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COLUNAS

Quinta-feira, 2/8/2007
A dimensão da morte
Daniel Lopes
+ de 1900 Acessos

Talvez eu não devesse dizer que o mistério central do livro, o assassinato de uma garota, nunca é esclarecido. Mas, já que Um doce aroma de morte (Gryphus, 2007, 172 págs.), do mexicano Guillermo Arriaga, não é um romance policial, resolvi dizer. Além do que, também fiquei sabendo disso antes de abrir o romance, ao ver uma entrevista com o escritor em recente edição do Roda Viva, quando ele veio ao Brasil lançar a obra na Flip. E mais: segundo contou, ele mesmo não sabe quem matou a tal garota.

Arriaga é impressionado com os temas da morte e violência. Roteirista de filmes como Babel e 21 Gramas, já deixou claro em entrevistas que o que quer mesmo é resgatar o valor, digamos, sagrado da morte, inclusive para destacar a importância da vida. Inimigo declarado da banalização da violência nos veículos de comunicação contemporâneos, o escritor sabe que por trás de cada um daqueles milhares de números de mortos na guerra civil nossa de cada dia há, ou havia, uma vida pulsante. Que quase sempre nos passa batida, porque, francamente, quem vai parar para pensar em vidas perdidas, quando já temos problemas demais na cabeça? Muito melhor ficar num insípido número de mortos.

Publicado originalmente em 1994, Um doce aroma de morte gira em torno, portanto, de Adela, uma adolescente encontrada morta numa manhã de domingo, à beira de um rio, no povoado de Loma Grande. Encontrada nua, com muito sangue ao redor, por conta de uma facada no coração. Encontrada por Ramón, um jovem e pacato vendeiro, que chegou até o corpo acudindo gritos desesperados de crianças.

Ramón, que mal havia visto a moça antes, uma moradora nova na localidade, é logo identificado como “o namorado de Adela”, por ter cometido o ato instintivo de – constrangido ao ver o corpo nu e sem vida estendido na terra, e não podendo dar-lhe vida – cobrir a nudez da moça com sua camisa.

A falácia de que Ramón era o namorado de Adela logo toma corpo, e o livro de Arriaga também é sobre a mentira. Sobre como uma mentira, repetida várias vezes, se torna verdade. A tal ponto que o próprio Ramón a incorpora: “Apanhado como estava na armadilha de um namoro invisível, não tinha como recuar e negar seu romance, sem passar por covarde ou pouco macho. Dali por diante, teria de viver como real aquele passado imaginário”.

Outra mentira se impõe: a de que o assassinato teria sido cometido por Cigano, um forte e mulherengo contrabandista que não tem lugar certo e vive a rodar por aí com sua caminhonete preta, e volta e meia passa por Loma Grande, onde tem caso com uma mulher casada. Mais uma vez, a mentira, que certamente só favorece ao verdadeiro criminoso, toma de assalto o imaginário coletivo. Pode até haver uma pitada de verdade nas histórias que todos passam a contar, mas essas versões só servem para solidificar a grande mentira, como fica claro neste divertido parágrafo:

“(...) tinham surgido várias outras (versões) sobre o proceder do Cigano e que confirmavam sua culpa: Torcuato Garduño se lembrou de tê-lo visto rondando a casa de Adela durante várias madrugadas; Macedonio Macedo asseverou que o encontrara amolando uma faca idêntica à que havia sido furtada de Lucio Estrada; Pascual Ortega narrou as grosseiras cantadas que o Cigano lançava a Adela, e às quais ela respondia com eloqüente indiferença; Juan Carrera ouvira-o falar do tremendo ciúme que sentia de uma mulher do povoado, a quem dizia amar mas cujo nome jamais mencionara; e Pedro Salgado afirmou ter notado nele, desde algum tempo antes, um comportamento estranho. Tudo indicava que o assassino era o Cigano”.

O administrador comunal Justino Téllez sabe que Cigano não é o assassino, por conta de investigações que o fazem constatar que o suspeito não tem o número de calçado igual ao da bota que deixou pegadas ao lado do corpo de Adela. Mas, numa terra onde a maior parte das autoridades é corrupta ou relapsa, Justino prefere não se complicar, e deixa a vingança prometida por Ramón contra o Cigano correr seu curso natural. Sim, porque essa também é uma terra de revide, onde é, mais que natural, uma obrigação do marido ou namorado vingar a morte da amada.

Como Arriaga traz a morte à tona para mostrar a vida, os principais personagens têm suas histórias contadas, notadamente Cigano e a própria Adela. Esta, ainda que palidamente, revive por meio da lembrança dos pais, das cartas de amor que deixou (supostamente, cartas de amor a seu algoz) e das poucas fotos que tirara em sua curta vida, de uma das quais Ramón toma posse e passa a estimar como se tivesse consigo a própria Adela.

Um doce aroma de morte é um livro forte, que se passa no México profundo, árido, quente, violento, machista, supersticioso, de camponeses miseráveis cujos filhos mais bem sucedidos são aqueles que se encontram subempregados no sul dos Estados Unidos, e Arriaga, dono de um estilo que lembra em alguns momentos escritores como o cubano Pedro Juan Gutiérrez, um nome da nova literatura latino-americana que merece a atenção de todos nós. Seu maior defeito, se isso é um defeito, talvez seja o de escrever pouco – além de Um doce aroma..., publicou mais dois romances, O búfalo da noite e Esquadrão guilhotina, e o livro de contos Retorno 201, em uma carreira que vem se desenrolando desde o início dos anos 90.

Para ir além






Daniel Lopes
Teresina, 2/8/2007

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