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COLUNAS

Quarta-feira, 23/8/2006
10 vídeos musicais no YouTube
Rafael Fernandes

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+ 2 Comentário(s)


Ilustra by Tartaruga Feliz

O colunista sua frio. Passa a mão na cabeça. Bate a cabeça no teclado. Pensa em ter uma crise de choro – mas percebe a tempo o quão ridículo seria. Abre o jornal, folheia rapidamente, avidamente. Nada. Busca seus textos preferidos. Nada. Abre simultaneamente 150 páginas na Internet em busca de inspiração. Mas não adianta. O colunista está no meio de uma crise criativa. Não entenda mal. Não é falta de assunto. Muito menos o “temível fantasma" da folha em branco. Não. O colunista tem uns 10 assuntos na cabeça e 4 textos já iniciados – ou melhor, com palavras jogadas. Mas os textos não avançam; se avançam, ficam horrorosos. Seria crise criativa, frescura ou preguiça? No momento não importa – o tempo passa, o deadline se aproxima, a contagem de caracteres não avança. O colunista pensa em mandar um e-mail ao editor pedindo clemência, um prazo maior, ou anunciando que nessa semana não vai ter coluna. Desiste. E começa a ter uma “síndrome de perseguição”. Imagina que haja centenas de novos textos e novos autores apenas à espera de uma brecha de um dos colunistas – como a que este estava prestes a abrir – para roubar seu lugar. E, se isso acontecesse, o que restaria ao pobre e talvez ex-colunista? Criar um blog com um nome sem sentido e escrever um post que começaria: “Gente. Hoje saí do Digestivo. Nossa, tô um caco. Ainda por cima briguei com a Maricotinha. Até encerrei minha conta no Orkut. Poxa, nada dá certo pra mim”; em seguida seria postada uma letra do Los Hermanos ou do Coldplay. Daquelas bem deprês mesmo. Enfim, o fundo do poço.

Mas eis que ele tem uma idéia genial. Que depois de 2 minutos já não é tão genial assim: escrever sobre uma crise criativa – há algo mais clichê que isso? Então, tem outra idéia genial – cuja “grandeza” dura 2 segundos: fazer uma coluna “super descontraída”. Quem sabe falar de ETs, bolo de cenoura, a "Dança dos Famosos" do Faustão ou brincadeiras de criança. Melhor não. Finalmente, uma luz: lembra que atualmente a Internet é uma grande saída – quase sempre há algo novo. Pode ser uma boa falar do YouTube. Mas a crise criativa continua e não daria para forjar uma tese sobre o futuro da TV ou algo do tipo. Então por que não listar alguns vídeos interessantes? Boa! E só de música – melhor ainda! Num insight o colunista rememora o artifício usado em 10 entre 10 revistas impressas: números na chamada das reportagens são importantes – “376 idéias de moda, beleza e decoração”, “35 idéias para organizar sala, quarto e banheiro”, “800 milhões de novos consumidores”, “22 páginas matadoras da Mariana do BBB”, “Quem são as 10 maiores celebridades do mundo”, “Os 50 mais bonitos da TV”. E tudo isso só neste mês! Então, pensa no brilhante título: "10 vídeos musicais no YouTube". Fim de papo!

Eis a medíocre história de como nasceu esta coluna. Se alguém já fez isso em outro lugar (e provavelmente já – o que ainda não fizeram na Internet?), me perdoem – não foi cópia. Também não esperem os melhores ou mais raros vídeos – o colunista está sem inspiração, lembram? Vamos a eles:

Emetevê
1) Dee Lite – “Groove Is In The Heart”
Essa é uma música pop dançante, obviamente feita apenas para a diversão – por isso irresistível. Quem viveu o começo da MTV Brasil certamente conhece esse clipe. Tocou até não poder mais. O vídeo até hoje é hilário, beirando o ridículo (ou mais que ridículo mesmo) – e aí está boa parte de sua força. Parece que ninguém se leva a sério ali – e acho que ninguém se levava mesmo. Talvez realmente fosse uma época melhor da MTV Brasil – ou menos pior, em que tudo era escrachado, sem grandes intenções ou preocupações. Atualmente – e principalmente após o “efeito Nirvana” – as MTVs se acham cult, o que não são. Assim, quase todos os artistas – fabricados ou não – se acham superstars de suma importância, a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos. Fazem poses, caras e bocas. E não são nada disso. E vão ficar datados. Fiquemos então com “Groove Is In The heart” – um clipe datado, mas ao menos engraçado. Para quem nunca viu, digamos que o Dee Lite é uma espécie de Black Eyed Peas com mais humor e menos pretensão – o grupo ao menos não se achava importante e não ficava gritando “ahã” a cada dois segundos.

