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Quinta-feira, 12/3/2009
O naufrágio é do escritor
Vicente Escudero

+ de 2500 Acessos
+ 2 Comentário(s)


Ilha da consciência, na costa do Chile

A vida de um náufrago em uma ilha deserta talvez tenha sido o enredo mais repetido da literatura, numa quantidade um pouco maior do que a atual avalanche de histórias sobre os dilemas dos escritores, metalinguagem excessiva em tempos de escassez da criatividade, apesar da boa escrita.

Recordo algumas referências das minhas leituras na infância. Livros sobre homens perdidos na selva, pessoas abandonadas em barcos à deriva e sobreviventes de desmoronamentos embaixo de escombros. O cinema também tratou de captar a essência: Brooke Shields, em Lagoa Azul, envelhecendo numa ilha deserta; Tom Hanks, em Náufrago, exaltando a excelência da FedEx; além da série sem roteiro Lost.

Pequenas variações da vida de Robinson Crusoé, personagem criado por Daniel Defoe em 1719, chamadas de "robinsonades", histórias sem a mesma finalidade do romance, de legitimar a superioridade dos valores cristãos e a doutrina colonialista do antigo Império Britânico. Enquanto o tenaz Crusoé lutou durante quase três décadas, com a mesma dignidade que exibia no mundo civilizado, para suplantar os desafios da vida selvagem e encontrar um meio de fugir da ilha, mantendo a sanidade ― seja lendo a Bíblia ou conversando com um papagaio ―, Tom Hanks cria o necessário para manter-se vivo, quase se suicida, mas foge da ilha e realiza a entrega de uma encomenda extraviada. No século XVIII os povos bárbaros deveriam se curvar ao Império Britânico; hoje, o exército é de mensageiros expressos, que arriscam a vida pela entrega na hora certa. Coisas da vida.

Daniel Defoe inspirou-se na vida de Alexander Selkirk para criar Robinson Crusoé. Alexander, um pirata escocês aspirante que viveu sozinho por quatro anos na ilha Más a Tierra, no arquipélago Juan Fernández, localizado na costa do Chile ― hoje batizada de ilha de Robinson Crusoé ―, no início do século XVIII, depois de uma tentativa fracassada de motim durante uma expedição pelo Pacífico. Defoe, um inglês filho de puritanos integristas, educado para ser pastor, escritor versátil e um dos pioneiros do jornalismo econômico ― apesar de sucessivos fracassos mercantis ―, sofreu tamanha perseguição de devedores que se escondeu em Bristol, onde podia sair tranquilamente apenas aos domingos, já que no "Dia do Senhor" não era permitida a cobrança de dívidas. Daí surgiu seu apelido: "Gentleman Sunday", o "Cavalheiro Domingo".

Selkirk conheceu Defoe na pensão Leão Vermelho, na Bristol do início do século XVIII. Ambos eram crentes fervorosos. A religião de Defoe era proveniente da rígida educação escolar, enquanto Selkirk se entregara à Providência nos titubeios da esperança, durante a estadia na costa do Chile. A crença comum criou a amizade e o autor conheceu o personagem, afinal, os laços com Selkirk não devem ter sido amealhados através da teoria econômica dominical extravagante de Defoe.

A história já havia sido publicada por outros autores, autorizados por Selkirk. Só depois de dez anos do encontro e de uma estadia na prisão, Defoe inspirou-se nela para criar Robinson Crusoé. Sob a influência da disputa entre os impérios da Espanha e Inglaterra, que lutavam ferozmente pelas colônias nas Américas, dominado pela doutrina puritana que o acompanhava como uma chaga, Defoe transformou a história do pirata solitário num manual da colonização escravagista, uma mistura do Livro de Jó, do Antigo Testamento, com o Manual do Escoteiro-Mirim.

Defoe iniciou o movimento do realismo literário, abandonando o tratamento universal dos acontecimentos, através da narrativa em primeira pessoa e da determinação de lugares e datas. A estética passou a ser instrumento do conjunto de ideias defendido por Defoe a tal ponto que seu sucessor, Jonathan Swift, qualificou-o como um trapaceiro moralizador pela seriedade com que defendia seus valores na literatura.

Mas o Cavalheiro Domingo foi além dessas qualificações de Swift, e Robinson Crusoé, sua maior obra, representa não um início torto do realismo, em que a escravidão e a colonização são defendidas abertamente, mas uma restrição do foco narrativo para o universo interior do autor e suas angústias. A ilha é menos colônia do que consciência, Robinson Crusoé é mais Defoe do que Selkirk. A semelhança entre Autor e personagem é tão grande que a ausência de libido em Robinson Crusoé, suspeito, é a mesma de um puritano fervoroso. Defoe?

O que é um autor? Qual a sua relação com a obra? J. M. Coetzee, em seu discurso na entrega do Prêmio Nobel de literatura, tratou essas questões citando trechos de Robinson Crusoé. A pegada fresca na areia, encontrada pelo personagem enquanto caminhava pela praia... Seria de algum visitante da ilha ou do próprio náufrago? Aposto que era do Autor. Daniel Defoe encontrando Selkirk e transformando-o em Robinson Crusoé, na consciência repleta de valores e capaz de dominar a ilha, vencendo seus desafios. A metalinguagem atual também nasceu nessa pegada.


Vicente Escudero
São Paulo, 12/3/2009

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/3/2009
09h19min
A repetição do naufrágio tende a estabelecer um elo com a solidão, com o trabalho laboratório de emoções do escritor, que precisa às vezes ter a solitude pra sua ação de escrever, pensar, criar. Toda vez que colhemos um olhar seja do poeta, do cronista, ou até do contista sobre um objeto, sobre um relacionamento, sobre o amor, temos com certeza a transcendência do olhar sobre a ótica cor de rosa ou azul pastel do coração. E pouco são os leitores capazes de entender. É preciso de sensibilidade aguçada.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
18/3/2009
22h30min
num sei... de repente mais do que naufrágio, pode ser um mergulho profundo... em seu próprio ser, no inconsciente coletivo... num sei... ;-))
[Leia outros Comentários de Gisele Lemper]
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