagem no tempo e no espaço (memórias) de Cassiano Ricardo pela José Olympio (1970)
>>> A Deusa Interior. Um guia sobre os eternos mitos femininos que moldam nossas vidas de Jennifer Barker Woolger, Roger J. Woolger pela Cultrix (1997)
>>> The craft and creation of wood sculpture de Cecil C. Carstenson pela Dover (1971)
>>> Decorating livable homes de Elizabeth Burris-meyer pela Prentice-hall (1947)
>>> Arte brasileira, século XX: Catálogos da Galeria Eliseu Visconti: pinturas e esculturas. de Eduardo Fortes (apresentação); Maria Elizabete Santos Peixoto (texto) pela MNBA Cenec (1984)
>>> Respirando endomarketing. de Medeiros Brum pela L&pm (2003)
>>> Quem e como fizemos a TV Globo de Luiz Eduardo Borgerth pela A Girafa (2009)
>>> Em busca de vidas passadas de Judith Johnstone, Glenn Williston pela Siciliano (1989)
>>> A Casa Sinistra de Maria Padula pela Nova Fronteira (1992)
>>> O livro das profecias de Mozart Monteiro pela O Cruzeiro (1967)
>>> Cavalos e Obeliscos de Moacyr Scliar pela Mercado Aberto (1983)
>>> A Nova Mulher de Marina Colasanti pela Círculo do Livro (1980)
>>> Orgias de Luis Fernando Verissimo pela Lpm (1989)
>>> Mulheres de 50 Anos Como Viver Plenamente esta Nova Idade de Suzanne Képès e Michèle Thiriet pela Lpm (1994)
>>> Mahabharata de William Buck pela Círculo do Livro (1992)
>>> Aventuras do Bravo Soldado Schweik de Jaroslav Hašek pela Civilização Brasileira (1967)
>>> Trilhas Sistema de Ensino - 8º ano Ciências, Língua Portuguesa e Geografia de Claudia Pedro pela FTD (2018)
>>> Sur La Photographie de Susan Sontag pela Titre
>>> Trilhas Sistema de Ensino - Matemática 9º ano de Claudia Pedro pela FTD (2018)
>>> Trilhas Sistema de Ensino - 6º ano Ciências e Língua Portuguesa de Claudia Pedro pela FTD (2018)
>>> Cuentos Populares de León Tolstoi pela Longseller (2004)
>>> Trilhas Sistema de Ensino - Arte 6º e 7º ano de Claudia Pedro pela FTD (2018)
COLUNAS

Sexta-feira, 13/9/2019
7 de Setembro
Luís Fernando Amâncio

+ de 85500 Acessos

No colégio em que eu estudei, estar na quinta série, atual sexto ano, era ter um compromisso cívico: participar do desfile de 07 de Setembro. Para nós, crianças de 10, 11 anos, era uma responsabilidade que recebíamos com indignação. Afinal, era feriado e tínhamos que vestir uniforme e ir para a escola. Não era um bom negócio. Alguns colegas, mais fáceis de se agradar, se davam por satisfeitos com o pão com presunto e queijo que recebíamos antes de ir para o centro.

No fundo, todavia, estávamos felizes com o feriado inusitado. Funcionava quase como um ritual de passagem, uma afirmação de que entrávamos na adolescência. Dava aquele orgulho de estar crescendo, que décadas depois viraria o desespero de estar envelhecendo.

Havia vantagens práticas. Uma semana antes do Dia da Independência, éramos liberados do último horário de aula para treinar o desfile. Estudantes de todas as turmas das primeiras séries colegial eram cuidadosamente distribuídos em filas, por ordem de tamanho, no campo de futebol da escola. Professores nos passavam noções básicas de marcha: o passo, os comandos (sentido!, direita volver!, esquerda volver!, meia volta volver!), o ritmo…

A fanfarra do colégio participava dos ensaios, alternando marchas militares com melodias tocadas no xilofone. Estou falando do final dos anos 1990, então o “Tema da Vitória” era quase obrigatório em qualquer manifestação patriótica. Na frente da fanfarra, iam as balizas, que eram, basicamente, as meninas bonitas da escola vestidas de paquitas e fazendo coreografias com varetas.

Após a semana de ensaios, chegava o grande dia. Ficávamos ali, reclamando pela demora, por não chegar logo a hora de desfilarmos. Sem perceber, estávamos nos divertindo. Um bando de adolescentes reunidos sempre arrumam o que fazer. Horas depois, cumpríamos a complexa tarefa de marchar pela principal avenida da cidade, com uma pequena multidão se espremendo nas calçadas para nos prestigiar.

