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Sexta-feira, 2/5/2003
Que espécie de argumento é uma bunda?
Alexandre Soares Silva

+ de 8500 Acessos

Todas as causas que são defendidas por pessoas peladas em parques são erradas. Nenhuma causa certa é defendida por pessoas peladas em parques. Ninguém fica pelado pelo capitalismo, note. Ninguém fica pelado para protestar contra as cotas raciais. Que espécie de pessoa acha que ficar pelado é um argumento? As mesmas pessoas que são contra Washington, Israel e o Papa. Ninguém fica nu pelo Papa... Me arrisco a dizer que jamais houve um protesto de católicos pelados pela volta da missa em latim; que jamais uma senhora flácida de Ottawa tirou seu vestido de bolinhas para pedir que os padres voltem a ficar de costas para o público durante a missa. Isso prova que todas essas coisas são certas - o capitalismo, Washington, Israel, o Papa, e a missa em latim com o padre de costas - porque as pessoas que defendem essas coisas usam roupa.

Regra número um da argumentação: primeiro põe a calça.

O que me lembra: nobres pacifistas, se dependesse de vocês Saddam ainda estaria lá. Agora vistam-se e tomem vergonha.

Houve milhões de pessoas protestando a favor da guerra, só que protestaram em casa, cada uma na sua poltrona, comendo cornflakes e lendo Roger Scruton. Talvez pelados, mas caramba, estavam em casa.

Acho que o uso da nudez argumentativa não foi previsto pelos retóricos romanos; ou será que Cícero alguma vez...?

Mas sério, pacifista. Põe pelo menos a cueca.

Jornalismo
Ouvi uma vez Fernando Morais dizer que quem não se interessa por Antônio Carlos Magalhães não devia ser jornalista, devia ir fazer outra coisa. Acho que esse é exatamente o problema com o jornalismo: um monte de gente que se interessa por Antônio Carlos Magalhães.

Isso, e que são gentinha. Mesmo pessoas interessantes como Paulo Francis - cuja morte eu quase, quase chorei - quanto mais jornalista era, quanto mais da patota do Pasquim, mais acanalhado. Quem disse o que ele disse sobre Ruth Escobar (sim, ela mereceu) is no bloody gentleman.

Vejo a vida de Paulo Francis como uma luta contra o jornalismo. Daí a sua depressão de dias, depois que seu romance não vendeu o quanto queria. Sentia a necessidade de escapar desse mundo acanalhado das redações, e suspeito que queria escapar até mesmo de alguns amigos, que entrarão para alguma espécie de história só porque tiveram a sorte de viver no mesmo bairro de um gênio.

No final, se não me engano escrevendo sobre uma exposição de Matisse, Paulo Francis lamentou o tempo que tinha desperdiçado na vida, lendo e escrevendo sobre Kruschev, Jango, e outras bestas.

Foi um gênio que viveu na favela do jornalismo. Quis escapar. Morreu antes. E até hoje os jornalistinhas brasileiros reclamam de seu pseudojornalismo - como se importasse se os seus textos seguiam ou não alguma espécie de cartilha infecta do que é jornalismo. Fico imaginando se um chefinho de redação o forçasse a escrever jornalismo de verdade; ah, as almas secas, cheirando a nicotina, que falam de jornalismo como se fosse uma ciência arcana. O que ele escreveu foi simplesmente as melhores linhas do jornalismo brasileiro, e se o jornalismo o renega, fica decapitado.

Karandirooh
- (EUA, 1942) - Comédia amalucada de Howard Hawks, com roteiro de Ben Hecht. Karandirooh foi o quinto e último filme da dupla Cary Grant / Katherine Hepburn, e narra a história de Oswald Truegood (Grant), um colecionador de ovos de avestruz que é julgado e preso no Brasil por não saber dançar samba. Não perca a cena em que Grant e Hepburn escapam da prisão disfarçados de gorila. E, aconteça o que acontecer, não veja a refilmagem feita por Hector Babenco (2003), com Rodrigo Santoro no papel de Katherine Hepburn.

Coisas Interessantes
No meio de guerreiros bêbados (eis como começou a literatura, suponho) um poeta subia numa das mesas, e começava a falar de algo que prendesse a atenção de todos. Não dá para imaginar Flaubert subindo na mesa e prendendo a atenção de vikings dizendo que ia falar sobre uma empregada velhinha chamada Félicité e sua fixação com um papagaio empalhado.

Coisas interessantes, sim - isto é uma defesa das coisas interessantes na literatura. Pode parecer que ninguém é contra isso, mas na prática um monte de gente é.

Sobre isso, dois pontos de vista. O primeiro: o dos épicos, do romantismo, dos escritores policiais, da ficção científica e fantasia: que existem coisas interessantes no Universo e que é preciso escrever e ler sobre isso. Dragões, lutas de espada, tempestades no mar; deuses, demônios, anjos.

Se vai reclamar disso, reclame de Homero, de Shakespeare, de Melville.

O outro ponto de vista é que não é preciso escrever sobre coisas interessantes, e que é melhor escrever interessantemente sobre qualquer coisa. Nem todo mundo que defende isso é idiota - nem todos são cronistas desocupados sentados num banco de praça, falando sobre cocô de pomba - mas sinceramente acho que essa visão da literatura, adotada por absolutamente todos os escritores brasileiros, é responsável pelo fato de que nenhum moleque ou moleca quer ler, preferindo ver Bubblegum Crisis Tokyo 2040 na tevê.

Isso que digo é infantil, deliberadamente infantil - na literatura, como na maior parte das coisas, os gostos de um moleque são quase sempre superiores aos gostos de um adulto. Nenhum moleque vai fingir que está interessado na Macabéia. Nenhum moleque vai fingir que está interessado no problema da incomunicabilidade humana (um assunto que nunca preocupou autenticamente ninguém).

Manda o bom-senso que eu diga, e veja, estou dizendo, que uma ditadura de coisas interessantes na literatura seria opressiva e vil. Sim, seria. É preciso deixar Flaubert continuar com a sua história, que afinal é perfeita, sobre uma velhinha que (vejo-o respondendo aos vikings entediados) não, não é uma bruxa, e que tem uma obsessão por um papagaio empalhado que não, não tem poderes mágicos para prever o futuro ou derrotar esquadras inimigas.

Mas vivemos hoje numa ditadura das coisas desinteressantes ditas interessantemente - uma Ditadura de Félicité, uma Ditadura de Macabéia - e, senhores, isso é mui vil, e alguns de nós sufocamos.

Nota do Editor
Alexandre Soares Silva assina hoje o soaressilva.wunderblogs.com, ondes estes textos foram originalmente publicados.


Alexandre Soares Silva
São Paulo, 2/5/2003


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