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Sexta-feira, 25/4/2003
Doutrina Bush: democracia de cruzeiro?
Félix Maier

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"Há um tempo para construir e um tempo para destruir", afirmou José Saramago em "Memorial do Convento". Para o presidente dos EUA, George W. Bush, é tempo de construir a democracia no mundo, e é tempo de destruir toda forma de terrorismo existente sobre a face da Terra.

Ninguém, em sã consciência, é contra a democracia e a favor do terrorismo. A não ser os terroristas, como Osama bin Laden, e os ditadores, como Fidel Castro - antigo ídolo de Saramago. O problema é como conseguir que todos os países sejam democráticos e que o terrorismo seja extinto no mundo. E entender por que os EUA, com sua "Doutrina Bush", seriam a nação escolhida por Deus para realizar obra de tal envergadura.

Uma pergunta hoje é freqüente: estaria somente o Iraque na mira do armagedon americano, ou também outras nações comunototalitaristas, como a Coréia do Norte, ou teototalitaristas, como o Irã, que também contribuem para a desestabilização da paz no mundo? Todos sabem o motivo por que os EUA não ameaçam o governo comunista da China, que trucida o Tibete e vende armas para o grupo al-Qaeda: ela possui um formidável estoque de bombas nucleares. Porém, Síria, Irã e Sudão poderiam ser os próximos alvos, já que tais nações foram denominadas por Bush de "eixo do mal", Estados que seriam propagadores do terrorismo islâmico internacional.

Ultimamente, com a guerra no Iraque, tem havido muitas manifestações a favor da paz no mundo, as tais peaceniks que relembram os tempos da Guerra do Vietnã. Porém, há um paradoxo e uma ironia nesses movimentos "pacifistas". Ninguém critica muitas das ações da ONU, ultimamente desmoralizada também por eleger a Líbia para a Comissão de Direitos Humanos, um país sabidamente promotor do terrorismo sob a ditadura Kadhaffi, cúmplice do atentado terrorista que derrubou um jato da Pan Am (Boeing 747) na Escócia, em 21 de dezembro de 1988, quando morreram 259 pessoas a bordo e 11 em terra. Por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU, após a Guerra do Golfo, criou uma zona de exclusão aérea no norte e no sul do Iraque, onde o antigo governo de Saddam Hussein não tinha autonomia, por conta de uma alegada defesa dos curdos, no norte, e dos xiitas, no sul. Além disso, a ONU aprovou um draconiano embargo econômico contra o Iraque, que já dura 13 anos, só comparável ao que sofreu a Alemanha após a I Guerra Mundial, com o Tratado de Versalhes. Somente uma parte da capacidade produtiva de petróleo do país, que tem a segunda maior reserva do planeta, foi autorizada para a venda, em troca de comida e remédios. Com isso, o Iraque, anteriormente um país culto e rico, retrocedeu aos tempos medievais, com a pobreza tomando conta da maior parte da sociedade, enquanto Saddam Hussein e seus filhos construíam luxuosos palácios. O UNICEF calcula que, devido ao embargo, morreram em torno de 500.000 crianças no país, por falta de alimentos e medicamentos. Ou seja, a ONU critica a ONU por um crime contra a humanidade que ela mesma cometeu e os peaceniks apenas lembram em condenar os mortos e mutilados ocasionados pelos bombardeios da coalizão anglo-americana.

Finda a guerra no Iraque, resta a questão principal da "Doutrina Bush": como os EUA conseguirão tornar aquele país uma democracia? Sabe-se que democracia não é uma palavra muito conhecida no mundo muçulmano. Basta lembrar que ainda antes do término da Guerra do Golfo, em 1991, muitos analistas apostavam que o Kuwait sofreria mudanças políticas sensíveis após o conflito. Porém, o que se viu foi a recondução do Emir ao poder, cuja dinastia governa o país há mais de 350 anos, sem que nenhuma reforma política fosse feita para benefício da população. Na Arábia Saudita, durante a Guerra do Golfo, muitas mulheres foram vistas dirigindo carros, dando a impressão de que conseguiriam alguns direitos até hoje negados a elas. Contudo, em pouco tempo as mulheres sauditas "liberadas" passaram a ser perseguidas, foram proibidas de dirigir carros e tiveram que voltar para os afazeres domésticos, longe da política e da contestação. A Arábia Saudita não é nada mais do que um país feudal, em que a família real detém 40% da riqueza do país. Assim, em um ambiente muçulmano onde predominam ainda conceitos teocráticos medievais, e uma corrupção generalizada, como conseguir que a democracia seja implantada?