Por fim, encontrávamos nossos familiares, que nos acompanhavam naquele rito de passagem. Aí, poderíamos esperar o desfile da escola de algum primo ou vizinho e, se estivéssemos realmente engajados no ato cívico, aguardaríamos o desfile dos militares. Minha família não era dessas, a fome apertava e retornávamos para casa.

Mesmo sendo uma criança nascida após a Ditadura Militar, recebi outras doutrinações patrióticas ao longo da formação escolar. Periodicamente, tínhamos que ouvir e fingir cantar o Hino Nacional. Inclusive, havia sempre a polêmica: bater palma depois do hino era desrespeito? Nunca houve consenso. Verde e amarelo, mesmo, a gente só vestia na época da Copa do Mundo. Só a pátria em chuteiras nos comovia.

Eram tempos sem o espectro da Escola Sem Partido. Ou seja, os professores de história podiam ensinar o que diziam os especialistas: que nossa formação como pátria ocorrera a partir da exploração da natureza por uma elite econômica, do genocídio indígena e da escravidão africana.

Também não havia a “ideologia de gênero”, essa lenda urbana que tanto amedronta os “cidadãos de bem”. Sexualidade era tratada em termos estritamente biológicos. Ou seja, víamos ilustrações no livro didático das transformações que explodiam por nossos poros. Enquanto isso, os meninos homossexuais eram isolados pelos colegas como leprosos de décadas atrás. Já os garotos que se vangloriavam por “passar a mão” nas namoradas eram um exemplo a ser seguido. Se fosse sem consentimento, era um gesto de coragem ainda mais valorizado.

São lembranças de mais de 20 anos, um passado envelhecido. O patriotismo em 2019 se tornou pauta eleitoral e os desfiles de 07 de setembro serviram, como nunca, de palanque. Houve governador desfilando em tanque de guerra, primeira-dama de vestido amarelo, criança no carro com o presidente...

Tudo isso enquanto a Amazônia queima em incêndios criminosos que beneficiam o avanço do agronegócio e do garimpo ilegal. Em Brasília, temos uma seleção de ministros lunáticos, defendendo os piores negacionismos da moda. Nessa onda, a censura avança sobre conteúdos que abordam temas de sexualidade, em polêmicas que explodiram justamente durante o feriado.

Ou seja, com o patriotismo sendo usado como cortina de fumaça para tanta coisa ruim, me resta a constatação de que aquele pão com presunto e queijo foi a melhor coisa que um desfile do Dia da Independência já me rendeu.


Luís Fernando Amâncio
Belo Horizonte, 13/9/2019


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Um antigo romance de inverno de Elisa Andrade Buzzo
02. Teatro sem Tamires de Elisa Andrade Buzzo
03. Dos sentidos secretos de cada coisa de Ana Elisa Ribeiro
04. Minha finada TV analógica de Elisa Andrade Buzzo
05. O ato de criação no texto dos artistas (Parte I) de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Luís Fernando Amâncio
Mais Acessadas de Luís Fernando Amâncio em 2019
01. 7 de Setembro - 13/9/2019
02. A Copa, o Mundo, é das mulheres - 14/6/2019
03. Lançamentos de literatura fantástica (1) - 1/3/2019
04. O Vosso Reino - 15/11/2019
05. estar onde eu não estou - 1/2/2019


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Entretempo
Antônio Fantinato
Topbooks
(2008)



Grande Enciclopédia da Cozinha - Aperitivos Rápidos e Embutidos
Vários Autores
Século Futuro
(1989)



Amigos Espirituais
Wanderley Lemos
Do Autor



Oficina de História 3
Flavio de Campos e Regina Claro
Leya
(2013)



As Maravilhas do Conhecimento Humano 2 Volumes
Henry Thomas
Globo
(1956)



The Valachi Papers
Joe Valachi
Joe Valachi
(1976)



Apocalip-se a Estrela da Manhã
Mandi
Acsn
(1997)



Lazer e Cultura Popular - 4ª Edição
Joffre Dumazedier
Perspectiva
(2012)



O Bosque de Cedros
Paulo Coelho
Caras
(1999)



Pratica da Gestao na Advocacia
Alexandre Macedonia
Lex
(2014)





busca | avançada
91200 visitas/dia
2,4 milhões/mês