Documentado errado | Eduardo Carvalho | Digestivo Cultural

busca | avançada
49036 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Quilombaque acolhe 'Ensaios Perversos' de fevereiro
>>> Espetáculo com Zora Santos traz a comida como arte e a arte como alimento no Sesc Avenida Paulista
>>> Kura retoma Grand Bazaar em curta temporada
>>> Dan Stulbach recebe Pedro Doria abrindo o Projeto Diálogos 2024 da CIP
>>> Brotas apresenta 2º Festival de Música Cristã
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
>>> The Nothingness Club e a mente noir de um poeta
Colunistas
Últimos Posts
>>> Bill Ackman no Lex Fridman (2024)
>>> Jensen Huang, o homem por trás da Nvidia (2023)
>>> Philip Glass tocando Opening (2024)
>>> Vision Pro, da Apple, no All-In (2024)
>>> Joel Spolsky, o fundador do Stack Overflow (2023)
>>> Pedro Cerize, o antigestor (2024)
>>> Andrej Karpathy, ex-Tesla, atual OpenAI (2022)
>>> Inteligência artificial em Davos (2024)
>>> Bill Gates entrevista Sam Altman, da OpenAI (2024)
>>> O maior programador do mundo? John Carmack (2022)
Últimos Posts
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
>>> Ícaro e Satã
>>> Ser ou parecer
>>> O laticínio do demônio
>>> Um verdadeiro romântico nunca se cala
>>> Democracia acima de tudo
>>> Podemos pegar no bufê
>>> Desobituário
>>> E no comércio da vida...
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Making it new
>>> Nick Carr sobre The Shallows
>>> O bom e velho formato site
>>> Escrever não é trabalho, é ofício
>>> A metade da vida
>>> A última discoteca básica
>>> van Gogh: Os livros amarelos
>>> A terra do nunca
>>> O maior banco digital do mundo é brasileiro (2023)
>>> Digestivo empreendedor
Mais Recentes
>>> Do Sonho às Coisas de J. C. Mariátegui pela Boitempo (2005)
>>> A Turma do Pererê: O Mais Brasileiro de Ziraldo Alves Pinto pela Nova Didática (2000)
>>> Relatos de Belcebú a su Nieto - Libro Tercero de G. Gurdjieff pela Hachette (1984)
>>> Relatos de Belcebú a su Nieto - Libro Segundo de G. Gurdjieff pela Hachette (1985)
>>> Curso de desenho e pintura - A arte de ver: luz e movimento de Varios pela Globo (1996)
>>> Uma obsessão indecente de Coleen McCullough pela Difel (1981)
>>> O Canto Da Praça de Ana María Machado pela Atica (2002)
>>> O Minotauro de Monteiro Lobato pela Pé Da Letra (2018)
>>> O flautista De Hamelin de Ciranda Cultural pela Ciranda Cultural (2014)
>>> Mahamudra Tantra de Geshe Kelsang Gyatso pela Tharpa Brasil (2006)
>>> Sherlock Holmes As Aventuras de Sherlock Holmes 586 de Arthur Conan Doyle pela Principis (2019)
>>> Não é caso para rir de Joseph Heller & Speed Vogel pela Rocco (1987)
>>> Venha Ver o Pôr do Sol e Outros Contos de Lygia Fagundes Telles pela Atica (2003)
>>> Curso de desenho e pintura - Aquarela: Impacto da cor de Varios pela Globo (1996)
>>> Histórias à Brasileira 2 586 de Ana Maria Machado pela Companhia das Letrinhas (2020)
>>> As Mentiras Que Os Homens Contam de Luis Fernando Verissimo pela Objetiva (2000)
>>> O moleiro e seus amigos de Eliane silva pela Prazer de Ler (2012)
>>> Sintaxe Da Linguagem Visual de Donis A. Dondis pela Martins Fontes (2015)
>>> Pragas e epidemias histórias de doenças infecciosas 586 de Antonio Carlos de Castro Toledo Jr. pela Folium (2006)
>>> Livro Capa Dura Literatura Estrangeira O Grande Amigo de Deus de Taylor Caldwell pela Circulo do Livro (2023)
>>> As Flores Do Mar de André Moura, Eduardo Bordoni E Fábio Muniz pela Nova Didática (2002)
>>> Para Sempre 586 de Kim Carpenter pela Novo Conceito (2012)
>>> Sherlock Holmes O Signo Dos Quatro 586 de Arthur Conan Doyle pela Principis (2020)
>>> O zollógico em festa de Evan bessa pela Imeph (2009)
>>> A Voz do Monte de Richard Simonetti pela Feb (2010)
COLUNAS

Segunda-feira, 2/6/2003
Documentado errado
Eduardo Carvalho
+ de 6300 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Começa assim, na fila do cinema: "Quero dois ingressos para Bowling for Columbine". Vocês não ouviram: digo "Columbine" mesmo, pronunciada em português, com "i" tônico, e não "columbaine", em inglês, como se convencionou chamar por aqui. Esse é o espírito do filme - e do espectador. Só o que resta é torcer para, na sala, o sujeito não sentar ao meu lado.

