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Terça-feira, 14/1/2020
O feitiço do tempo
Renato Alessandro dos Santos
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Há mais Shakespeare entre a capa e a contracapa do romance Telmah: a tragédia do desencontro, de André Carretoni, do que poderiam imaginar leitores que, por circunstâncias alheias a qualquer destino, acabassem não se anexando à trama toda; por outro lado, aqueles que, por interesse ou por mero acaso, resolvessem atravessar o livro de um lado a outro, bem, esses têm tudo para ser fisgados pelo anzol e pela isca shakespeariana, o que vai fazer toda a diferença ao final, quando apenas o silêncio acabará restando.



A possibilidade de reencontrar-se com o bardo que tantas vezes cortejou o rio Avon de sua famigerada Inglaterra é sempre um prazer, e, neste Carretoni, pela correnteza, em meio aos escombros de uma tragédia, descendo o rio e vencendo suas margens, os leitores deparam-se com Hamlet, Sonho de uma noite de verão, O mercador de Veneza, Romeu e Julieta, Macbeth e com outras pérolas que, do meio do cânone, o demiurgo joga para nós, os porcos, fisgando a gente.

Em Telmah: a tragédia do desencontro, estão também um tanto de realidade e um bocado de insólito que, em literatura, enquanto a cortina não desce, faz a verossimilhança ser rainha. Carretoni flerta com o fantástico, para evocar o pano de fundo que nada de maravilhoso tem: em 11 de março de 2004, no lastro apocalíptico que se seguiu após o 11 de Setembro, explosões quebraram a rotina das estações de trem de Madri, como em Atocha, incrustando no coração dos madrilenos a tragédia que deixou quase 2 mil feridos e acabou com a vida de 190 pessoas (todas lembradas pelo autor, que se preocupou em inserir, ao final de seu romance, a lista com o nome de cada uma das vítimas).

Uma célula ligada à Al-Qaeda, mais tarde, seria responsabilizada pelo atentado. Bombas em sacolas foram estrategi-camente plantadas e esquecidas nos vagões dos trens. Explo-sões destroçaram ossos, carne e ferro, deixando tudo retorcido, carcomido, perfurado. “Além dos explosivos, os terroristas colocaram parafusos e pregos nas bolsas que espalharam pelos trens”, conta um dos personagens. Estivesse o destino mais carrancudo do que fica em ocasiões terríveis como essa, mais bombas teriam explodido. Mas ainda bem que nem tudo deu certo aos criminosos, para a sorte de muitas pessoas que puderam contar com uma segunda chance. Eis o 11-M, o maior atentado terrorista da Espanha e de toda a Europa.

O terror

A alteridade narrativa se sobressai na obra. Os leitores têm conhecimento do que acontece não apenas pelo que conta o protagonista, Hélio Parfia [lê-se Párfia], na longa carta que envia ao autor. Não, não se trata de autoficção, porque o autor aqui é apenas o destinatário da carta, aquele que, por meio de notas, revela ao mundo uma trágica história de amor e morte. Cartas, diário, poemas ampliam a tipologia textual que serve de âncora aos leitores e permite, com isso, que outras vozes tenham vez, ecoando uma tragédia que, provavelmente, será sempre remoída por todos os que perderam pessoas queridas naquela manhã em que o terror manifestou-se em plena luz do dia.



Hélio conta que vai a Madri pesquisar sobre o 11-M. Hospeda-se em um hotel e, na cidade, perambula pelas cercanias da estação, colhendo impressões de tudo e de todos. Um dia, seu quarto é invadido. Roupas e outros pertences são deixados ali, para angústia do hóspede que, como o gerente do hotel, não entende o que houve. Para piorar, Hélio quase é atropelado, mas é salvo por uma moça. Mais tarde, ele vai procurá-la no hospital e não só não a encontra como nada a respeito dela é capaz de descobrir. Uma fresta entre as nuvens abre-se e, em meio àquele céu tenebroso, um raio dourado ilumina a vida de Hélio. Surge a ventura, o amor: é quando ele conhece uma garota, Telmah. Daí, Shakespeare? Também.