Auge e afirmação
Os dois vídeos a seguir são do mesmo ano – 1995 – e, ainda falando de MTV Brasil, são dois marcos da emissora. Ambos se destacaram dos demais nesse ano – foram muito exibidos e comentados. Também coincidiram com a estréia do Video Music Brasil (somados, esses clipes ganharam 7 prêmios). De certa forma a inauguração do prêmio também é uma espécie de marco para a MTV, pois foi o início de sua viabilidade comercial – a emissora começava a sair do “underground” para ter mais presença no mercado. Essas músicas também coincidem no autor – ambas são de Carlinhos Brown (a dos Paralamas tem letra do Herbert), o que prova que quando fala menos, evita ser um agitador cultural e tenta sair da mesmice do comercialesco, Brown é capaz de fazer boas composições pop.

2) Paralamas do Sucesso – “Uma Brasileira”
Os Paralamas do Sucesso vinham de um insucesso comercial – o excepcional Severino de 1993 vendeu só 55 mil cópias que, se hoje rende um disco de ouro, na época era fracasso – e lançaram o disco ao vivo Vamo Batê Lata, que vinha com um disco adicional de brinde, contendo quatro músicas inéditas, gravadas em estúdio, dentre as quais "Uma Brasileira", grande canção pop de acento reggae característico do som do grupo. Com música e clipe os Paralamas foram novamente sucesso comercial – o disco vendeu mais de 1 milhão de cópias.

3) Marisa Monte – “Segue o Seco”
Se hoje Marisa Monte é essa artista quase intocável, "acima de qualquer suspeita", muito deve a esse clipe, marco na carreira da cantora, pois consolidou a união do sucesso de público e crítica. No VMB de 1995 ganhou 5 prêmios.

Vale a pena ver
4) Gram – “Você Pode Ir Na Janela”
O Gram é uma das grandes promessas do pop brasileiro. Seu disco de estréia é muito bom – devem lançar em setembro seu segundo registro. Foram comparados com o Los Hermanos; as semelhanças existem, mas se o Los Hermanos está para Weezeer com letras que remetem a Chico Buarque, o Gram está para Beatles com climas que remetem a Radiohead (NOTA IMPORTANTE: essas comparações foram feitas para mostrar quais as sonoridades que podem lembrar esses grupos, não houve nenhuma conotação estética e/ou de relevânica na história da música). Esse clipe foi bastante comentado como "aquele clipe do gatinho". Os únicos recursos usados foram folhas brancas, canetas Bic e muito suor.

5) Jamiroquai – “Virtual Insanity”
Outro clássico da MTV: ótima música, grande idéia, ótima edição. O Jamiroquai, liderado pelo britânico Jay Kay, já era conhecido por hits como "Space Cowboy"; com "Virtual Insanity" ganhou notoriedade e "status" – conquistou crítica e público. A música ganhou um Grammy (o que não significa tanto musicalmente) e quatro Video Music Awards (menos ainda) e abriu caminho para outro sucesso, "Cosmic Girl", também do disco Travelling Without Moving. O que importa mesmo é que a música é realmente ótima e o vídeo é fantástico, vale ser visto e revisto.

6) Peeping Tom – “Mojo”
O vídeo não tem o mesmo apuro artístico dos 2 anteriores, mas é divertido. Peeping Tom é mais um dos 1001 projetos de Mike Patton (ex-Faith No More). Neste disco recém lançado, definido pelo próprio como “músicas que eu gostaria de ouvir tocando no rádio”, Patton conta com a participação de Dan the Automator (um dos homens por trás do Gorillaz), Rahzel, Massive Attack, e até Norah Jones (em “Sucker") e Bebel Gilberto (em “Caipirinha"), entre outros. Essa ótima música, “Mojo”, é uma parceria de Patton com Dan the Automator e conta com a participação de Kid Koala e Rahzel (este último também participa do clipe). Patton aparece “tirando onda” de rapper e o clipe ironiza os mais diversos programas: de cozinha, religiosos, de crime, séries adolescentes, políticos e etc. Com participação de Danny De Vito – fã declarado de Patton – e da modelo Rachel Hunter.

A transformação
7) Nelly Furtado (versão “garotinha”) – “I’m Like a Bird”
Nelly Furtado despontou como mais uma cantora pop meia-boca em 2000, quando estourou o hit “I’m Like a Bird”, música água com açúcar que conquistou até Nick Hornby. Já tinha músicas com marca hip-hop, mas em seu disco a impressão que ficava era de um pop bem comportado, de melodia fácil. Ficou marcada por esse hit e por uma persona estilo menininha, toda alegre, feliz e saltitante. Chegou até a fazer uma simpática versão da música em duo com Steve Vai num Grammy de 2002 (com este vídeo aqui linkado serão 11 vídeos, mas deixa pra lá), toda formosa num vestido vermelho comportado com cabelo preso, como a mamãe queria. Nesta performance ao vivo ela mostra seu perfil à época.

