O óbvio ululante, de Nelson Rodrigues | Rafael Rodrigues | Digestivo Cultural

busca | avançada
27870 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Nova saga de fantasia urbana usa plataforma de financiamento coletivo
>>> O cantor Raphael Ota lança o álbum 'Paralelo' nas plataformas digitais
>>> Obra traz mais de 150 receitas veganas práticas e rápidas de preparar
>>> 'Entardecer na Casa do Sol' encerra 2ª edição do AntroHH
>>> Urban Arts sedia exposição fotográfica gratuita
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Notas confessionais de um angustiado (VI)
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 2. O Catolotolo
>>> A pós-modernidade de Michel Maffesoli
>>> Um parque de diversões na cabeça
>>> O que te move?
>>> O dia que nada prometia
>>> Super-heróis ou vilões?
>>> Seis meses em 1945
>>> Senhor Amadeu
>>> Correio
Colunistas
Últimos Posts
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
Últimos Posts
>>> Feitio
>>> O cenário político é a nossa vergonha
>>> A matemática da corrida
>>> Dança dos imãs ou a metafísica do gesto
>>> Um trago com os amigos
>>> Caderneta
>>> Alfarrábios
>>> A mulher de Lot
>>> Sem palavras
>>> Objetos de desejo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Correio
>>> Arte é entropia
>>> Caderno de caligrafia
>>> Entrevista com Ryoki Inoue
>>> Helena Seger
>>> O Oeste Selvagem
>>> Viver para contar - parte 1
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Os melhores do cinema brasileiro em 2003
>>> A Garota do Livro: uma resenha
Mais Recentes
>>> Como Dsenvolver a Memória
>>> O Tartufo ou o Impostor
>>> O Jesus Muçulmano - Provérbios e Histórias da Literatura Islâmica
>>> Eles não usam black-tie (novo)
>>> Neruda para Jovens - Antologia poética (novo)
>>> Sou Down e sou Feliz
>>> Judaísmo: Vusão do Universo
>>> Cantos D'alma - poemas
>>> A Senhorita Simpson
>>> O Pagador de Promessas
>>> Ésquilo Eurípedes - Prometeu / Alceste Vol.2
>>> De Verdade
>>> História e Prática do Habeas Corpus Vol. 1 e 2
>>> Bioenergética- Liberar Energia Vital
>>> Comentários ao Código de Processo Civil - Vol.V
>>> Universos Abstratos em Possível Expansão Ilimitável
>>> Ego e Arquétipo
>>> Leituras Obrigatórias UFRGS 2017
>>> Vasos de Glória- Romanos
>>> Um Chapéu para Viagem
>>> Terapia Comunitária passo a passo
>>> Romanos 6-11
>>> Guerra e Paz
>>> Cinquenta Anos Depois
>>> PS Beijei
>>> David Copperfield vol. 2 - colégio Objetivo
>>> Histórias de Amor adolescente - Pintando uma Saudade
>>> Fundamentos teóric0os e metodológicos da educação
>>> Croma - Caminho da vida
>>> The Making of the Nation (em inglês)
>>> O Bóia Fria: Acumulação e Miséria - Maria Conceição D`incao e Mello (História/Geopolítica/Economia)
>>> A Nova MUlher e a Moral Sexual - Alexandra Kollontai (Feminismo/História)
>>> A Formação das Nações Latino-Americanas - Maria Ligia Prado (História/Geopolítica/América Latina)
>>> A Mulher na História do Brasil - Mary del Priore (História/Feminismo)
>>> Evolução das Espécies: O pensamento científico, religioso e filosófico - Samuel Murgel Branco (História/Religião/Filosofia
>>> Uruguai: Um campo de Concentração? - A. Veiga Filho (História/Geopolítica/América Latina)
>>> Alemão urgente para Brasileiros
>>> Abbé Pierre
>>> Oseias- Profetas Menores Volume 1
>>> As Caras e as Máscaras - Eduardo Galeano (História da América Latina)
>>> Os seis signos da luz: a rebelião das trevas
>>> Feminismos, identidades, comparativismos: vertentes nas literaturas de língua inglesa Vol. VIII
>>> Feminismos, identidades, comparativismos - vertentes nas literaturas de língua inglesa Vol.VI-
>>> Feminismos, identidades, comparativismos: vertentes nas literaturas de língua inglesa Vol.VII
>>> Vida Pregressa
>>> Dia a Dia com a Família Freud - Depoimentos da Governanta Paula Fichtl
>>> A Eliminação do Tempo Psicológico
>>> A Guerra da Lagosta
>>> Restart - Coração na mão
>>> Isto é Gestalt
COLUNAS

