A teoria do jornalismo e a seleção de notícias | Gian Danton | Digestivo Cultural

busca | avançada
35929 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Sexta-feira, 28/2/2003
A teoria do jornalismo e a seleção de notícias
Gian Danton

+ de 29800 Acessos

A questão central do jornalismo é porque as notícias são como são.

Dentre as várias teorias que tentaram responder a essa pergunta, três se destacam: a teoria do espelho, a teoria do gatekeeper e a teoria organizacional.

A teoria do espelho diz que as notícias são como são porque a realidade assim o determina.

Esse ponto de vista surge influenciado pela invenção da fotografia. O jornalista deveria ser como um fotógrafo: simplesmente relatar a realidade da maneira como ela se apresenta, sem qualquer intervenção subjetiva. Essa visão ganhou seu bordão com uma declaração de um correspondente da Associated Press, em 1856: "O meu trabalho é comunicar os fatos: as minhas instruções não permitem qualquer tipo de comentário sobre os fatos, sejam eles quais forem".

Era a idéia-chave da separação entre as opiniões e os fatos. Ou, como diziam os ingleses, "a opinião é livre, mas os fatos são sagrados".

A teoria do espelho surge em um momento de vitória do paradigma positivista, que pretendia expurgar a subjetividade da ciência, criando metodologias totalmente racionais. Essa preocupação positivista se refletiu no jornalismo na forma de contraposição ao jornalismo literário, em que o jornalista era o porta-voz de uma ideologia. Também foi uma reação contra os excessos do chamado jornalismo sensacionalista.

Segundo José Marques de Melo, no final do século XIX o jornalismo norte-americano havia deixado de ser um serviço para tornar-se um negócio altamente lucrativo. A diretriz passou a ser o sensacionalismo e os princípios éticos mais elementares foram esquecidos. Na ânsia de conseguir a atenção dos leitores, muitos jornais passaram até mesmo a criar notícias. A existência do fato, fator essencial do jornalismo, passou a ser irrelevante.

Na teoria do espelho, o bom jornalista é um observador desinteressado, que relata com honestidade e equilíbrio tudo que vê, cauteloso para não emitir opiniões pessoais.

A teoria do espelho é a bússola norteadora dos manuais de redação e das regras de conduta dos jornais. Parte-se do princípio de que seguir as regras do bom jornalismo (escrever a matéria de forma impessoal, ouvir os dois lados da questão) era garantia de se ter um retrato fiel da realidade.

De todas as teorias que se ocuparam da notícia, essa é talvez a mais criticada. Para começo, suas bases são frágeis. A analogia com a fotografia só demonstra a abertura para a subjetividade, pois mesmo a fotografia pode ser veículo de subjetividade. O semiólogo francês Roland Barthes já demonstrou que a fotografia não é só denotação, mas é também conotação. Processos conotativos, como a escolha das fotos (por que determinado jornal coloca a pior foto do candidato X, enquanto outro jornal publica a melhor foto desse mesmo candidato), a pose e os processos de fotomontagem demonstram que a fotografia não é um retrato fiel da realidade.

Ademais, teorias cognitivas demonstram que o ser humano não consegue captar a realidade em toda as suas facetas e a escolha dos fatos que serão memorizados obedece a padrões subjetivos.

Por outro lado, o filão de investigação que concebe as notícias como construção rejeita as notícias como espelho por diversas razões. Em primeiro lugar, argumenta que, num mundo em que tudo gira ao redor dos meios de comunicação de massa, é impossível separar a realidade da realidade que é mostrada pela mídia. A teoria do agenda setting, por exemplo, diz que as pessoas só discutem aquilo que está na mídia. Em segundo lugar, defende a posição de que a própria linguagem não pode funcionar como transmissora direta de significado inerente aos acontecimentos, porque a linguagem neutra é impossível. Embora o fato seja fator fundamental do jornalismo, sem o qual o mesmo não existe, há uma certa subjetividade e essa subjetividade se encontra na escolha dos fatos. Na escolha das notícias.

Duas outras teorias vão tratar desse processo de escolha de notícias.

A teoria do gatekeeper, originalmente surgida no campo da psicologia e adaptada à análise comunicacional por David Manning White no anos 50, dá ênfase à ação pessoal. White acompanhou durante uma semana o processo de escolha de notícias por parte de um jornalista de meia-idade de um jornal médio norte-americano. A cada escolha, o jornalista, denominado Mr. Gates, deveria anotar as razões pelas quais aceitava ou não uma notícia vinda de uma agência.

White concluiu que o processo de seleção é arbitrário e subjetivo. Assim, de acordo com a teoria resultante do estudo, o jornalista é um gatekeeper, um porteiro, que abre e fecha a porta para as notícias. Aquelas que parecem mais interessante para o jornalista são publicadas, as resultantes são esquecidas.

Generalizando, pode-se dizer que todo jornalista, a todo momento, é um gatekeeper, pois, além das escolhas das pautas que mais interessam, cabe também a escolha dos detalhes que serão publicados. Um profissional pode abrir o portão para determinada informação em uma notícia e fechar para outros. Além disso, há profissionais, como os editores, que têm como função abrir ou fechar o portão para os fatos que serão divulgados, configurando verdadeiros gatekeepers.

