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COLUNAS >>> Especial Melhores de 2010

Terça-feira, 14/12/2010
Melhores exposições de 2010
Jardel Dias Cavalcanti

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+ 1 Comentário(s)

O ano de 2010 foi particularmente rico em exposições no Brasil. Dos últimos anos para cá, temos tido não só importantes exposições nacionais, mas também um grande número de exposições internacionais. Um repertório que nos enriquece, nos fazendo repensar nossa própria produção e nos atualizando em termos de experiência com a arte internacional, seja ela histórica ou atual. De um ponto de vista geral, estas exposições têm se profissionalizado e gerado um retorno social muito bom. Desde o bom treinamento de guias para escolas, seminários, palestras e encontros para se discutir a obra dos artistas e publicação de catálogos, até o tempo mais longo das exposições, que permite visitas de pessoas de todos os estados. Tudo tem sido bem pensado, proporcionando uma fruição não só no âmbito do prazer artístico, como no do entendimento da arte a partir de sua história e implicações estéticas. Abaixo comentaremos algumas dessas exposições.

A Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentou uma das mais importantes exposições internacionais de artes plásticas do ano no Brasil: Andy Warhol, Mr. America. Um dos artistas mais intrigantes e conhecidos do século XX, Andy Warhol tornou-se quase um emblema da cultura americana contemporânea, transitando em universos que vão do banal ao sublime e os confundindo em sua obra, exibindo o que há de vulgar e excepcional na arte americana do pós-guerra. Produzindo imagens a partir de uma infinidade de meios como a fotografia, vídeo, gravura, serigrafia, colagens etc, Warhol usou e abusou do mundo das imagens sob o capitalismo americano. Fotos de celebridades sociais do mundo das artes ou da política, notícias de acidentes, violência política, caixas de sabão em pó e latas de sopa de tomate: tudo transformado em criação e esvaziado de seu sentido original. Mick Jagger, Marilyn Monroe, Che Guevara, língua dos Stones, ready-mades com foice e martelo, fotos de Mao Tse Tung ou de uma cadeira elétrica... Warhol criou o signo limpo, vazio, sem força, igualando sopas e heróis revolucionários. Parte de sua produção, que inclui vídeos, fotos e serigrafias puderam ser vistos juntos pela primeira vez no Brasil nesta exposição excepcional exibida na Pinacoteca. Não bastasse, a Pinacoteca produziu um catálogo de alto nível, recheado de fotos e textos importantes, seja para os estudiosos da arte ou para pessoas que queiram entender o lugar que Warhol ocupou na arte americana e ocupa na arte atual, como referência obrigatória em termos de uma pós-modernidade da qual com certeza ele foi um dos pais.

Outra exposição também importante é a que o Sesc Pompéia nos reservou: A revolução somos nós: Joseph Beuys. Com uma exibição de mais de 200 cartazes, múltiplos, vídeos e fotografias, podemos ter contato com parte do que representa a obra de Beuys. Reformador social através da arte, pensador revolucionário, professor polêmico e ativista impertinente, o artista Joseph Beuys pensa que, ao se transformar todo homem em artista, estaremos começando uma revolução social. Isto porque as transformações têm que ser coletivas, mas também estéticas. Artista provocador, instalador, performer, debatedor radical, Beuys pode ser apreciado em suas múltiplas ações nesta exposição: seus cartazes têm interesse estratégico de multiplicar suas intervenções, seus "múltiplos" são produções reproduzíveis capazes de destruir a ideia de fetiche na arte, socializando através da técnica de reprodução aquilo que só alguns poderiam usufruir se fossem objetos únicos. Também podemos ver o Beuys debatedor, polêmico, irascível, em vídeos onde enfrenta artistas e teóricos da época, buscando dar um sentido político às suas ideias e intervenções. Junto à exposição foi montado um ciclo de eventos, que incluem palestras internacionais, debates e intervenções relativas à obra de Beuys. A qualidade da organização de uma exposição como essa, com todas as implicações que ela tem, nos coloca na rota das grandes exposições internacionais e dos debates necessários ao mundo das artes plásticas, por tanto tempo tímido ou calado no Brasil.

Este foi o ano da 29ª Bienal de São Paulo. Diferente da anterior, pejorativamente chamada de Bienal do Vazio, esta possibilita um novo fôlego para os amantes da arte contemporânea. Repleta de instalações, pinturas, desenhos, fotografias, vídeos, a Bienal tem levado milhares de pessoas ao seu interior, sejam escolares em visitas guiadas, sejam viajantes de todos os países e do Brasil. Com polêmicas que envolvem a obra de Nuno Ramos (com o uso de urubus na sua instalação) e a do artista Gil Vicente (que desenhou personalidades do mundo da política e da mídia sendo assassinados pelo artista), a Bienal apresentou uma ideia de política que extrapola a ideia de arte engajada tal como era tida nos termos de uma arte política nos anos 60, por exemplo. Aqui, o fato artístico, sua relevância enquanto desconstrução do real, da linguagem, é que foi devidamente pensado em termos de uma ação sobre o mundo. Desse ponto de vista, a Bienal se realizou bem, fazendo os espectadores participarem de uma aventura ao coração do labirinto, da indefinição, experimentando na própria visita o sentido máximo da arte, que é seu poder de revelar o mundo não dentro dos parâmetros de uma definição clara, mas da possibilidade de conhecimento por outra lógica: a da linguagem sempre renovada.