Sexta-feira, 2/11/2007
O óbvio ululante, de Nelson Rodrigues
Rafael Rodrigues

+ de 19800 Acessos
+ 2 Comentário(s)

A decisão de escrever uma resenha sobre O óbvio ululante (Agir, 2007, 448 págs.), de Nelson Rodrigues, foi tomada assim que iniciei a leitura do livro. Os textos que o compõem, uma seleção da coluna "Confissões", publicados no jornal O Globo entre 1967 e 1968 (mais duas crônicas publicadas na coluna "Memórias", no Correio da Manhã, em 1967), são exemplos de que um escritor pode, sim, ser engraçado, melancólico, irônico e crítico ao mesmo tempo, em seus textos. A impressão que se tem, ao ler as crônicas de O óbvio ululante, é a de que no mesmo momento em que há esperança, não há por quê lutar. É como se um boxeador pedisse para seu treinador jogar a toalha, mas não a deixasse tocar o chão e voltasse à luta logo em seguida. Simplesmente incrível e inacreditável. Para tanto, é necessário ser gênio. E poucos podem ser considerados gênio. Nelson Rodrigues pode.

Ao avançar a leitura, um problema começou a se desenvolver. Como resenhar um livro que tem parágrafos e mais parágrafos merecedores de citação sem ficar angustiado por não poder citá-los todos? Afinal, é uma resenha, não uma reprodução do livro.

Difícil. Ainda mais quando lemos algo assim:

"O trágico da nossa época ou, melhor dizendo, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas. E mais: - eles têm as melhores mulheres e usam mais condecorações do que um arquiduque austríaco."

Isso foi escrito há 39 anos, minhas senhoras e meus senhores. 39 anos! E, nesse caso, Nelson fala do idiota que, segundo o Houaiss: "diz-se de ou pessoa pretensiosa, vaidosa, tola". Ele tinha razão quando escreveu a crônica e continua tendo hoje.

As crônicas reunidas no livro não se limitam à crítica social. Nelson Rodrigues faz comentários sobre amigos (Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Vinicius de Moraes, entre outros), literatura, política, futebol e, é claro, sobre si mesmo. Aliás, dizer que Nelson escrevia "sobre si mesmo" é uma redundância, pois ele consegue, como ninguém, colocar-se inteiro em tudo que escreve, mesmo que aparentemente não esteja lá, no texto. Nelson Rodrigues não escrevia por escrever, ou para ganhar dinheiro (ele ganhava dinheiro com o que escrevia, o que é totalmente difentente de escrever para ganhar dinheiro). Nelson Rodrigues escrevia porque tinha de escrever. Porque precisava disso para manter-se vivo.

É mesmo impressionante como ele conseguia, em uma única crônica, falar sobre tantos assuntos. Em "Na escola pública, minha merenda foi uma só, imutável: - banana", Nelson começa falando sobre um amigo erudito: "E eu fico a resmungar, na irritação da minha impotência: 'Como sabe, como lê, como cita!'" Em seguida, faz uma crítica a essa obsessão do amigo pelo conhecimento ou pela quantidade de saberes: "Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a releitura." Depois, faz piada: "Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo: perguntou-me: 'O que é que você leu?' Respondi: 'Dostoievski.' Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: 'Que mais?' E eu: 'Dostoievski.' Teimou: 'Só?' Repeti: 'Dostoievski.' O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada." E ensina: "Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski".

Linhas depois, Nelson lembra da infância, tema recorrente em suas "Confissões". É quando ele fala da banana que levava todos os dias para a escola, como merenda. E de quando ele teve vergonha da merenda. "No terceiro dia [de aula], comecei a ter vergonha da banana. (...) Ao mesmo tempo que me envergonhava da banana, tinha-lhe pena. Pena da banana. De vez em quando, faltava dinheiro em casa. Banana custava um vintém. E eu ia para a escola sem merenda. Na hora do recreio, rodava pelo pátio, errante e perdido de fome."

O tempo de escola não traz muitas boas lembranças a Nelson Rodrigues. E, arrisco dizer, talvez venha daí, desse tempo, a crueldade de boa parte de suas narrativas. Sua professora era terrível, uma megera que o fazia passar as mais variadas humilhações na frente de todos os colegas. Como no dia em que grita, diante de toda a classe: "Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!"