O problema maior que Bush enfrentará no Iraque será o repúdio da população à ocupação estrangeira, por mais que Saddan Hussein tenha sido o déspota que foi. Afinal, foram chocantes as cenas de crianças e mulheres mutiladas, o desespero de pais que perderam toda a família e seus bens materiais em bombardeios. E nada impedirá que muitos destes muçulmanos, transtornados pelo ódio, se transformem em bombas humanas para atacar os conquistadores. Se Osama bin Laden declarou guerra à América simplesmente porque ainda existem tropas americanas no "solo sagrado" da Arábia Saudita, não será diferente o sentimento dos islâmicos em relação à dominação anglo-americana no Iraque.

Há um provérbio entre os beduínos do Sinai, em sua eterna luta para conseguir um pedaço de terra com vegetação e água, que diz o seguinte: "Eu contra meu irmão. Eu e meu irmão contra meu primo. Eu, meu irmão e meu primo contra o mundo". Por mais que os muçulmanos briguem entre si, em desavenças tribais que nunca findam, eles passam a se unir quando a ameaça vem de fora. Foi assim na Campanha Árabe contra o Império Otomano, durante a I Guerra Mundial, muito bem descrito no livro "Os Sete Pilares da Sabedoria", que deu origem ao épico de Hollywood, "Lawrence da Arábia", com Peter O'Toole e Omar Sharif. Foi assim na guerra de guerrilhas do Afeganistão contra a ocupação soviética. Não será diferente agora no Iraque, ocupado pelos americanos e britânicos. Quanto mais rápido a coalizão passar o governo ao povo iraquiano, menos problemas terá com ataques guerrilheiros suicidas - os famosos "fedayin" -, atentados a bomba e toda sorte de sabotagem engendrados para expulsar os invasores. O problema reside em saber qual o melhor momento para a entrega do bastão governamental ao povo iraquiano, sem riscos de que daqui a um ano a coalizão tenha que voltar para uma segunda "libertação" do Iraque. Ficando por longo tempo no Iraque, a coalizão não enfrentará somente o descontentamento da população (de maioria xiita) e dos remanescentes simpatizantes de Saddam. Ela passará a enfrentar o Movimento Islâmico Armado (AIM), também conhecido como Legião (ou Brigada) Internacional do Islã, ponta de lança do terrorismo islâmico internacional, que congrega grupos fundamentalistas oriundos de países como Egito, Arábia Saudita, Iêmen, Síria, Irã, Sudão, Paquistão, Afeganistão, além do próprio Iraque.

O AIM foi implementado pela International Moslem Brotherhood - IMB (Irmandade Muçulmana Internacional), controlada pelo Irã e administrada pelo xeque Hassam Abdallah al-Turabi, líder espiritual do Sudão. Antes dos ataques de 11 de setembro contra Nova York e Washington, o IMB tinha controle sobre instituições financeiras que operavam no Ocidente, como a Islamic Holding Company, o Banco Islâmico de Dubai e o Banco Islâmico Faiçal. A criação do Banco Taqwa da Argélia foi visto pelo IMB como a "fundação de um banco mundial para o fundamentalismo" (Yossef Bodansky, in "Bin Laden - o Homem que Declarou Guerra à América", pg. 85). A Internacional Islamita pretende concretizar o sonho do aiatolá Khomeini e sua revolução, para a união de todos os islamitas sob um novo califado.

Os terroristas de maior destaque da Internacional Islamita são conhecidos como "afegãos", pois muitos deles foram treinados com os mujadins no Paquistão e lutaram no Afeganistão contra os soviéticos (depois contra os EUA, em 2001). As bases de apoio ficam no Sudão, Irã, Afeganistão e Paquistão, e há organizações ativas em todos os cantos do mundo onde haja muçulmanos.