8) Nelly Furtado (versão “bad girl”) – “Promiscuous”
Aqui, a Nelly Furtado de 2006 – cantando (?) “Promiscuous” (belo nome!) no Saturday Night Live. A música continua descartável; aderiu ao hip-hop mais descarado, sabe-se lá porque: se sempre quis isso, se achou que pop não dava mais nada e para vender hoje hip-hop é o que pega, se passou pelo quadro “transformação” da Xuxa ou se andou muito com a Preta Gil. Resolveu remodelar seu perfil para, digamos, mulher fácil, com todos os traquejos usados pelas atuais “divas” do pop atual, cheios de “uh”, “ahs", “yeahs”. Parece até a transformação de Sandy (não a irmã do Junior, mas Olivia Newton-John) em Grease – Nos Tempos Da Brilhantina. O que não se faz para continuar na indústria, não é mesmo?

O Mico
9) Ashlee Simpson – “ao vivo”
Ashlee Simpson começou sua carreira num reality show com muita perspicácia chamado de The Ashlee Simpson Show, que contava a história da construção de sua carreira musical. Estranho, não? Ela sempre esteve na sombra de sua irmã, Jessica Simpson, mais bonita e nem por isso talentosa, que faz parte dessa nova leva de atrizes/cantoras dos EUA. Até parece que lá virou obrigatório cantar mal e virar péssima atriz ou vice-versa. Nessa categoria temos Lindsay Lohan, a própria Jessica, Beyoncé, Hilarry Duff e até – pasmem – Kelly Osbourne. O “auge” da carreira de Ashlee Simpson ocorreu no dia desse vídeo, quando teria que cantar no Saturday Night Live, programa de humor estadunidense. Acontece que alguém se distraiu e ela perdeu o timing da entrada do playback, causando essa coisa ridícula do vídeo. A moça voltou numa outra oportunidade ao programa e cantou sem playback. Assisti esse retorno, mas felizmente não encontrei esse vídeo. Era melhor ter ficado com o playback....

Pérola
10) Paulo Maluf – “Amigo”
Paulo Maluf cantando “Amigo” de Roberto Carlos. Vídeo do programa Sem Controle, de quando Marcos Mion estava na Bandeirantes. É um quadro que “consagrou” Mion, no qual ele fazia paródia de clipes. A paródia em si não tem graça, o que vale é ver Paulo Maluf cantando – figura singular na política nacional; o homem do “rouba, mas faz”, “estupra, mas não mata” e “se o Pitta não fizer um bom governo nunca mais vote em mim” tem uma “atuação” memorável, imperdível e impagável. É hilário.

Eis que chega ao fim a lista – e também a "dramática" trajetória deste texto. Mas, falando sério (e em total discrepância de intenção e continuidade em relação ao início do texto, assumo), o material disponível no YouTube parece ser um poço cujo fundo tende a crescer cada vez mais. A televisão e o cinema estão agora em cheque. Como aconteceu com a música, o público consegue agora outras alternativas de consumir os, por que não?, produtos – de graça, a qualquer hora, de formas diferentes; é uma outra dinâmica até de divulgação, menos marqueteira e mais boca-a-boca e "viral". Cada pessoa pode ser – de forma ainda pequena e dispersa, claro – ao mesmo tempo o artista e detentor da mídia. Que a indústria da TV e do cinema estejam atentas a essa mudança e evitem cometer os mesmos erros da fonográfica: ao invés de ir contra a tendência, que procurem entendê-la, utilizá-la adequadamente e evoluir com ela.


Rafael Fernandes
São Paulo, 23/8/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
22/8/2006
16h35min
Rapaz, é cada coisa que tem no YouTube... Não estou falando de clipes, claro. É cada vídeo mais absurdo e mais engraçado que o outro. Descobri recentemente o site e estou adorando. Sobre os citados no texto, fiquei decepcionado com a Nelly Furtado. Sei lá, mudar assim, desse jeito, é triste de se ver. E eu nem gostava daquela musiquinha dela, achava chatinha... Sobre a Ashelee, acho que ela mesmo voltou lá no SNL e teve o mesmo problema, não foi? Ou fez graça com o acontecido, fingindo que teve o mesmo problema, não sei. Nunca mais vi o SNL. Mas enfim. Ótimo texto do Fernandes e xô crise criativa!
[Leia outros Comentários de Rafael Rodrigues]
3/9/2006
12h25min
De que adianta o YouTube ser essa maravilha toda se é "inacessável"? Toda hora, agora, vem essa mensagenzinha desgraçada dizendo que: ou não tenho a versão atual do Flash ou meu Java não está ativado... Não consigo ver nada, pô! Lembra o Orkut, com aquele infame "bad, bad, no donut for you".
[Leia outros Comentários de Jose Bueno Franco]
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