Paris branca de neve | Renato Alessandro dos Santos | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 4/6/2019
Paris branca de neve
Renato Alessandro dos Santos
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Ontem assisti a Medos privados em lugares públicos. Nunca havia visto nenhum filme de Alain Resnais (1922-2014). Acho. Deixa eu ver no Google. É, não mesmo. Nem mesmo Hiroshima, meu amor (que vergonha, Renato!) e muito menos O ano passado em Marienbad (sem comentários). Será que vi Fumar/Não fumar? Deixa eu ver de novo no Google. Não, também não vi, mas lendo sobre esse filme na internet, descubro que vou ter de correr atrás. Por quê? Veja o que diz um blog português que achei na rede, O homem que sabia demasiado: “É um filme aconselhável a fumadores e a não fumadores. Mas tratando-se de um filme de Alain Resnais, é muito mais do que isso: Smoking/No Smoking (1993) é um díptico (filme em duas partes) fascinante sobre uma mesma história, um mesmo cenário, os mesmos personagens, os mesmos intérpretes. Só que tudo muda em virtude de um personagem fumar ou não. Simples? Não. Viciante como o tabaco.”

Alain Resnais, decerto, conhecia muito bem Paris, cidade retratada em Medos privados em lugares públicos. No original, em francês, esse filme chama-se Coeurs, que significa “Corações”. Faz sentido. O nome brasileiro é baseado no título semelhante da peça em que o filme foi inspirado. Nunca vi Paris em outro filme como ela é registrada, aqui, neste Resnais. A neve cai sem parar durante todo a película. Mais do que nunca, as pessoas são solitárias. Todas as personagens do filme, de uma forma ou de outra, são sozinhas consigo mesmas e vivendo um dia após o outro, quando nada melhor há para se fazer. É um filme que prende a atenção do espectador e que, como na melhor literatura, faz a gente pensar. Ainda bem. Impossível decepcionar-se com a história desses personagens, que são retratados em sua insegurança e, mais do que isso, naquela situação desesperadora que a vida reserva àqueles que não têm muito o que esperar dela.



Há o casal insatisfeito: ela, em busca de um apartamento com três quartos, uma vez que o namorado quer um dos quartos transformado em escritório, mesmo sem saber muito bem o porquê de um escritório só para si: ele, sem trabalhar há meses e que, diante da vida morosa, só sabe beber, beber, beber. O atendente do bar, cujo pai precisa de enfermeiras para cuidar de sua saúde enquanto o filho trabalha; o problema é que o patriarca é irascível e, mais do que isso, trata as enfermeiras com bordoadas verbais que vão longe; uma delas, durante o dia, trabalha numa corretora de imóveis e, à noite, religiosa, dispõe-se a cuidar do homem, mesmo que isso signifique levar sua religião ao limite. Tierry é amigo dessa mulher, que lhe deu uma fita VHS para que assistisse a um programa religioso; ele concorda, educado, mas ao sentar-se para assistir ao programa, descobre ao final que há uma gravação anterior que mostra uma mulher libidinosa que se insinua para a câmera. Seria a própria moça religiosa? A irmã de Tierry, noite dessas, o surpreende assistindo obcecado ao filme, e ela não o perdoa: onde já se viu ver um filme pornô?

De qualquer forma, é este o cenário: uma Paris branca, repleta de neve a cair a toda hora, como se chovesse (neve) sem parar, o que poderia indicar alguma mudança em particular na vida desses personagens que se movimentam por lugares públicos, mas sempre levando solidão a toda parte. O título é horrível, não é? Mas o filme não é não: nem de longe o filme é ruim; ao contrário: entretém e faz pensar. O que mais se deve esperar de um filme?

Nas cenas finais, o ritmo aumenta, o que significa ver a neve caindo mais e mais vezes, uma vez que cada cena é marcada por essa neve que cai sem parar. Assim, há uma cena especial; isto é, quando a enfermeira religiosa descobre que seu paciente foi parar no hospital, após a noite em que, para se vingar desse velho enfermo mal educado, vestiu-se de dominatrix. Sem mais spoilers: será que um desalmado coração vai suportar a presença de uma mulher insinuando-se sexualmente ao dono de um corpo velho e rabugento? O filho, um homem de meia-idade que a contratara como enfermeira, conversa com ela sobre religião e infortúnios da vida. Há um suspiro e, na cena seguinte, os dois estão debaixo de muita neve e conversam. Ela quer lhe dar esperança e, confiante nisso, ao se despedir, deixa com ele a mesma fita VHS que deixara com Thierry. É um alento e uma forma de fazê-lo descobrir que há um recomeço e que, sem dúvida, tal recomeço é possível. É o que ela acredita.

Assim, enquanto neva em Paris, cinco ou seis corações solitários estão deixando a vida lhes levar, mesmo que não saibam muito bem para onde. É um filme que merece ser visto, mesmo que seja para ver uma Paris como nunca se viu igual.



Renato Alessandro dos Santos, 47, é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia e de O espaço que sobra, seu primeiro livro de poesia (ambos publicados pela Engenho e arte).


Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 4/6/2019

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