Países como o Irã e o Sudão tiveram fundamental influência na criação e propagação do grupo terrorista Al-Qaeda, acusado de ter planejado e executado os atentados contra os EUA, no dia 11 de setembro de 2001. Por isso, é de se supor que os EUA não devem ter dado por encerrada sua luta contra o terrorismo islamita depois das campanhas contra o Afeganistão e o Iraque. Quem será o próximo país a conhecer a "democracia de cruzeiro" da Doutrina Bush, implementada pela "pax americana" dos mísseis "cruise" Tomahawk? Seria o estratégico Iraque utilizado pelos americanos como cabeça-de-ponte para futuros ataques à Síria e ao Irã?

Durante o Governo de Bill Clinton, já havia uma doutrina próxima à chamada "Doutrina Bush", a "Doutrina Lake". Propagada em 1996 por Anthony Lake, Assessor de Segurança Nacional de Clinton, essa Doutrina estabelece que as Forças Armadas americanas devem ser utilizadas em 7 circunstâncias: 1) para defender o país contra ataques diretos; 2) para conter agressões; 3) para garantir os interesses econômicos do país; 4) para preservar e promover a democracia; 5) para prevenir a propagação de armas de destruição em massa, terrorismo, crime internacional e tráfico de drogas; 6) com fins humanitários para combater a fome, desastres naturais e grandes abusos de direitos humanos; e 7) em defesa da ecologia e do meio ambiente. Não custa lembrar que os itens 5, 6 e 7 caem como uma luva para o Brasil, caso Uncle Sam chegue à conclusão de que a Amazônia está sendo devastada ("defesa da ecologia"), de que os ianomâmis estão sendo massacrados ("defesa dos 'direitos humanos' ") e de que o narcotráfico tomou conta de nosso País ("prevenção do tráfico de drogas"). Resta saber se a Doutrina Bush também irá abranger tal leque de circunstâncias, ou se irá apenas se ater ao "terrorismo".

O atual regime iraniano já nasceu terrorista. "O terror de Khomeini se voltou contra o antigo regime (do Xá), massacrando 23 generais, 400 outros oficiais do Exército e da Polícia e 800 funcionários civis; depois voltou-se contra os seguidores dos aiatolás rivais, 700 dos quais foram executados; e depois, voltou-se contra seus antigos aliados liberal-seculares, 500, e contra a esquerda, 100. Desde o início o terror organizou a execução ou assassínio de líderes de minorias religiosas e étnicas, matando mais de 1.000 curdos, 200 turcomandos e muitos judeus, cristãos, shaikhis, sabeus e membros dissidentes das seitas xiitas, assim como muitos ortodoxos. (...) As igrejas e sinagogas foram arrasadas, cemitérios profanados, santuários vandalizados e demolidos. (...) O tormento que causaram à minoria sunita iraquiana e as medidas recíprocas contra xiitas persas no Iraque levaram à guerra Irã-Iraque - guerra que se iniciou em 1980 e se estendeu até 1988. (...) Mantendo como refém o pessoal da Embaixada americana, que foi finalmente libertando em troca do pagamento de um resgate, o regime de Khomeini se identificou com o terrorismo internacional, e por algum tempo financiou grupos tais como a OLP" (Paul Johnson, in "Tempos Modernos", pg. 597-8).

Khomeini havia escolhido o Iraque como primeiro alvo para exportar a Revolução Islâmica devido a dois motivos: o grande número de xiitas no sul daquele país e a presença, no Iraque, dos lugares mais sagrados dos xiítas: a tumba do Ímã Ali, o primeiro ímã xiita, situada na cidade de an-Najaf, e a tumba de seu filho, Hussein, conhecido pelos xiitas como o "Senhor dos Mártires", localizada na cidade de Karbala. Depois de Meca, Karbala é a cidade mais sagrada para os xiitas, a segunda ala mais importante do islamismo, depois dos sunitas. Ultimamente, multidões de xiitas, em festa, são vistas em peregrinação a Karbala, onde se açoitam até sangrar, após caminhadas de mais de 100 km. Há 26 anos não era vista esta alegria da peregrinação, proibida durante o regime de Saddam Hussein.

