O conformista incorformado | Luís Antônio Giron

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ENSAIOS

Segunda-feira, 16/10/2006
O conformista incorformado
Luís Antônio Giron
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Caricatura de Spacca

Machado de Assis legou uma herança crítica que salva o Brasil do excesso de ufanismo nacionalista

Apesar de retraído e um tanto quanto arredio, o carioca Machado de Assis gostava de visitar as redações. Quando, numa certa tarde, entrou na redação da Revista Brasileira, surpreendeu seu amigo, o Visconde de Taunay, lendo um livro. Como era de praxe, Machado perguntou qual era a obra. Taunay mostrou o volume. Machado não demonstrou entusiasmo. "Não gosta?", perguntou Taunay. "Não", respondeu o visitante. "Detesto escritor que me diz tudo."

A anedota diz muito sobre o estilo da obra do carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), considerado o maior escritor que o Brasil já produziu. Ele fez questão de nunca dizer tudo ao leitor. Intencionalmente, recheou seus nove romances e mais de centenas de contos e crônicas com ironias, elipses e digressões que deixaram pulgas nas orelhas de todos que devoraram suas produções. Elas mais sugerem que revelam, mais insinuam que afirmam, e foi esse estilo que tornou a suposta infidelidade de Capitu, personagem central do romance Dom Casmurro, o enigma mais famoso da literatura nacional.

Mas não foi apenas isso que fez dele o maior dos escritores brasileiros. Seu estilo telegráfico, baseado nas frases curtas, serviu de modelo para os modernistas. Herdeiro dos escritores irônicos do século XVIII, sobretudo o irlandês Laurence Sterne e o francês Voltaire, o escritor mulato e neto de escrava conseguiu se impor como mestre das letras em uma monarquia escravagista. Forjou, assim, uma espécie de "milagre brasileiro" e é hoje admirado e lido no mundo todo. No livro Gênio, o crítico americano Harold Bloom inclui Machado entre os escritores canônicos do Ocidente. "O espírito de Sterne libertou Machado de quaisquer exigências meramente nacionalistas que o Brasil porventura pretendesse lhe impor", afirma Bloom, fã de Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance cômico e niilista. "É como se Laurence Sterne houvesse escapado à cristandade, trocado os absurdos da monarquia britânica do século XVIII pelas sandices da ópera bufa do Império Brasileiro do século XIX (inclusive com elementos da escravidão negra para dar mais sabor à irrealidade)".

Mas, cá no Brasil, por mais que tenha proporcionado deleite literário para várias gerações, obtido reconhecimento geral e sido enterrado com pompas de estadistas, Machado sempre foi acusado de não olhar atentamente para sua pátria, como era esperado de um escritor de tal nível, precedido e sucedido por autores que faziam questão de legar isso em conta. Passou décadas tachado de alienado, despolitizado, um sujeito que daria um voto nulo numa eleição sem sequer se preocupar quem eram os candidatos. Não montou nenhum projeto de nacionalidade generoso como queriam os artistas do Romantismo – movimento no qual apareceu, em 1859, como poeta e cronista de teatro. A imagem do mulato resignado, hesitante, gago e conservador não calhava ao gênio romântico e muito menos à geração positivista e engajada que o sucederia, de Euclides da Cunha e de Lima Barreto. Um escritor mais jovem, Silvio Romero, acusou-o maldosamente ainda em vida de possuir uma "gagueira" de estilo, deslocada da eloqüência e o barroquismo vigente. Mesmo os modernistas o adotaram pelo estilo, não pelo conteúdo. Os modernistas, como os românticos, cultivaram um projeto nacionalista.

O detalhe é que seu lado patriótico integrava o pacote de enigmas. Foram necessários quase 70 anos para que sua dimensão maior fosse decifrada. A partir da década de 1970, estudiosos e poetas descobriram alçapões e passagens secretas na obra madura do bruxo, abrindo novas perspectivas. Com o livro Machado de Assis: a Pirâmide e o Trapézio, de 1976, Raymundo Faoro mostrou que era possível vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX por meio dos romances de Machado. Dez anos depois, o professor inglês John Gledson, em Machado de Assis – Ficção e História, demonstrava que o escritor quis oferecer, em sua ficção, uma visão completa da história do Brasil, da Independência (Memórias Póstumas de Brás Cubas), passando pela crise da Regência e a Maioridade, entre 1839 e 1840 (Casa Velha), a Lei do Ventre Livre de 1871 em Dom Casmurro e a Abolição dos escravos em 1881 em Memorial de Aires. Tudo isso sem se render ao retrato direto. Em vez disso, buscou o experimentalismo que antecipou a modernidade. Machado arrancou da História a substância de suas narrativas, como definiu Roberto Schwarz no ensaio Um Mestre na Periferia do Capitalismo, de 1991. Nesta obra, o estudioso evidenciou o narrador sem credibilidade nos romances maduros do escritor, o que lhe permitiu fazer uma crítica avassaladora das instituições e da sociedade do seu tempo.

Talvez pela própria figura histórica do funcionário, sujeito tímido e monarquista liberal, Machado foi considerado um monumento intocável. Contou para isso o fato de ele ter se ocupado no fim da vida, quando seu mundo imperial caiu, em fundar e construir a Academia Brasileira de Letras – "República" onde pôde reinar soberano de 1896 até a morte. No enterro pomposo, Rui Barbosa discursou como representante da Academia, fixando a imagem do clássico da língua, árbitro das letras, filósofo do romance, mago do conto e "sem rival entre os contemporâneos".

Talvez Machado ficasse constrangido se pudesse ouvir esses elogios. Afinal, repudiou qualquer sombra de vaidade ou idealismo. Em 1873, publicou o ensaio "Instinto de Nacionalidade". Ali, criticou a visão nativista pitoresca dos românticos: "O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço." A tal intimidade não dominou a cultura brasileira nas décadas que se sucederam à morte do autor. Por influência de Euclides, Lima Barreto e os modernistas, o Brasil adotou a fórmula explícita do nativismo engajado, e Machado passou para os compêndios literários como um escritor retraído, clássico, irônico e com pensamento político retrógrado. O "bruxo do Cosme Velho", como o apelidou o crítico Augusto Meyer, permaneceu enigmático no seu humour cético.

Para o poeta João Cabral de Melo Neto, Machado foi um conformista inconformado. Um cético que, nem por isso, deixou de compreender profundamente o seu tempo. Monarquista, saudou a Abolição, mesmo que tivesse consciência de que os escravos seriam explorados por uma outra modalidade de opressão. "Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular", escreveu no autobiográfico Memorial de Aires, romance publicado no ano de sua morte. Machado produziu uma literatura pessimista, crítica e experimental. Foi difícil entendê-lo, já que nem mesmo acreditava no seu país como uma nação republicana. Segundo John Gledson, Machado assumiu a incerteza histórica, típica do Brasil e que deu ao escritor a liberdade para criar o novo em terreno aparentemente estéril. Machado de Assis salvou por antecipação o Brasil da literatura engajada, da obviedade da denúncia e das crendices de toda espécie. Pintou um retrato negativo da nação. O caráter devastador de suas meias-palavras é a herança do escritor para Brasil de hoje.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na edição de 8 de setembro de 2006 da revista Época.


Luís Antônio Giron
São Paulo, 16/10/2006
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