A teoria gatekeeper foi duramente criticada por apresentar uma explicação puramente psicológica para a questão das escolhas das notícias e esquecer aspectos sociais. O enfoque sobre a ação social seria dado pela teoria organizacional. Criada por Warren Breed, essa teoria insere o jornalista no seu contexto mais imediato: a organização para a qual trabalha.

Breed dá destaque para os constrangimentos organizacionais pelos quais passam os jornalistas e considera que estes obedecem muito mais as normas e a política editorial/política da empresa, do que seus impulsos pessoais na hora da escolha das notícias.

Como exemplo disso, em estudo realizado em Portugal por José Luís Garcia, 90,6% dos jornalistas daquele país revelaram já ter sofrido algum tipo de pressão no exercício de sua profissão. Essas pressões eram de origem externa e interna. Entre as pressões externas, a maioria provinha de grupos interesse político-partidário (85,8%), seguidos por grupos empresariais e governamentais. Essa pressão, entretanto, não é direta. Ao jornalista inexperiente não é informado o que ele deve ou não deve fazer. Ele o aprende aos poucos, através de um sucessão sutil de recompensas e punições. Assim, o jornalista aprende a antever aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar penalidades.

São raros os jornalistas que se colocam contra a linha política/editorial da empresa. A maioria se conforma com ela em decorrência de vários fatores. Entre eles: as punições e recompensas; o sentimento de estima para com os superiores e o medo de magoá-los; a vontade de crescer profissionalmente (jornalistas que se adequam à linha política/editorial da empresa têm mais chance de chegar a cargos de chefia); o prazer da atividade (os jornalistas, apesar de não perceberem altos salários, estão geralmente satisfeitos com sua atividade e sentem que estão contribuindo de alguma maneira para a melhoria da sociedade).

Um outro tipo de pressão é o tempo. Quanto menor for tempo de escolha do jornalista, quanto mais próximo ele estiver do deadline, maior será a influência da organização sobre ele. O fator tempo, portanto, transcende a ação pessoal do jornalista e pode ser inserido nos constrangimentos organizacionais que assimilam o jornalista à política organizacional.

As teorias organizacional e gatekeeper não pregam uma volta ao sensacionalismo anterior à teoria do espelho, mas demonstram que toda notícia é apenas uma versão dos fatos, e nunca a versão definitiva dos mesmos.

Para ir além
BARTHES, R. A Mensagem fotográfica. In: LIMA, L. C. Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

SOUSA, J. P. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.

TRAQUINA, N. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001.


Gian Danton
Macapá, 28/2/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Fake-Fuck-Fotos do Face de Jardel Dias Cavalcanti
02. A fada do dente sou eu de Ana Elisa Ribeiro
03. Superdeuses, de Grant Morrison de Gian Danton
04. A interpretação dos chatos de Daniel Bushatsky
05. Rituais de final de ano de Ana Elisa Ribeiro


Mais Gian Danton
Mais Acessadas de Gian Danton em 2003
01. A teoria do jornalismo e a seleção de notícias - 28/2/2003
02. A análise da narrativa - 24/1/2003
03. Os X-men e o fim da infância - 31/1/2003
04. Experiências e Livros - 7/10/2003
05. Demônio maniqueu e demônio agostiniano - 11/4/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




THE ENCYCLOPEDIA OF JUDGING AND EXHIBITING
ESTHER VERAMAE HAMEL
N/D
(1972)
R$ 50,00



NATUREZA HUMANA - JUSTIÇA VS. PODER
NOAM CHOMSKY; MICHEL FOUCAULT
WMF MARTINS FONTES
(2014)
R$ 35,90



VIVER É UMA GRANDE AVENTURA
GISELDA LAPORTA NICOLELIS
ATUAL
(1993)
R$ 6,90



A PRIMAVERA DO DRAGÃO A JUVENTUDE DE GLAUBER ROCHA
NELSON MOTTA
OBJETIVA
(2011)
R$ 20,30



O RIO TRAZ O RIO LEVA
GANYMÉDES JOSÉ
BRASIL
(1985)
R$ 4,00



ARTE BRASILEIRA SOBRE PAPEL NA COLEÇÃO DO MUSEU DE ARTE MODERNA DE SP
TADEU CHIARELLI - CURADORIA
MAM - SP
(1999)
R$ 22,04



SALAS CONTEMPORÂNEAS
VARIOS AUTORES
FOLHAS DE S. PAULO
(2010)
R$ 4,50



ENCONTRO NO NEVOEIRO
J. M. SIMMEL
NOVA FRONTEIRA
(1977)
R$ 4,00



DIÁRIO DE UM CUCARACHA
HENFIL
RECORD
(1984)
R$ 15,00



A VIDA SECRETA DE ADOLF HITLER
DAVID LEWIS
NÃO INFORMADA
R$ 60,00





busca | avançada
35929 visitas/dia
1,3 milhão/mês