Vencendo o Iraque (na época, o 2º maior produtor de petróleo, após a Arábia Saudita), Khomeini acreditava que seria o trampolim para a exportação da Revolução Islâmica a toda a Península Arábica, à Turquia, ao litoral leste do Mediterrâneo (Palestina, Líbano), Síria, Jordânia e Egito. O "slogan" de Khomeini era: "Libertar Qods (Jerusalém) (2) através de Karbala". Para os árabes, existe a "Falistina" (Palestina, nome originário dos "filisteus")", Israel é um nome nunca pronunciado ou escrito.

Mesmo após a morte de Khomeini (1989), o Irã ainda transferia US$ 100 milhões/ano para o Sudão, onde o governo local criou campos de treinamento para fundamentalistas da Argélia, Tunísia, Egito e, mais tarde, do Golfo Pérsico. Nos campos sudaneses também treinaram tropas do grupo Al-Qaeda (3), de Osama bin Laden, criado em 1992 naquele país.

O aiatolá Khamenei, sucessor de Khomeini, expandiu a campanha khomeinista a grupos xiitas, como: Hizbullah, no Líbano; Ahmed Jibril, da Frente Popular de Libertação da Palestina-Comando Geral; Muhammad-Hussein Fadhlullah, clérigo xiita libanês; e com os líderes do Centro do Clero Xiita (4), no Paquistão.

Em dezembro de 1991, o Presidente Rafsanjani, em visita ao Sudão, em companhia do Ministro da Inteligência, Ali Fallahian, do Comandante-em-Chefe do Corpo da Guarda, Mohsen Rezaii, do Ministro da Defesa, Akbar Torkan, e mais 150 pessoas, doou ao país US$ 17 milhões para "assistência financeira".

Em meados de 1992, o Irã doou ao Sudão 30 milhões de dólares para aceleração de treinamento terrorista. A maior parte destes fundos foi transferido para contas em Londres, controladas pelo xeque Turabi, para financiar operações de terrorismo internacional.

O Irã também concordou em pagar à China US$ 300 milhões por armamento destinado ao Sudão. Em acréscimo, o Irã concordou em enviar 1 milhão de toneladas de petróleo ao Sudão, anualmente, sem despesa. Logo depois, o dirigente militar do Sudão, general Omar Al-Bashir, anunciou que as leis islâmicas seriam imediatamente impostas no país. A primeira obrigação: mulheres deveriam usar o turbante em lugares públicos. Na mesma época, um contingente de 1 ou 2 mil Guardas Revolucionários Iranianos foi enviado ao Sudão. Em 31 Mar 1992, veio a público a formação das Forças de Defesa Popular (FDP) do Sudão, nos moldes do Corpo da Guarda Revolucionária (Pasdaran): "Prontas para lutar uma "Jihad" (guerra santa), as FDP fazem o treinamento marchando com uma arma e recitando o Corão".

A rigor, nada mudou na conduta fundamentalista e terrorista iraniana nestas duas últimas décadas. Vale dizer que, há poucas semanas, o Pasdaran reiterou a fatwa (decreto religioso) que havia condenado à morte o escritor Salman Rushdie, autor do livro "Versos Satânicos", considerado ofensivo para os mulás iranianos.

Atualmente, muitos grupos terroristas muçulmanos integram a Internacional Islamita, como o al-Qaeda de Osama bin Laden; o al-Qods iraniano; o Hezbollah Internacional (iraniano, criado em 1996); o ISI paquistanês; a PIO (Organização Popular Internacional), criada em Cartum em 1991 e liderada pelo xeque Turabi; a Jihad Islâmica do Egito (ligada a Osama bin Laden, participou do assassinato do presidente do Egito, Anwar al-Sadat); Abu Sayyaf (organização terrorista das Filipinas); o Comitê de Defesa dos Direitos Legítimos (com sede em Londres); o al-Jamaah al-Islamiyah (do xeque Omar Abdul Rahman (preso nos EUA, acusado do primeiro atentado contra o WTC, em Nova York, em 1993); a VEVAK (inteligência iraniana); o Grupo de Justiça Internacional (nome de cobertura adotado por agentes de segurança e inteligência treinados pelos iranianos e liderados por Ayman al-Zawahiri, no atentado contra o presidente do Egito, Hosni Mubarak, em 1995).

