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Terça-feira, 29/9/2015
Brochadas, romance inquietante de Jacques Fux
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2200 Acessos


"Brochadas", segundo romance do escritor Jacques Fux, editado pela Rocco, é uma divertida e inteligente epopéia do homem que fracassa na hora H. Mas não é só isso, também é uma grande discussão sobre o sentido dos afetos, da sexualidade e da própria escrita literária. O escritor ainda se propõe um debate crítico sobre as raízes judaicas do personagem. Este último tópico já se encontrava presente no primeiro romance de Fux, "Antiterapias", publicado pela editora Scriptum, de Belo horizonte.

Para "Brochadas" vale partir dos versos de Fernando Pessoa: "o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente". Pois é disso que se trata, ficcionalizar a própria vida, os retalhos das experiências sexuais, afetivas, literárias, filosóficas e de cultura (o judaísmo).

O romance é uma espécie de psicanálise literária, onde o personagem Jacques (também nome do autor) tem uma conversa consigo mesmo e com suas parceiras da vida a respeito do grande tabu que é a brochada. Além disso, o romance faz um relato histórico sobre grandes personagens que brocharam ou como a tradição ocidental se relacionou com o tema.

Através dos relatos (verídicos ou ficcionais, não se sabe) sobre as razões que levaram Jacques a brochar em algumas de suas relações sexuais - relatos esses enviados às suas parceiras, que depois de lerem as observações do personagem (autor) respondem dizendo se brocharam com ele ou como vêem as explicações dadas pelo escritor - através desses relatos acabamos conhecendo os elementos que levam o homem e a mulher a brochar.

As variadas razões femininas e masculinas para a brochada são elencadas já nas páginas iniciais do livro: "Tentativas de esgotamento do motivo das brochadas masculinas e femininas". São algumas delas que vão determinar a causa das brochadas. No caso masculino, há de mau hálito, chulé, fedor na xoxota, seios murchos, ansiedades, pensar na mãe, mulher que não quer chupar, dor de barriga, até mulher mandona demais, dentre outros elementos. No caso feminino, há de mau hálito, pinto fedido, pinto pequeno, pinto meia-bomba, não ligar no dia seguinte, erros de português, falar da mãe, soltar pum na hora, até homem que chama de putinha, vadia, que goza na cara, que levanta e vai embora, dentre outros motivos para a mulher brochar.

Se, como diz o autor, "tudo aqui é verdade, exceto o que não invento", estamos no meio de uma mistureba entre realidade e ficção, ou seja, daquilo que Fernando Pessoa anuncia como fingir a dor que deveras sente (como citado anteriormente). Então, vamos crer que o relato de Jacques (personagem), pode ser o relato de Jacques (escritor), brilhantemente construído pela sua literatura. A sensação é de que é necessário esse álibe literário para a verdade vir à tona. O autor no confessionário psicanalítico-literário, justificando o despudorado relato de sua "fraqueza", do tabu dos fracassos sexuais, via literatura, que o redime ou o encoraja a tal.

Estamos, então, numa espécie de "Recherche das brochadas perdidas", como o próprio autor denomina um dos capítulos do livro. Indo além, procurando no espelho da cultura judaica, que parece abominar, as razões dos seus pés na bunda e impulsos literários, que resulta na sopa de sentimentos amorosos frustrados, desdém por uma cultura religiosa que não o agrada e a busca pela "salvação" na literatura.

Tudo bem construído no livro "Brochadas". A leitura é divertidíssima, mas também inteligentíssima. Aquilo que é a vida ordinária do personagem, seu drama incessante com as mulheres que amou ou odiou, é circundado (ôpa! quase disse circuncidado) por reflexões que vão desde o pensamento da Grécia antiga e a época medieval, passando por Poe, Joyce, Hemingway, Borges (todos brochas), até o Talmude, dentre outras referências. No fundo de tudo isso, o fracasso sexual, alimentando (e sublimando a vida) a criação da cultura e a verve criativa dos escritores. Assunto tabu.

O que é marcante no livro de Fux é seu humor. O melhor filósofo é o que ri de si mesmo, já dizia Nietzsche. Com essa "estratégia", o rir de si mesmo (ou o humor judaico encarnado), o escritor pode colocar na ordem do dia a discussão tabu que é a brochada. E não é sem diversão e sem amargor que o debate aparece. Mulheres revoltadas com a criação de Jacques (personagem) nos seus relatos, não deixando de acusá-lo também de ser a razão de suas brochadas. Ah! Sim, as mulheres brocham, apesar de ser mais fácil para elas fingir. Brocham ora por causa de si mesmas, ora por causa do comportamento masculino. E o personagem brocha sem parar, por causa delas e também por si mesmo, pelos embrulhos de culpa, impaciência, incompreensão que se colocam nesse saco de ressentimentos que aflora a cada página do livro de Fux.

Mas o que é ainda maior no livro "Brochadas" é a discussão - que o autor acaba fazendo no final de cada relato - sobre o sentido da ficção e sua correspondência com a realidade.

A insuportável plenitude seria o que move a cultura, os avanços da ciência e da literatura. "A dor e a dificuldade de mudar, transformar, metamorfosear e aceitar o outro". É aquilo que sempre nos faltará, é a mulher que não nos fez ficar de pau duro ou gozar, é o vazio que advém da falta, que nos fará dar o passo em direção à criação.

Cito o trecho: "Acho que a plenitude é um sentimento que o ser humano não pode suportar. Só os deuses. Nós, incompletos, não conseguimos aguentar momentos de alegria e prazer intensos. Precisamos sentir a falta. Pulsão. Temos que viver em meio à carência e ao espaço vazio que nutre a pulsão por viver e por morrer."

É nesse espaço que vive o escritor, o artista. É da ferida narcísica, do fracasso da vida, que surgirá a flor do mal, a flor da beleza, a arte, uma promessa de felicidade. Fux escreve sobre o tabu da brochada porque quer falar do tabu que é a vida fracassada: sua incompletude. Porque quer falar da busca pela completude na arte. O autor faz tudo muito bem... nos deixando inquietos.

Alberto Mussa resumiu bem "Brochadas", dizendo que é obra "de um autor culto, extremamente original e inquietante".


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 29/9/2015


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