Telmah não é uma alcunha qualquer: num espelho, seria murder, como redr[u]m? Fosse André Carretoni mais fã de Stephen [King] do que de William, sim, mas é o bardo trágico que cuida dos títeres em Telmah: a tragédia do desencontro. Desse reflexo, a personagem surge apaixonada e, feito uma pira funerária, incandescente. Nos braços de Hélio, ela encontra uma beliche de onde não quer sair, mas o destino, matreiro, espera, infalível, para aprontar das suas. Será aí que o realismo dará lugar ao fantástico, ao insólito, com o tempo enchendo de mais tragédia a narrativa. Daí, Shakespeare? Também.

Entender a proposta do romance é abrir-se aos mistérios tantas vezes propalados na modernidade com base naquela notória frase do bardo, aquela, calcada na vã filosofia dos céticos. Não é estragar a surpresa, mas toda a carpintaria da obra é construída com base no que há de inexplicável, de estranho entre o céu e a terra, num mistério cuja chave remete tanto a Shakespeare como a Cervantes, e, para entender tal suposição, é preciso atentar para as datas que, efemérides, celebram a morte dos dois autores: o autor de Dom Quixote fora enterrado em 23 de abril de 1616, enquanto Shakespeare falecera no dia três de maio. Mas naquele ano a Inglaterra ainda utilizava não o calendário gregoriano, mas juliano, algo que mudou em 1752, quando, adotado o novo calendário, dez dias foram “surrupiados” do bardo. O que o leitor vai acabar descobrindo é que Hélio e Telmah...

Não foram poucas as vezes que a ficção apelou às peripécias do tempo: Borges, Bioy Casares, Dickens e outros, muitos. A lista segue... Buracos negros, Isabeau e Etienne Navarre em Áquila, Benjamin Button... Em Telmah: a tragédia do desen-contro, André Carretoni construiu uma engenhosa trama, à qual, à medida que o leitor a ela vai se entregando, aos poucos, mais e mais dela vai compreendendo, enquanto junta as peças e as pistas literárias deixadas no caminho pelo autor (até mesmo uma inusitada peça em um ato é inserida no enredo, num pastiche milkshakesperiano que, se contar com a indulgência do leitor, pode remeter tanto à tragicomédia quanto à peça dentro da mais existencial peça do bardo inglês). É como se a ilha de Lost fosse a confluência de dois mundos, onde Cervantes e a Espanha e Shakespeare e a Inglaterra divi-dissem o mesmo fio que leva à fuga do labirinto onde o Mino-tauro aguarda, à espera de sua presa. É o terror.

É o terror, e o terror, aqui, incinera corpos e responde pelo nome de terrorismo. No último episódio de The looming tower (série inspirada no não menos inspirador O vulto das torres, de Lawrence Wright), Ali Soufan, um agente do FBI interroga um suspeito. Ele pede que o outro leia uma passagem do Alcorão. “Quem mata uma alma, é como se tivesse matado toda a hu-manidade”, lê, resignado, o homem. “E quem salva uma alma, é como se tivesse salvado toda a humanidade.” Olhando em sua direção, o agente lhe diz: “Este é o Alcorão. Esta é a pala-vra de Alá. Este é o islamismo”. É uma pena que, para muitos, infelizmente, mais do que o amor, seja o ódio que fale mais alto, e impostando a voz... Foi essa mesma ira que causou a morte de tantas vítimas no 11-M espanhol, e dessa tragédia, o amor, feito a flor drummoniana, espontaneamente veio brotar dos escombros, para a alegria de Hélio e Telmah, personagens que nasceram um para o outro, a despeito do que as cismas do destino venham reservar aos dois.

Telmah: a tragédia do desencontro (Chiado Books, 242 p., R$ 53,00)

Nota do Autor
Renato Alessandro dos Santos, 47, é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia e de O espaço que sobra, seu primeiro livro de poesia (ambos publicados pela Engenho e arte).



Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 14/1/2020

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