Mais conhecido pelas peças e contos polêmicos (alguns ainda chamam seus textos de "amorais"), Nelson Rodrigues era, no fundo, um romântico: "Tudo é falta de amor. O câncer no seio ou qualquer outra forma de câncer. É falta de amor. As lesões do sentimento. A crueldade. Tudo, tudo falta de amor." Um homem que não tinha vergonha de sua sinceridade nem de sua própria história. Nelson não deixava de falar o que quer que fosse, de quem quer que fosse. Criticava e elogiava, sem demagogia, sem troca de favores.

Considerado por muitos como o maior dramaturgo da história do teatro brasileiro, Nelson Rodrigues é exímio prosador. Suas memórias em forma de crônicas em O óbvio ululante são prova cabal disso. Suas peças têm maior destaque por serem, até hoje, alvo de polêmicas. Mas sua prosa (mais especificamente suas crônicas e romances, já que os contos são bastante populares, justamente por também serem polêmicos) certamente terá o destaque merecido, cedo ou tarde. Nelson Rodrigues é um escritor completo, poderíamos dizer. Afinal, foi crítico, dramaturgo, cronista (social e esportivo), contista e romancista. E foi, no mínimo, bom em todas as vertentes. Não são muitos os escritores que podem se vangloriar de tal pluraridade.

Nelson Rodrigues pode.

Para ir além






Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 2/11/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O que te move? de Fabio Gomes
02. Inquietações de Ana Lira de Fabio Gomes
03. Minha finada TV analógica de Elisa Andrade Buzzo
04. Meu querido aeroporto #sqn de Ana Elisa Ribeiro
05. Oswald de Andrade e o homem cordial de Celso A. Uequed Pitol


Mais Rafael Rodrigues
Mais Acessadas de Rafael Rodrigues em 2007
01. O óbvio ululante, de Nelson Rodrigues - 2/11/2007
02. O nome da morte - 16/2/2007
03. Os dois lados da cerca - 7/12/2007
04. História dos Estados Unidos - 29/6/2007
05. O homem que não gostava de beijos - 9/3/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/11/2007
15h49min
Também adoro esse livro, de um jeito esquisito, que não sei definir. Nelson é um "pulha" na maior parte das crônicas, pra usar uma expressão dele, mas é um amor, desperta encanto apesar de tudo de ruim que destila. Só mesmo ele pra ter coragem de escrever, numa das histórias que você cita, que sentia inveja do pão com ovo que escorria gema pela boca do colega. Um idiota jamais diria isso. Nelson é principalmente inteligente em seu "óbvio ululante" e a inteligência fascina. Apaixonante! Mas paixão não é muito racional, talvez por isso seja difícil falar sobre o livro, que expõe as confissões e invenções bastante humanas desse grande, corajoso escritor, retratista da vida como ela é...
[Leia outros Comentários de Cristina Sampaio]
5/11/2007
11h12min
Oi Rafa, compartilho com você a experiência de ter lido esta nova edição do livro, que, arrisco dizer, é uma das melhores coisas que já li. Sempre admirei Nelson Rodrigues, não apenas como dramaturgo, mas principalmente como cronista. E no universo das cronicas, O Obvio Ululante é uma obra singular.
[Leia outros Comentários de Diogo Salles]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O DOSSIE ODESSA
FREDERICK FORSYTH
ABRIL
(1982)
R$ 6,50



REVISTA REPERTÓRIO (TEATRO & DANÇA) Nº 1
ARMINDO BIÃO (ED.)
UFBA
(1998)
R$ 45,00



MUERTE ENTRE MUÑECOS NIVEL INTERMEDIO 1
JULIO RUIZ MELERO
EDINUMEN
(2002)
R$ 20,00



NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL Nº 34
VÁRIOS
ABRIL
(2003)
R$ 8,00



OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
STIEG LARSSON
COMPANHIA DAS LETRAS
(2008)
R$ 15,00



FOLIAS DO NORTE DO PARANÁ (INCLUI DVD)
LIA MARCHI
OLARIA
(2012)
R$ 23,90



SERVIDÃO HUMANA
W. SOMERSET MAUGHAM
ABRIL
(1971)
R$ 5,00



SOBREVIVENTE DO TITANIC 
VIOLET JESSOP
BRASIL TROPICAL
(1998)
R$ 17,00



A POESIA DOS BICHOS
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE / MANOEL DE BARROS
BERTRAND BRASIL
(2002)
R$ 3,00



QUANDO A VIDA ESCOLHE
ZÍBIA GASPARETTO
EVD
R$ 9,00





busca | avançada
27870 visitas/dia
1,1 milhão/mês