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COLUNAS

Quarta-feira, 17/8/2011
A realidade, na verdade, é mentira
Ivan Bilheiro

+ de 1500 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Sobre as múltiplas e traiçoeiras faces da realidade. Assim é apresentado o livro Infâmia (Objetiva/Alfaguara, 2011, 277 págs.), de Ana Maria Machado, em uma de suas orelhas. Ou seria mais sobre a construção de múltiplas versões da realidade que, assim, sepultam a verdade? Quando se diz por aí que “os fatos são indiscutíveis, é necessário interpretá-los”, estranhe. No final das contas, interpretações se fantasiam de fatos, os verdadeiros fatos são sepultados pelas versões e, assim, a realidade se perde. O que se vê, na verdade, é que as várias interpretações tornam-se onipresentes, e o necessário (e complicado) é interpretá-las...

A obra de Ana Maria Machado é muito mais sobre a infâmia ― com artigo definido ― do que, propriamente, a respeito de alguma infâmia. No caso, duas histórias, correndo em paralelo, que cumprem o papel de fazer um alerta, muito forte e atual, sobre os mecanismos através dos quais vidas são destruídas por conta de mecanismos de ocultação e deturpação da verdade.

De um lado, o embaixador Manuel Serafim Soares de Vilhena, chamado Manu entre os íntimos, chefe de uma família com tradição na carreira diplomática brasileira. Leitor por gosto e profissão, gosta de se dizer “intruso” das histórias, que lê e acompanha de perto, vivenciando-as. Ao longo da trama, por conta de uma catarata, encontra-se impossibilitado de fazer leituras e contrata a filha de um amigo para que cumpra a função de seus olhos, lendo para ele. No curso dos acontecimentos, o embaixador, que se nota tão perspicaz diante dos acontecimentos noticiados na mídia e das viagens encontradas na literatura, sente-se fracassado por não ter conseguido acompanhar a decadência da filha recém-perdida. Manu se questiona, por várias vezes, como foi que ele não conseguiu enxergar a urgência do caso da filha, o sofrimento que a vitimou. Neste caso, não foi “intruso”, não foi um bom leitor.

Em paralelo, a história de um chefe de almoxarifado de uma repartição pública, chamado Custódio Fialho Borges Filho. Há anos trabalhando naquele Instituto, Custódio subiu até onde podia na carreira. Nessa condição, conseguiu dar meios para que os filhos corressem atrás dos próprios sonhos profissionais. Sentia-se satisfeito com isso. Mas, em sua posição, acabou constatando certas irregularidades que vinham sendo feitas pela nova diretoria. Em busca de justiça, por entender que um funcionário público, como diz o nome, deve funcionar para o público, resolve buscar meios de denunciar o ocorrido em seu local de trabalho. Através do contato com um jornalista, dispara a investigação da mídia e lança, “em horário nobre”, o podre que se apossava do Instituto nos últimos tempos.

Embaixador e funcionário público: distantes em seus postos, próximos em suas tragédias. Ambos começam a notar que a realidade nem sempre corresponde à verdade e que, muitas vezes, versões magistralmente construídas são postas em seu lugar e iludem, fazendo da verdade uma opção descartada na construção desta realidade. Lançados em cenários construídos com muitas peças falsas, sofrem na busca do verdadeiro que está por trás, acreditando ser possível encontrá-lo.

Manuel Serafim Soares Vilhena, experiente nos meios políticos e diplomáticos, choca-se com a mentira a respeito da morte da filha. De fragmentos escritos pela mesma, até relatos de pessoas próximas, muitas pistas são recolhidas a fim de desvelar o que, efetivamente, ocorreu. Sentindo-se cada vez mais descrente do que lhe fora relatado, coloca-se no encalço da verdade, o que muda todo o cenário, altera cursos de vida, desfaz imagens sobre pessoas... A investigação mostra que o chão firme da realidade não passava de ilusão.

Custódio, por sua vez, constata rapidamente que a verdade nem sempre é o que importa. Vendo toda a sua denúncia, na busca da justiça, tornar-se um monstro incontrolável capaz de destruir vidas, pela deturpação de interpretações, o funcionário público luta para manter a esperança. Na mídia, vê toda a verdade revelada, mas apresentada de forma a servir à mentira, à farsa, ao roubo... “Tudo é verdade e nada é verdade”, constatação do velho trabalhador ― a mesma d’O Estrangeiro de Camus, quando via o processo de que era réu fazer-se por uma ligação de fatos verdadeiros que construíam uma interpretação, uma versão somente favorável à acusação.

Ligadas, na trama, por relacionamentos entre os vários personagens, as histórias encaixam-se no sentido de construir o alerta: a infâmia, vil mecanismo de ocultação da verdade, tão presente na sociedade contemporânea, é um mal gravíssimo. A lição de um dos personagens é clara: “Atento, fui aprendendo que todo relato tem interpretações. Mais de uma. Nenhuma é a única correta. Mas muitas são apenas falsas, mentirosas”.

A infâmia gera consequências terríveis, irreparáveis, e muitas vezes ela é construída pela fé cega que se tem em relatos, argumentos de autoridades, versões da mídia, gritos e acusações dos inimigos... Já Hamlet, de Shakespeare, lembrava que basta uma partícula impura para que toda a substância torne-se desprezível, que um pequeno defeito solapa toda a moral de um homem aos olhos alheios. Assim, maculadas pela infâmia, ainda que em uma mísera partícula (uma denúncia infundada), vidas inocentes são terrivelmente destruídas.

História permeada de referências a acontecimentos recentes do país, Infâmia é um livro que chama à responsabilidade o leitor: de que se alimentam as infâmias, as interpretações grotescas e deturpadas da verdade, se não do eco a elas feito? “Muitas vezes o crime não é aquilo que está sendo denunciado, mas a denúncia em si. Verdadeiros assassinatos de caráter, que é o nome técnico que os especialistas dão a isso”, diz o embaixador personagem. Cumpre que os leitores, da imprensa, da literatura, dos relatos cotidianos, não sejam meros reprodutores, mas tornem-se críticos. Que as distorções da realidade não tornem a história infame...

Para ir além






Ivan Bilheiro
Juiz de Fora, 17/8/2011

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Mais Ivan Bilheiro
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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/8/2011
10h54min
Ana Maria Machado disse uma coisa curiosa num programa de televisão, a respeito desse livro: que ele vinha numa linha de títulos como "Desonra", de Coetzee, "Reparação", de Ian McEwan, "Humilhação", de Roth, e outros. Verdade: o que será que leva tantos autores de países diferentes a criar títulos assim, em onda mundial?
[Leia outros Comentários de francisco lopes]
24/8/2011
18h37min
Belo texto, Ivan! Essa discussão sobre a verdade é interessantíssima. E a frase "descontruída" no primeiro parágrafo já foi motivo de outras conversas. Pra ser sincero, não conhecia nem a autora nem o livro, mas me parece muito bom! As menções a Camus e Shakespeare engrandecem ainda mais o texto e a discussão em si.
[Leia outros Comentários de Rogério Arantes Luis]
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