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Terça-feira, 25/8/2020
Contentamento descontente: Niketche e poligamia
Renato Alessandro dos Santos

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Qu’importa a cor, se as graças, se a candura,
Se as formas divinaes do corpo teu
Se escondem, se adivinhão, se apercebem
Sob esse tão subtil, ligeiro véu?
Cândido Furtado

Niketche, quarto romance de Paulina Chiziane, trata de um tema caro às mulheres moçambicanas: a poligamia. Rami, há duas décadas, é casada com Tony e, juntos, têm filhos, posses, estabilidade social. Mas ela descobre que o marido tem outras mulheres, e sua vida vira de ponta-cabeça. Em Moçambique, como em outros países da África, a poligamia é permitida ― para a tristeza de muitas mulheres, que têm de aceitá-la sem nada que possam fazer.

Ciente dessa condição e partindo do princípio de que mulheres não deveriam passar por tal humilhação e injustiça, obrigadas que são a viver resignadas e submetidas aos caprichos dos homens, Rami vai acabar por reconhecer nas amantes do marido, não, rivais, mas pessoas que, como ela, carregam nas costas o fardo da submissão feminina, e, numa sucessão de reviravoltas admiráveis, essa mulher de caráter extraordinário vai mostrar que é uma luz acesa, uma ideia em movimento.

Há uma cena em que Rami e todas as outras mulheres de seu marido trancam-se nuas em um quarto com ele. O leitor magano e lobo mau esfrega as mãos e, em seguida, as pontas do bigode, seguro de que virá pela frente uma cena de sexo. Mas Niketche não busca 50 tonalidades cinzas, e os leitores descobrem que tal situação, para qualquer homem nas condições de Tony, é uma experiência terrível e cheia de agouro.

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, Balada de amor ao vento, algo que ocorreu apenas em 1990, mas ela, mais do que romancista, considera-se uma contadora de histórias. Os leitores podem entender essa diferença, à medida que avançam na narrativa. Para o bem: o texto flui como água doce de rio. Para o mal: ao final, não restam muitas pedras pelo caminho, algo que sempre faz diferença em literatura. Porém, essa fluidez assegura tanto a adesão como o interesse do leitor, que se surpreende com as peripécias que o enredo vai tomando e, cheio de fôlego, segue até o fim, virando as páginas com uma velocidade de leitura surpreendente.

A dança da criação
O que faz um escritor decidir-se por apertar essa ou aquela tecla? O que quer que seja levou Chiziane a focar menos em temas que nas literaturas africanas de língua portuguesa são mais comuns (política, colonialismo, guerra civil ― embora também estejam ali) e mais em questões que remetem ao amor, ao sexo, à vida conjugal vista de dentro e de fora do casamento; daí emergir termos como kutchinga, licabo, makanga e niketche ― dança de amor tradicional do norte de Moçambique:


"Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar. As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras. Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando o mistério da vida ao sabor do niketche. Os velhos recordam o amor que passou, a paixão que se viveu e se perdeu. (...) Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom ― O Tony devia celebrar e não chorar. Cinco esposas dançando niketche só para ele ― diz a Mauá. ― Que maior prova de amor espera ter?"


Com isso, ao discutir poligamia, Chiziane enfatiza, também, as diferenças culturais entre norte e sul de Moçambique ― diferenças que nas mãos e na alma das mulheres expõem a violência física e psicológica do sufocante patriarcado exerci-do, lá em África, fora e dentro de casa. Por último, vale afirmar que homens e mulheres têm muito a aprender com o romance de Chiziane: os primeiros, para se envergonhar da secular vilania masculina; já as mulheres, para se desvencilhar de uma subserviência legada a elas a ferro e fogo, e que não tem mais lugar de existir.

Nota do Autor
Este texto foi publicado originalmente no Tertúlia On-line e na revista África e africanidades e, em seguida, em Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia - volume 1. A ilustração é de Helton Souto.


Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 25/8/2020


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