Rosa e o romance fundador | Luís Antônio Giron

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Segunda-feira, 17/4/2006
Rosa e o romance fundador
Luís Antônio Giron

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+ 1 Comentário(s)

Na cultura brasileira, a única certeza reside na efeméride. Comemorar o passado é o que resta, já que nada pode ser previsto, salvo meia dúzia de projetos aprovados com verbas de renúncia fiscal e a agenda de espetáculos. A coincidência decimal de datas faz com que a gente se lembre do que vale a pena. Neste ano, é festejado o cinqüentenário do romance Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro João Guimarães Rosa.

O livro, publicado originalmente em maio de 1956 pela editora José Olympio, será reeditado em volume luxuoso pela Nova Fronteira, as universidades se agitam com novas pesquisas e visões sobre o tema e, em fevereiro, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em São Paulo, com sede na Estação da Luz, com uma exposição sobre o romance, na qual o público pode ler em painéis cada uma de suas 600 páginas. Será que finalmente a ficção renovadora de Guimarães Rosa será popularizada? Os brasileiros estão preparados para converter Grande Sertão: Veredas em best-seller real? Qual a lição guardada nesse livro?

Não se pode acusar Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27 de junho de 1908-Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967) de mau vendedor. Afinal, Grande Sertão: Veredas está perto da trigésima edição. O que significa que, desde 1956, ele já vendeu perto de 150 mil exemplares. Para os padrões de hoje, a cifra não é insignificante, embora não caracterize um blockbuster. Um livro de Lya Luft – Perdas e Ganhos, de 2003 – vendeu 190 mil exemplares nas primeiras semanas. Sem contar os 40 milhões de livros vendidos por Paulo Coelho, o maior vendedor da história da literatura brasileira. Além disso, se fosse levado em conta o coeficiente de leitura do brasileiro, poucas obras escapam da amnésia coletiva. Quantos de fato leram de cabo a rabo a narrativa do jagunço Riobaldo? Desses letrados, quantos de fato lograram entender a totalidade da mensagem rosiana?

O fato é que pouca gente assimilou o componente experimental de Guimarães Rosa. Talvez tenha chegado o momento de compreendê-lo. Este ano marca também os 60 anos da estréia literária do escritor, com a coletânea de contos Sagarana, e os 50 de outra reunião não menos célebre, Corpo de Baile. Porque em 1956 Rosa teve o desplante de lançar duas obras-primas. Uma delas se ofuscou, por motivos óbvios.

Grande Sertão: Veredas é uma obra monumental, epopéia protagonizada por um fora-da-lei – o cangaceiro Riobaldo – que erra pelos sertões em busca de si próprio, do poder e do amor. Associa-se a bandos de jagunços, faz um pacto com o diabo para assumir a liderança de uma quadrilha, apaixona-se pela figura sexualmente ambígua do jagunço Diadorim, e conta suas aventuras. É no contar que tudo começa e faz sentido.

O romance é formatado inteiramente a partir da linguagem. É ela que dá vazão às ações e justifica as façanhas dos jagunços contra o governo, num tempo indeterminado (talvez em 1930, época do esplendor do cangaço) e num espaço aparentemente definido na fronteira, os Campos Gerais – entre Minas Gerais, Bahia e Goiás. Essa região, porém, se estilhaça pela força da imaginação à medida que a narrativa se arrasta, convertendo geografia em fantasia, aventura terrena em fábula e busca metafísica. Uma escrita “transrealista”, nos dizeres de Tristão de Athayde. Uma errância em forma de ficção.

O espaço-tempo em que o livro se passa é o sertão. Mas não o sertão circunscrito cientificamente por um Euclydes da Cunha em Os Sertões (1902) – livro que serviu como inspiração para Guimarães Rosa. O sertão de Rosa é um território mítico. Como diz Riobaldo, conversando com um abstrato “doutô” da cidade (o “doutô” se afigura como o leitor do futuro): “O sertão é e não é”. Ou: “O sertão está em toda parte”. Imagem da vida, o sertão é o local dos perigos da travessia humana: “O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é o que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca”.

Riobaldo ensina que viver se confunde com aprender a viver. Viver é o mesmo que escrever, contar a história de uma busca de sentido – de um sentido que escapa a cada página, como se a fronteira do sertão estivesse no nada. A constatação de que não existe nem Deus nem Diabo, de que o homem se encontra perdido no meio do deserto, é a grande lição desse épico. Sem alternativa de pactos com o além ou a providência divina, sobra ao homem-narrador se apossar da própria existência e seguir sozinho a travessia sem eira nem beira.

Para resgatar algum sentido, o narrador-jagunço lança mão de um tom que mescla romance moderno, cavalaria e cordel. Como observou o crítico Bernardo Gersen, a técnica rosiana pode ser definida como de “rédea-solta”. Dá livre curso à imaginação, numa versão tropical da corrente de consciência (stream of consciousness), do romance Ulisses (1922), do irlandês James Joyce. Curiosamente, a questão joyceana, tão comentada no mundo literário de língua inglesa, se parece muito com a questão rosiana: a criação de uma obra narrativa capaz de alterar os horizontes literários e ser, ao mesmo tempo, avessa à leitura superficial, a ponto de muitos leitores confundirem invenção de linguagem com mero pedantismo.

O livro de Rosa é salpicado por momentos poéticos: os versos, as palavras-valises, neologismos e falas populares emergem do fluxo da trama, como levados por uma correnteza inevitável. O livro, como a vida do herói, é dividido pelos dois lados do rio São Francisco: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão”.

O rio que se ergue como uma muralha de madeira no horizonte árido isola, blinda a mitologia sertaneja do resto do Brasil. A fronteira geográfica está na imaginação. E hoje, o que resta do sertão de Guimarães Rosa refluiu para a palavra impressa. O escritor conseguiu sair de si mesmo e forjar uma obra de arte superior. Seria conhecido caso não tivesse escrito o romance, mas Grande Sertão o elevou à condição de autor canônico da língua portuguesa.

Livro fundador do olhar moderno no romance brasileiro, Grande Sertão: Veredas merece ser relido. A cada releitura, esconde-se uma surpresa nas veredas urdidas por Riobaldo. E o melhor é se deixar levar pelo narrador. A leitura tem de assumir a rédea-solta para ganhar graça. Ainda bem que existe Grande Sertão: Veredas para dar sentido a um ano.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na revista eletrônica da AOL, em janeiro de 2006.


Luís Antônio Giron
São Paulo, 17/4/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
24/4/2006
09h50min
Realmente, meu caro Giron, a narrativa/poema do Rosa é feito primeira namorada que nunca sai da memória e, vez em quando, queremos rever/reler. Ganhei de presente aniversarial, aos onze, minha edição daquele ano (1972) que, a cada dois/três anos renamoro e reconquisto como se deve fazer com uma mulher. Rendo-me a ela e ao poema: "Sertão - se diz - o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem" (pg. 289).
[Leia outros Comentários de Carlos MC Santana]
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