Vejamos algumas ações da Internacional Islamita na última década. No dia 17 de março de 1992, um carro-bomba atingiu a Embaixada de Israel na Argentina, matando 28 pessoas e ferindo cerca de 100. No dia 18 de julho de 1994, um carro-bomba matou 96 pessoas e feriu 156 na Asociación Mutual Israelita-Argentina (AMIA), em Buenos Aires. Os atentados foram atribuídos a grupos terroristas islâmicos orientados pelo Irã. Em fevereiro de 1993, houve um atentado contra o World Trade Center (WTC), em Nova York, realizado pelo kuwaitiano Ramzi Youssef (ligado a bin Laden), quando a explosão de um carro-bomba na garagem de uma das torres gêmeas deixou saldo de 6 mortos e mais de 1.000 feridos; preso, Youssef foi condenado a 240 anos de prisão. Em outubro de 1993, militantes treinados por Mohamed Atif (3º homem mais importante do al-Qaeda) mataram 18 soldados dos EUA na Somália (Operação "Restore Hope", da ONU).

A "Internacional Islamita", com o apoio milionário da al-Qaeda, participou ainda de outras ações, principalmente contra objetivos americanos, tais como: atentados a bomba em embaixadas americanas na África (Nairobi, Quênia, e Dar as-Salaam, Tanzânia, ocorridos em 7 de agosto de 1998); ataque suicida contra o destróier americano "USS Cole", no dia 12 de outubro de 2000, que deixou 17 marinheiros americanos mortos, no Porto de Áden, Iêmen; atentado contra a vida do presidente do Egito, Hosni Mubarak, em 26 de junho de 1995, em Adis-Abeba, Etiópia, patrocinado pelo Irã e Sudão; ainda em junho de 1995, houve explosões no metrô de Paris, promovidas por argelinos; atentado de 2 carros-bombas num centro de treinamento militar administrado pelos Estados Unidos, em Riad, Arábia Saudita, a 13 de novembro de 1995, quando houve 6 óbitos (sendo 5 americanos); esta ação foi organizada por Teerã e Cartum, reunindo "afegãos" sauditas e partidários; assassinato de Alaa al-Din Nazmi, o 2º diplomata egípcio mais importante na Suíça, no dia 15 de novembro de 1995; atentado com carro-bomba, com 400 kg de explosivos, na Embaixada egípcia em Islamabad, Paquistão, no dia 19 de novembro de 1995, matando 19 pessoas (incluindo o motorista suicida); explosão de um caminhão-bomba nas instalações americanas de al-Khobar, perto de Dahran, Arábia Saudita, em 25 de julho de 1996, matando dezenas de pessoas, entre as quais 19 militares americanos; explosão do jumbo da TWA (võo 800), em 17 de julho de 1996, sobre o Oceano Atlântico, perto da costa de Long Island; as evidências apontam para o terrorismo, pois houve um breve ruído, antes da explosão, idêntico ao ocorrido com o Boeing do vôo 103 da Pan Am, explodido sobre Lockerbie, na Escócia; e, principalmente, os atentados contra as torres gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, e contra o Pentágono, em Washington, no dia 11 de setembro de 2001, ocasionando a morte de quase 3.000 pessoas.

Vale lembrar, ainda, que o ex-presidente sírio, Hafiz al-Assad, recebeu alguns bilhões de dólares, a partir de 1990, do príncipe Abdallah, da Arábia Saudita, para a construção de uma grande fábrica de armas químicas em Aleppo, norte da Síria, e aquisição de mísseis. Os sírios, por sua vez, junto com os iranianos, fazem operações em território saudita, desde a investigação e a seleção de alvos até o transporte de terroristas e explosivos.

Com a extensa folha corrida de atentados terroristas acima mencionados, é fácil identificar que países poderão ser os alvos das próximas operações americanas para a implantação de uma "democracia de cruzeiro". Apostas já estão sendo feitas. Faça a sua.

Notas
(1) Mulá - Religioso islâmico xiita do Irã.

(2) Al-Qods - Grupos muçulmanos do Irã, constituídos por Pasdaran (Guarda Revolucionária Iraniana - grupo de elite), responsáveis por ações no exterior, adestram movimentos integristas no Oriente Médio e atuaram na Bósnia, em 1992. Al-Qods ou "a Santa" (em árabe) designa também a cidade de Jerusalém, reivindicada também pelos palestinos, para ser sua futura capital.

