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Terça-feira, 25/10/2016
Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte I)
Jardel Dias Cavalcanti

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“Escuto vocês todos, irmãos sombrios.” (Drummond)

“O que é, no entanto, perturbador é que as repercussões na arte desses horrores não tenha sido, nem qualitativa nem quantitativamente, proporcional à carnificina militar. A arte não está à altura da catástrofe.” A ideia acima, de Ives Michaud, nos fala da impossibilidade em se traduzir os horrores da violência da guerra em termos artísticos. A dificuldade ainda se torna maior no caso da poesia: “O horror nunca é facilmente recuperável pela arte, sobretudo quando ela não tem vocação para ser documental”. (Michaud)

No entanto, poetas e outros artistas não se furtaram à necessidade de “descer aos infernos”, de visitar os cadáveres (os corpos retalhados, destruídos por tiros, bombas ou apodrecidos por morte e fome), de denunciar a demência e bestialidade humanas (fruto de economias imperiais e de jogatinas político-militares escusas), de apontar o desespero e a desesperança do homem diante do fracasso do humanismo.

O encontro entre a poesia e o cenário de horror que foi a Segunda Guerra é o tema do livro O Mundo Sitiado: a poesia brasileira e a Segunda Guerra Mundial, de Murilo Marcondes de Moura, publicado pela Editora 34.

A discussão central do livro é a relação dos poetas brasileiros, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Oswald de Andrade e Murilo Mendes, com a Segunda Guerra Mundial. O que em si já seria uma investigação inédita. Mas o projeto do autor é mais ousado. O que lhe interessa não é apenas ler na obra dos poetas a temática da guerra, mas “como cada um desses poetas, ao se abrir para o acontecimento histórico, intensificou e mesmo expandiu o essencial de seus princípios estéticos”.

Para tanto, vale-se da ideia de que “o sentimento do mundo”, o impulso internacionalista, não próprio apenas a Drummond, mas a todos eles, seria a força motriz da dicção singular a que chegaram em suas obras. Nesse sentido, a ideia de uma “guerra moderna” criou necessidades poéticas próprias ao tempo histórico no qual os poetas “foram constrangidos a atuar”.

Essa necessidade que governa a relação entre o espírito criador e os dramas do mundo fez-se urgente aos poetas, às suas consciências, pois, como anotou Heiner Müller, “o que está morto, não está morto na história. O diálogo com os mortos não deve parar, até que seja arrancado deles o que de futuro foi enterrado junto com eles.” Ainda dentro dessa lógica, vale dizer que para o artista que pensa a questão da guerra “o que é nefando, indigno de nomear, se confronta com a urgente necessidade de dar nome aos cadáveres”. (Paulo Herkenhoff)

Mas como a interpretação da poética desses escritores pode escapar da força dos fatos que se amontoam sobre sua poesia como uma impositiva percepção histórica?

Como o individual do poema pode se relacionar com o coletivo da história? Era crença de T. W. Adorno que, ao abordar uma individualidade, um poema pode ser capaz de apontar elementos referentes a uma coletividade. A questão que se coloca, portanto, é: como isso se processa no interior da linguagem? O objetivo do livro de Murilo Marcondes é justamente esse: decifrar como a linguagem poética foi processada como “sentimento do mundo” a partir de seu encontro com os meandros da história.

A exigência proposta à lírica, segundo T. W. Adorno, é de um "protesto contra um estado social que todo indivíduo experimenta como hostil, alheio, frio, opressivo [...] A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo (...)." (Lírica e Sociedade) Como se a própria natureza da lírica fosse a oposição constante à uma suposta “normalidade do mundo”, como se a linguagem poética fosse intrinsecamente um movimento de resistência aos códigos “institucionais da língua do mundo”. Vale aqui lembrar a noção barthesiana de “écriture”, escritura como a escrita do escritor, sempre em oposição aos códigos normatizadores da língua e do poder.