Mas não adianta. Ele senta. E, durante o filme inteiro, conversa com o amigo, espantado com a ousadia e a perspicácia de Micheal Moore. O que me espanta em Michael Moore, porém, desde o começo, é outra coisa: é o seu completo descaso em se apresentar razoavelmente arrumado. Ele já é gordo e feio. Poderia se vestir melhor. Ou não: porque assim está, convenhamos, muito engraçado. E o conjunto - com os óculos, a barba e o boné - é imprescindível: tudo compõe um estilo. Não fossem as aparências, Michael Moore e o seu filme não agradariam nem o mais ferrenho anti-americano. Sua estratégia publicitária é, na essência, idêntica à da Coca-Cola: Bowling for Columbine é uma estudada seqüência de imagens com a intenção de vender um produto. Só que com uma pequena diferença: Moore não identifica claramente o produto que anuncia. Acaba revelando sua própria desonestidade.

Bowling for Columbine - ou, para quem preferir, Tiros em Columbine - pretende descobrir a origem da fascinação americana por armas de fogo. E encontra diversos motivos: a violenta história americana; a paranóia da classe média; a carnificina dos filmes e jogos; o interesse de grandes empresas; etc. A conclusão de Moore é nebulosa, ou confusa - intencionalmente, talvez. Mas suas acusações são fortes e diretas. Num desenho animado, por exemplo, que Moore encaixa no filme, e atravessa rapidamente a história americana, uma mesma classe de homens brancos é acusada de "roubar homens na África" e, depois, fundar a Ku Klux Klan. Esses mesmos brancos são os que, para Moore, estão hoje trancados em casa e armados até os dentes, para se protegerem de negros e hispânicos. Ora, pois. Ou isso é uma absurda simplificação da história ou uma mentira grotesca. Ninguém razoavelmente educado cai num golpe tão bobo. Moore deveria trabalhar melhor as suas enganações.

O que, na verdade, ele até fez, em outras situações, descritas minuciosamente na Spin Sanity, na Forbes e na The New Republic. A começar pelo título do filme, que sugere que os estudantes de Columbine, antes de atacarem a escola, participaram de uma aula de boliche. Só que eles não jogaram: policiais confirmam que, naquela manhã, eles cabularam a aula. Quando Moore apresenta uma série de dados sobre a política externa norte-americana, diz que, de 2000 para 2001, os Estados Unidos doaram ao Taliban 245 milhões de dólares: mas esse dinheiro não foi diretamente para a organização, senão para programas apoiados pela ONU e por ONG´s que tentavam acabar com a fome no Afeganistão. Numa passagem, no começo do filme, Moore entra num banco, abre uma conta, e sai de lá carregando uma arma: só que a arma que o banco oferece não é entregue naquele lugar. Em outra ocasião, Moore visita uma fábrica que supostamente produz armas de destruição em massa, e insinua uma relação entre a produção de armamentos na cidade e o assassinato cometido por adolescentes. A fábrica visitada por Moore, porém, não produz mísseis nem coisa parecida, mas sim bases para lançamento de satélites de televisão. E por aí vai. Moore procura uma resposta que já sabe qual é - e a divulga para quem sabe o que vai ouvir. Não é preciso, nesse caso, nenhuma preocupação estatística.

Moore se acha muito inteligente. Sugere a um caipira alucinado que os Estados Unidos devessem se proteger de outros países adotando a estratégia de Ghandi, e resistir pacificamente a eventuais ataques estrangeiros ou terroristas. O público se diverte com a ignorância do caipira em relação a Ghandi. Essa é mais uma sutil jogada de Moore: dialogar com seus entrevistados no nível de compreensão de seu espectador. Moore, assim, reafirma a sua inteligência, elogiando implicitamente a cultura do seu público. Existe, entre Moore e o seus fãs, uma bajulação disfarçada e recíproca. Sai todo mundo da sala de cinema se achando muito mais inteligente - simplesmente porque talvez não seja tão idiota quanto o personagem ridicularizado por Michael Moore. Sinceramente - o que isso significa? Provavelmente a mesma coisa que o documentário inteiro: nada.