(3) Al-Qaeda - "A Base" (em árabe). Grupo terrorista islâmico de Osama bin Laden, bilionário saudita. Inicialmente se chamava "Salvação Islâmica" (Fundação al-Qaida) e era uma "instituição de caridade" criada por bin Laden para remeter fundos de apoio à jihad no Afeganistão e no Paquistão; depois, estendeu-se à Bósnia, Albânia e Kosovo. O Al-Qaeda possui células terroristas no Oriente Médio e Norte da África, e provavelmente no leste asiático, na Europa e na América do Norte, num total de mais de 40 países. Em Ago 1996, bin Laden escreveu seu primeiro manifesto contra os EUA, a declaração de sua Jihad (Guerra Santa), pois tropas americanas ainda ocupavam o solo sagrado do Islã - a Arábia Saudita. Em 1998, bin Laden decretou um outro manifesto, mais radical, a fatwa (sentença de morte) contra todos os cidadãos americanos, dentro ou fora das terras islâmicas, que seria desempenhada pelo "exército islâmico internacional para a guerra santa contra judeus e cruzados". Desde 1996, com a ascensão dos talibãs no Afeganistão, o grupo teria construído no país 12 campos de treinamento de terroristas. O al-Qaeda é também acusado de ter participado de muitos atentados terroristas, já citados acima, porém a ação mais espetacular foram os atentados contra as torres gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, e contra o Pentágono, no dia 11 de setembro de 2001. Os atentados contra os EUA levaram este país a declarar guerra contra o Governo Talibã do Afeganistão (por dar cobertura ao Al-Qaeda), em outubro de 2001, o qual foi deposto para dar lugar a um governo de coalizão nacional, no final de 2001. O livro "Seeds of Fire", do repórter inglês Gordon Thomas, apresenta provas da colaboração chinesa com a Al-Qaeda: tropas da Aliança do Norte encontraram enorme quantidade de armas chinesas em poder dos Talibãs. Para aprofundamento do assunto, leia "Bin Laden - O Homem que Declarou Guerra à América", de Yossef Bodansky, Ediouro, Rio de Janeiro e São Paulo, 2002.

(4) No Paquistão existem cerca de 70.000 escolas corânicas (escolas confessionais islâmicas), financiadas pelos países petroleiros do Golfo Pérsico, "onde 6 milhões de crianças são instruídas na versão mais militante do islamismo e preparadas para dedicar a vida à guerra santa" (Amir Taheri, in "O ódio dos muçulmanos ao Ocidente é cultivado por Governos e imprensa" - apud "Veja", edição 1732, de 26 Dez 2001). Os chefes guerrilheiros afegãos, que haviam derrotado os russos em 1989, agiam como senhores feudais e suas tropas estupravam, saqueavam e matavam livremente. O serviço de espionagem paquistanês Interservices Intelligency (ISI), para acabar com isso, financiou uma pequena milícia afegã, formada por estudantes de escolas islâmicas, conhecidos como "talib", e liderada por um mulá fundamentalista, Mohamed Omar. O grupo (Talibã) cresceu rapidamente e ocupou 90% do território do Afeganistão, impondo um sistema social radical sobre sua população, com base em fundamentos corânicos medievais, desde 1996. Em outubro de 2001, os EUA entram em guerra contra o regime dos Talibãs, acusado de abrigar o terrorista Osama bin Laden, principal suspeito dos atentados contra os EUA no dia 11 de setembro de 2001.

Bibliografia
1. BODANSKY, Yossef. "BIN LADEN - O Homem que Declarou Guerra à América". Prestígio Editorial (Ediouro), Rio de Janeiro e São Paulo, 2002 (2ª Edição).

2. JOHNSON, Paul. "Tempos Modernos - O mundo dos anos 20 aos 80". Biblioteca do Exército Editora e Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1994 (Tradução de Gilda de Brito Mac-Dowell e Sérgio Maranhão da Matta).

3. MAIER, Félix. "Arquivos 'I' - uma história da Intolerância". Trabalho em andamento, já disponível em Usina de Letras (www.usinadeletras.com.br), link "Artigos".

4. MOHADDESSIN, Mohammad. "Islamic Fundamentalism - The New World Threat". Washington D.C., 1993.


Félix Maier
Brasília, 25/4/2003


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01. A Amazônia sem pátria de Félix Maier


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