Além de transcender o relato jornalístico sobre a guerra, uma “poesia de guerra” buscaria “atingir as mais profundas especulações sobre o Homem” (nas palavras de Robert Graves, citado por Murilo Marcondes). Mas para ir além da “poesia de circunstância” a poesia de guerra deveria, no mínimo, deflagrar dentro da própria poética do artista uma “transfiguração das circunstâncias” (Drummond).

O debate sobre a relação entre poesia e realidade, forma e conteúdo não é nova. Schiller pretendeu acabar com a discussão com sua famosa frase: “Na verdadeira obra de arte a forma mata o conteúdo”. Já para Goethe a coisa era um pouco mais confusa: “As declarações isoladas de Goethe a respeito da poesia parecem muitas vezes unilaterais, quando não abertamente contraditórias. Ora ele põe todo o peso na matéria dada pelo mundo, ora na interioridade do poeta; ora todo o bem está no objeto, ora no tratamento dado a ele; ora provém de uma forma perfeita e ora inteiramente do espírito, em detrimento da forma.” (Eckermann – Conversações com Goethe)

Para a poesia que “transfigura as circunstâncias”, segundo Adorno, a tensão interna deve ser significativa na relação com a tensão externa. Os mesmos termos de Adorno são citados por Murilo Marcondes ao chamar T. S. Eliot para o debate: “T. S. Eliot, a seu modo, reitera a necessidade dessa concomitância entre o interior e o exterior, ao identificar “a poesia” à “concepção abstrata da íntima experiência em sua intensidade máxima tornada universal”.

Para que essa poesia seja significativa, ela não deve se submeter aos andamentos do mundo. Murilo Marcondes se aproxima das ideias do crítico Pedrag Matvejevitch, amplamente citado na parte teórica do seu livro, se contrapondo à visão negativa da poesia de circunstância: “como se a referência forte a algo que lhe fosse externo traísse a natureza mais autêntica do poema, cujo valor deve ser medido pela própria imanência.”

Nesse ponto, Murilo Marcondes se apoia na ideia de Matvejevitch: “o crítico diferencia uma poesia escrita com vistas às circunstâncias de uma outra escrita em relação às circunstâncias – a primeira, depende primariamente dos fatos externos; a segunda, mantém com estes um vínculo mais autônomo”.

Balizando-se também em Jean Starobinski, dialoga com a ideia de que em uma situação de catástrofe é preciso que intervenha uma “contração do tempo histórico no tempo pessoal”. Entenda-se, aqui, “tempo pessoal” como dicção própria do poeta. Daí, citando ainda Starobinski, que sentencia: “em nosso tempo, a responsabilidade do poeta é sobretudo a de conferir ao acontecimento histórico a qualidade de acontecimento interior [...]. A verdadeira poesia interioriza a história”.

Ainda na clave de Starobinski, vale citar um trecho usado por Murilo Marcondes referente à ideia da poesia como testemunho: “Eu considero a forma mais completa [de testemunho] quando, os olhos abertos para o acontecimento, um poeta se funde em eternidade para elevar, ao mesmo tempo de seu eu singular e da provação compartilhada, um canto que diz o sofrimento e que dá figura a uma esperança em que todos podem se reconhecer. É de se supor que apenas aqueles cujas aventuras pessoais sejam suficientemente profundas acedam ao ponto em que o drama da história e o drama da pessoa se encontram.”

A partir desses pressupostos teóricos, Murilo Marcondes empreende a leitura atenta e minuciosa da obra de poetas que vão de Apollinaire, Wilfred Owen, Ungaretti, Mário de Andrade (todos referentes à Primeira Guerra). Em seguida pensa as circunstâncias da relação entre poetas e, por vezes, pintores (Franz Marc, que morreu no front), em relação à segunda Guerra. René Char, Éluard, Aragon, Brecht etc. Avança na análise arguta dos poetas brasileiros – sobre os quais comentaremos, por questão de espaço, apenas os capítulos sobre a poesia de guerra de Drummond e Cecília Meireles.

É o que veremos na parte dois de nosso texto.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 25/10/2016


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