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COLUNAS

Quarta-feira, 1/8/2007
Guinga e sua Casa de Villa
Rafael Fernandes
+ de 2600 Acessos

O novo disco de Guinga, Casa de Villa, é uma obra-prima. É o que ilustra com mais precisão sua música e personalidade. Com uma concisão estética de arranjos e com o próprio cantando na maior parte das faixas, consegue retratar mais fielmente que os outros registros (também ótimos!)o universo de Carlos Althier de Souza Lemos Escobar. Ele se formou academicamente como dentista, profissão que exerceu como meio de vida até pouco tempo e foi sempre músico pela música, não pelo trabalho, pelo dinheiro (como se fosse fácil viver de música aqui...), ego, vaidade, reconhecimento ou aplauso. Musicalmente, Guinga segue buscndo a união do erudito ao popular, como fizeram Ernesto Nazareth, Villa-Lobos, Pixinguinha, Tom Jobim, Moacir Santos e tantos outros.

Sua música pode ser canção, dialogando com a letra. Pode ser peça instrumental: grupo, como em “Jongo de Compadre” (arranjo de Paulo Sergio Santos), ou solo, como demonstrou Marcus Tardelli em Unha e Carne, no qual fica claro o valor violonístico de Guinga, que criou, sem saber, uma nova escola. O disco de Tardelli mostra o violão e Casa de Villa, basicamente, a canção. E, diferente do que uns e outros podem dizer, Guinga é o que de mais moderno há na música brasileira, seguindo a tradição do que há de melhor, de Villa-Lobos a Jobim – é a continuação lógica dessa tradição que preza a sofisticação, mas sem pedantismo. Seu sopro de novidade não está na superfície, em artimanhas tecnológicas ou em mera reprodução do passado com uma execução mais atual, mas sim no tecido melódico e harmônico; sua abordagem musical está muito à frente do que é feito no Brasil e, por que não, no mundo. Guinga é brilhante, mas não suficientemente comentado.


Ouça um trecho de "Jongo de Compadre”

Ele, felizmente, ainda é daqueles criadores que necessitam atenção e contemplação para uma melhor degustação. Sua música passa uma bela e clara mensagem à primeira vista, mas é na audição cuidadosa e repetida que sua beleza mais profunda e lapidada aflora. Parece até que cada canção vai se construindo aos poucos. Se alguém quer uma canção com melodia fácil, que grude na cabeça de primeira, para sair assoviando, vai quebrar a cara. Se procura lindas melodias, em qualquer forma, vai achar de sobra – e elas ficam, sim, na memória. E há também as harmonias, os acordes: é um achado atrás do outro. E estas afirmações não são tentativas de afastar o ouvinte, mas sim um convite à reflexão musical, à re-valorização da música como arte de uma forma leve, oposta àquela de quem acha que arte é um estorvo, algo para poucos. Pois há os que taxam a música de Guinga de “difícil”: os que não querem entender, os preguiçosos ou os que dizem que é para “iniciados”, os que insistem em colocar a arte num pedestal excessivamente alto, mantendo-a num universo restrito – uma bobagem. Guinga é para qualquer um, é para todos.

Sua música tem um universo particular. Pode beber de fontes diversas como bossa, samba-canção, choro, baião, valsa, tango, música clássica, do violão de Garoto e Baden Powell, mas tais elementos aparecem como gotas musicais: dá para sentir o gosto no fundo, mas o sabor único não se altera. Suas obras são tão características que já influenciam fortemente as novas gerações, muitas vezes com resultados ruins, pois alguns jovens pegam apenas a superfície de sua música: acordes diferenciados e melodias complexas, mas sem a profundidade com que essa conexão ocorre, sem a liga que faz a música do compositor tão especial que não se encaixa em rótulos: é a música de Guinga. Simples assim.


Ouça um trecho de “Mar de Maracanã”

“Mar de Maracanã” (Guinga e Edu Kneip) inicia Casa de Villa ilustrando com propriedade o universo do compositor. O lindo arranjo de Lula Galvão se apresenta com belo tema de clarinetes e flautas, abrindo a cortina para a voz de Guinga, com linha melódica bem característica e condução harmônica brilhante. A letra fala do Rio de Janeiro, sempre ele como pano de fundo: “A lua Noel, divina Isabel/ Absolve pecados carnais/ O azul Delamare transborda em ilhas corais”. “Villalobiana” é a forma mais rápida de chegarmos perto da plenitude, de uma calmaria confortante e repleta de imagens musicais sublimes. É daquelas de nos fecharmos num quarto ouvindo, ouvindo, sendo rodeados de Beleza, de encontrarmos aquele lugar especial, que nem sabemos qual é ou quando foi, mas que temos guardados, com carinho, em algum canto de nossa mente. Com um fio de melancolia a arrepiar os mais otimistas.


Ouça um trecho de “Villalobiana”

Em “Maviosa”, Guinga, além da música, faz a letra, com gosto de Aldir Blanc e que, se não se destaca sozinha, serve muito bem para o principal: o encaixe da sonoridade à melodia. Já na faixa-título, com arranjo de Marcus Tardelli, Guinga aparece sozinho, ao violão e cantando. A gravação mostra duas coisas: como é lindo e único seu tocar e como, apesar de precária, sua interpretação vocal toca no ponto exato. “Comendador Albuquerque”, a última, faz jus às melhores de suas peças instrumentais, como “Melodia Branca” (solo, do disco Cine Baronesa) e “Cheio de Dedos” (em duo com Lula Galvão, do disco homônimo).


Ouça um trecho de “Maviosa”

Guinga é gênio. Esta é uma palavra desgastada – hoje qualquer um leva tal status na mão dos afoitos. E mesmo o artista renega o rótulo. Mas não é apressado nem superficial afirmar isso. Ele já provou, musicalmente – e continua. Precisamos valorizar os grandes enquanto estão produzindo – temos que degustar suas obras. Senão, futuramente, quando “descobrirmos” tardiamente, o que sobra? Homenagens constrangedoras e lamentações. Obrigado, Guinga. Continue nos emocionado, que não só seus ouvintes agradecem: a Arte também.



Rafael Fernandes
São Paulo, 1/8/2007

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