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Segunda-feira, 13/2/2012
Por que os livros paradidáticos hoje são assim?
Gian Danton

+ de 14500 Acessos

Dia desses a minha filha, de 11 anos, me disse: "Pai, eu acho que os livros paradidáticos são feitos para a gente aprender a não gostar de livros". Meu filho, de 17, concordou.

Isso me espantou porque os dois são leitores vorazes. Meu filho mais de livros, principalmente sobre cinema e história. Minha filha de quadrinhos, em especial Turma da Mônica (os números prediletos, alguns, autografados, guardados caixas especiais.) e Mafalda. Somos assinantes de revistas como a Superinteressante, Mundo Estranho e Galileu, que são disputadas a tapa quando chegam em casa.

Então, se os dois gostam de ler, porque não gostam dos livros paradidáticos?

Perguntei se eles não tinham gostado de nenhum livro. Eles me destacaram dois: uma adaptação de Os miseráveis, de Victor Hugo, e ""Durma em paz, meu amor", de Pedro Bandeira, sobre jovens que contam histórias de fantasma em uma noite de tempestade.

Contei a eles que na minha época, os livros paradidáticos eram um passo importante no gosto pela leitura. O primeiro que li foi Aventuras de Xisto, tão manuseado que chegou num ponto em que eu havia decorado todas as páginas. Depois vieram os deliciosos romances policiais de Marcos Rey, como O rapto do garoto de ouro. Eram histórias apaixonantes, que envolviam o leitor com muita aventura, suspense e até humor.

Minha filha me explicou que hoje a maioria dos livros não era assim e deu um exemplo de um livro sobre a família: um professor falava sobre o assunto, os alunos faziam seus trabalhos e depois cada um apresentava. Não havia conflito, trama, nada, apenas uma lição de moral sobre a importância da família.

Isso me fez refletir sobre algo que já desconfiava há muito: os livros juvenis hoje são feitos para não provocarem polêmica, não desagradar a ninguém. Um tema mais espinhoso pode ser a razão pela qual os professores deixam de adotar a obra. Assim, evita-se conflitos, os personagens são todos padronizados, bonzinhos na maioria, como se a trama só existisse para passar uma lição, seja em favor da ecologia, seja contra o preconceito.

O resultado são obras tão assépticas quanto salas de cirurgia. Como dizia Isaac Assimov, se chatice matasse, ler esses livros seria uma sentença de morte.

Existe, por exemplo, um grupo propondo o banimento dos livros de Monteiro Lobato das escolas (não se fala em censura, dizem que estão apenas protegendo as crianças). O mesmo aconteceu com a obra do quadrinista norte-americano Will Eisner, acusado de pedofilia e pornografia por conta de uma história em que uma menina levanta a saia para enganar o zelador de um prédio e de outra em que aparece a costa nua de uma mulher.

O escritor Lewis Carroll não é adotado em escolas públicas por conta da suspeita de que ele seria pedófilo.

Até mesmo o singelo Aventuras de Xisto, que fez a alegria de minha infância, dificilmente existiria hoje em dia. A história de fantasia se passa numa Idade Média imaginária repleta de magia. Já no primeiro capítulo o livro traz motivos de sobra para polêmica. Na escola, Xisto prega uma peça em seu professor rabugento, fazendo-o acreditar que está surdo. A figura do professor rabugento e a brincadeira certamente não passariam em branco hoje em dia. Mas as acusações mais sérias certamente viriam da caracterização dos protagonistas. Xisto, o herói, é loiro e bonito, um encanto. Já Bruzo, o filho da empregada, é moreno e gordo. E burro ("pena que tivesse um raciocínio um tanto confuso..."). Hoje provocaria manchetes de jornais, com pais e professores revoltados com a história por seu conteúdo racista e preconceituoso.

Enquanto nos deliciávamos com as aventuras de Xisto nenhum de nós jamais teve a leitura de se tratava de preconceito, mas hoje um livro desses certamente seria considerado má-influência. Até Maurício de Sousa já sofreu, e muito, nesses tempos de politicamente correto. Uma tira em que o barbeiro usa ferramentas de pedreiro para cortar o cabelo do Cascão foi acusada de racismo por muitos, que preferiram ignorar o fato de que o Cascão é um personagem branco.

A série toda a Turma da Mônica foi acusada de ser um estímulo ao buyiling, numa referência às surras que a Mônica dá no Cebolinha e no Cascão. Segundo a acusação, as histórias em quadrinhos estimulavam as crianças a resolverem os conflitos na base da violência.

Nesses tempos de politicamente correto, a obra juvenil de Marcos Rey seria uma impossibilidade. Títulos como Gincana da morte, corrida infernal, o diabo no porta-malas, O rapto do garoto de ouro e Doze horas de terror jamais seriam selecionados pelos professores justamente pela presença de palavras como "terror", "morte", "infernal", "diabo" e "rapto".

A obra mais famosa de Marcos Rey, O mistério do cinco estrelas, começa com um assassinato. Em Bem-vindos ao Rio um grupo de meninos de rua seqüestra um garoto e uma garota de classe média. Alguém consegue imaginar um livro desses sendo lido nas escolas hoje em dia?

Aliás a própria existência de um Marcos Rey juvenil seria uma impossibilidade. Que editor hoje convidaria para escrever para crianças um cara que passou a década de 1970 vivendo de escrever pornochanchadas? Seria um escândalo nacional, motivo de matérias na grande imprensa e de protestos acalorados de pais e professores.

Felizmente, na minha infância, vivíamos outros tempos, e Marcos Rey não só pôde publicar seus livros como encantou toda uma geração, que se apaixonou pela leitura viajando em suas histórias policiais.

Da mesma forma, gerações e gerações se apaixonaram pela leitura com Monteiro Lobato, Aventuras de Xisto e muitas outras obras. Mas isso foi numa época em que os livros eram apresentados às crianças para que elas mesmas tirassem suas conclusões e interpretações. Hoje, parece, o politicamente correto quer proteger as crianças de tudo e de todos. O resultado estamos vendo aí: uma geração que não gosta de livros e só lê na internet, o único local em que elas mesmas, as crianças, ainda podem escolher o que ler e como interpretar o que estão lendo.


Gian Danton
Goiânia, 13/2/2012


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