O MASP reservou para a última metade do ano três brilhantes e imperdíveis exposições: Lugares estranhos e quietos, do cineasta Wim Wenders; Se não este tempo: pintura alemã contemporânea de 1989-2010 e Deuses e Madonas: a arte do sagrado.

A primeira das exposições é formada por um conjunto de fotografias feitas por Wim Wenders, a partir de viagens pelo mundo, onde registra paisagens e lugares desolados, quase que totalmente alheios à presença humana, embora esses lugares remetam a algum tipo de atividade humana. De uma roda gigante totalmente perdida num cenário isolado da Armênia a uma sala de projeções ao ar livre também absolutamente deserta em Palermo, a tantas outras geografias e ambientes, naturais ou urbanos, sem vestígios da presença humana, Wim Wenders capta como uma espécie de Hopper da fotografia universos silenciosos e solitários que jamais veríamos se não fosse a disposição do artista em registrá-lo tão magistralmente para nós. Não há como não pensar nessas fotografias sem pensar nas solitárias locações, por exemplo, de um de seus filmes, como Paris, Texas. A exposição é uma viagem ao vazio desalentador e ao inusitado universo dos lugares que a exposição chamou certeiramente de "quietos". Longe da presença humana, dos barulhos e tensões da existência, eles se constituem como reservas para a meditação. E parece que para isso foram feitas as fotos, pois nos demoramos frente a elas em um estado de contemplação muito parecido ao da meditação religiosa numa igreja, quando deixamos o silêncio nos penetrar através da beleza e da solidão plástica criada pelo cineasta-fotógrafo.

A exposição de pintura alemã contemporânea, sob curadoria de Teixeira Coelho, também é bastante importante, dada a qualidade e a quantidade de telas e a variedade de estilos de pintura presentes na seleção das obras. Podemos contemplar desde a arte política pós Muro de Berlin, com relatos críticos contra o imperialismo americano ou a vigilância policial do sistema, até experiências abstratas de caráter geométrico e com uma perspectiva mais expressionista. Pode-se notar nesta exposição influências que passam do realismo socialista à pintura metafísica, do pop à pintura jocosa e alegremente despretensiosa inspirada nos quadrinhos. Com 26 artistas diferentes, temos uma visão ampla do que se faz na Alemanha dos últimos anos em termos de pintura, sendo a exposição um bom parâmetro para medirmos a nossa própria arte ou pelo menos para que possamos manter um diálogo mais universal com os artistas de além-mar.

A exposição Deuses e Madonas se organiza a partir de obras cuja temática se relaciona com o sagrado na arte. O acervo do MASP é utilizado a partir dessa problemática, de forma singular, nos permitindo um passeio pelo universo da arte preocupada com a temática do sagrado conforme artistas de várias épocas. Numa leitura contemporânea, onde o caráter utilitário que gerou essa opção pelo sagrado se perde, dando relevo àquilo que Kant chamou de "experiência desinteressada" do estético, podemos contemplar, antes de tudo, a alta qualidade do acervo exibido. Artistas como Di Cosimo, Botticelli, Delacroix, Tintoretto, Rafael, El Greco, entre tantos outros, nos levam a este universo da busca do inefável, através da obra de artistas que vão do Renascimento até os modernistas. Se o sagrado perde seu poder neste deslocamento temporal, a arte, ao contrário, assume essa perspectiva de uma possibilidade de experiência silenciosa, meditativa, indizível, que o espírito racional jamais poderá explicar, mas que nos toma numa posse amorosa, numa felicidade e grandiosidade de sentimentos jamais experimentados em outros lugares. A exposição nos mostra, mais que tudo, o quanto o poder da arte do passado pode interferir na sensibilidade do homem contemporâneo, nos ensinando que a arte escapa ao tempo, à história e aos temas, nos inscrevendo numa sensibilidade atemporal.

Estas exposições por si bastariam para ter nos nutrido da boa e grande arte durante o ano, mas houve outras, várias, também importantes, necessárias às nossas inquietações, ao nosso desejo de fruição artística, e esperamos que o novo ano seja tão rico e inquietante quanto este em termos de artes plásticas e provocações. O Digestivo estará aqui para comentar.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 14/12/2010

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Mais Especial Melhores de 2010
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
25/12/2010
18h54min
Num artigo falando das melhores exposições do ano não caberia citar Beuys. O que foi exposto desse "grande" artista aqui no Brasil? Latinhas enferrujadas? Pedaços de pau e folhas de jornal assinados por ele? Ou cavacos de unha do dedão do pé? Beuys não foi apenas um imbecil: mais que isso, foi um espertinho, que soube perpetuar seu nome, porque sabia que por mais tolices que fizesse, encontraria sempre "críticos" (ou criticastros?) para dar-lhe aval. Pior que ele, só Delvoye com sua "máquina de fazer cocô".
[Leia outros Comentários de Gil Cleber]
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