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COLUNAS

Quarta-feira, 8/5/2013
Toda poesia de Paulo Leminski
Humberto Pereira da Silva

+ de 1100 Acessos



Acaba de ser lançada Toda Poesia (Companhia das Letras, 421 pág.), de Paulo Leminski (1944-1989). A edição reúne livros publicados em vida, Caprichos e relaxos (1983) e Distraídos venceremos (1987), que foram objetos de culto entre apreciadores de poesia nos anos de 1980; traz também livros raros, como Quarenta clics em Curitiba (1976), e póstumos, como La vie em close (1991).

Edição "caprichada", enriquecida pela apresentação de Alice Ruiz, viúva do poeta, assim como pela reprodução de textos de Haroldo de Campos, Caetano Veloso, Leyla Perrone-Moisés e Wilson Bueno, que fizeram "orelhas" para as primeiras edições de seus livros. Completa ainda Toda poesia breve ensaio de José Miguel Wisnik, no qual é tratada da importância das incursões de Leminski no meio cancionista: destaque para "Verdura", canção gravada por Caetano Veloso em Outras Palavras (1981).

O curitibano Paulo Leminski foi principalmente uma figura de proa na cena cultural dos anos de 1980. Além de poeta, escreveu prosa experimental, Catatau (1974), Agora que são elas (1984), traduziu John Fante, Pergunte ao pó, James Joyce, Giacomo Joyce, Yukio Mishima, Sol e aço, Samuel Beckett, Malone morre, biografou Cruz e Souza, Matsuô Bashô, assim como se destaca como um dos grandes divulgadores de haicais, poemas curtos japoneses.

Um aspecto invariavelmente ressaltado na poesia de Leminski é o trânsito entre a vanguarda e a contracultura. De um lado, ele se aproxima dos concretistas, Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, que reivindicavam o diálogo com experiências eruditas e de ruptura formal. Jovem, ele participa em 1963 da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde é acolhido e se alia ao grupo Noigandres, que poucos anos antes lançara o "Manifesto da Poesia Concreta".

Mas ele não se retém nas rígidas fronteiras concretistas. Sua poesia em seguida transborda e transita com igual desenvoltura entre os poetas da "geração mimeógrafo", fortemente influenciada pelos beatniks, os hippies e a transgressividade comportamental. No Brasil, os nomes mais representativos dessa geração foram Ana Cristina Cesar e Cacaso, que imprimiram um sentido informal, "desbundado", em suas composições poéticas.

Figura híbrida na cena cultural, Leminski se equilibra entre a formalidade erudita e a informalidade contracultural. E assim ocupa zona fronteiriça única na poesia contemporânea brasileira. Por isso, Caetano Veloso define sua produção poética como uma mistura de concretismo e beatnik. Mas, justamente por isso, ele se coloca no alvo de discussões sobre o valor literário do que realizou. O poeta Bruno Tolentino, em rota de colisão com concretistas e "poetas marginais", alerta para o embuste publicitário e superficial daqueles que seguem o caminho trilhado por estes.

A polêmica levantada por Tolentino sinaliza para certo tipo de embate que simplesmente se diluiu nas duas últimas décadas. Chamar a atenção para ela tem por fim ilustrar o quanto provocações literárias, a poesia em particular, mobilizavam a cena cultural de outrora. No contrapé de Tolentino, cuja poesia e digressão teórica podem ser acusadas de elitismo, o não menos elitista José Guilherme Merquior é um dos defensores da "poesia marginal".

Na cena literária dos últimos anos, poetas e romancistas se acomodam bem nas feiras literárias, num ambiente de explícito marketing cultural. E com isso não correm riscos, não se expõem a confrontos que pesam; enfim, rezam conforme regras do mercado editorial, da arte institucionalizada. Os argumentos utilizados por Tolentino para criticar a poesia de Leminski não são levianos, nem despropositados, mas qual o sentido deles hoje? Sim, qual o sentido quando a poesia assume feição solipsista: praticamente não ocupa espaço fora de eventos destinados a celebridades culturais e "especialistas".

O lançamento de Toda poesia poderia oxigenar o debate, trazer à tona a necessidade de colocar a poesia na pauta da questão cultural. E assim abrir espaço para discussão sobre o que se faz e como se faz poesia hoje, tanto quanto dar resposta às inquirições de Tolentino (nesse sentido, com respeito ao cinema Kleber Mendonça, queira ele ou não, instaura o debate com seu O Som ao Redor).

Mas não é o que pressinto. Apesar de ter quase toda sua poesia publicada de modo independente, infelizmente Toda poesia parece não ir além de grande lançamento com marketing editorial. Ótimo que as pessoas em geral, e os jovens em particular, leiam Leminski: Torquato Neto, Wally Salomão, Ana Cristina Cesar, Chacal, Cacaso..., podiam bem se incluir num projeto amplo em que se discutisse afetivamente o lugar da poesia nos dias de hoje.

Não há sinais, contudo, de que isso vá ocorrer. Assim, por caminhos tortuosos, essa publicação dá razão à parte do alerta de Tolentino: um embuste publicitário. Leminski, a poesia que fez - assim como os riscos e embates a que sua geração se expôs - congelaram-se nos anos de 1970 e 1980. A recepção de Toda poesia se confina à etiqueta Paulo Leminski; está, sim, bem divulgada pela Companhia das Letras, é provável não dê prejuízo.

Para ir além


Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 8/5/2013

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