Não é que Michael Moore tenha escolhido a profissão errada. Na verdade, ele nem poderia ser outra coisa: seu talento publicitário é evidente. Cineasta é, para ele, a profissão ideal. Mas Moore errou na categoria: em vez de se dedicar inutilmente ao documentário, deveria preferir a comédia. E se eleger como principal ator. Moore tem ritmo e criatividade. Desconfio, porém, do motivo de sua insistência: dificilmente ele faria tanto dinheiro se parasse de divulgar sua agenda política.

Do outro lado do mundo

Nelson Freire, no piano

Esta última geração de filmes brasileiros - O Invasor, Cidade de Deus, Carandiru, etc. -, que se aproveitou de avançados recursos técnicos e de incentivos estatais à cultura, conseguiu quase somente "sensibilizar" o espectador recorrendo à pobreza caricaturada e à violência exagerada. É essa uma fórmula garantida de sucesso internacional, e, portanto, nacional também. Porque o espectador brasileiro, quando ignorante assumido, engole enlatados, ou, quando metido a intelectual, procura "alternativos". E só o que se encontra são filminhos repetidos, com uma ou outra fórmula, uma para cada estilo. Extinguindo-se, assim, o prazer da variedade. E a beleza, enfim, de um filme bom. Isso cansa.

É estranho que o espectador brasileiro - saturado, no cotidiano, de pobreza e de violência - agüente mais uma vez o espetáculo da grosseria quando sai de casa para se divertir. A tensão da realidade basta. Não é consumindo feiúras que se aprende a contemplar a beleza. Não se esculpe um espírito entupindo-o com lixo. O cinema brasileiro até pode, e deve, de vez em quando, retratar essa "outra realidade" - que nem é, para os bem informados, uma novidade surpreendente. Mas não pode ficar só nisso. Existe, afinal, digamos assim, outra realidade, e o erro sempre é, no Brasil, o de negar a diversidade - enquanto afirma descobri-la.

Por isso, e por muito mais, que Nelson Freire, o documentário de João Moreira Salles, é - para o brasileiro educado - imperdível. Porque, o que é raro, não nos trata como "burgueses alienados", e não propõe uma lição infantil. É simplesmente entretenimento, de alta categoria, que nos desliga de preocupações cotidianas transpondo-nos, suavemente, para uma atmosfera civilizada. Pode-se chamar de arte. Eu não gosto: é diversão mesmo, ou, se quiser, situa-se, equilibradamente, naquela fina fronteira, onde se encontram o prazer estético e o refinamento intelectual. Nelson Freire não é exclusividade de barbudos ou boiolas, que, saindo não sei de onde, entopem as salas de cinema de São Paulo. Sem ofensas. Mas o documentário de João Moreira Salles pode ser perfeitamente compreendido e apreciado por pessoas normais. Não se sinta excluído.

Eu, pelo menos, não me senti. Porque o próprio Nelson Freire é normal. Normal assim: ele é, incontestavelmente, um talento extraordinário, no piano, mas fuma e bebe, tímido, e assiste a musicais clássicos, na televisão, imune ao deslumbramento que afeta muitos de seus companheiros de profissão. É desarticulado no discurso e desajeitado nos modos, mas, e sempre, silenciosamente simpático. Sua calculada velocidade, no entanto, quando assume o teclado, é impressionante - e contrasta com seu temperamento pacato. Não me lembro quem, certa vez, comentou que nunca havia conversado de forma tão agradável como quando rodeado por músicos. Talvez por isto: porque alguns instrumentistas nem precisam falar. Nelson Freire corta suas frases no meio, de vez em quando. E, no documentário, ninguém sente falta: sua música, no fundo, intervêm - e é o suficiente.

A figura do pianista erudito ainda assusta, no Brasil. Enquanto traficantes são, muitas vezes - e, que eu me lembre, pelo próprio João Moreira Salles -, considerados mais interessantes, como pessoas ou personagens. Pois não são. E não são interessantes porque lhes falta humanidade. Não há como se identificar com personagens vazios. Nelson Freire humaniza Nelson Freire, e, conseqüentemente, a figura do pianista clássico, mesmo sendo ele, em certo sentido, uma exceção. Hector Babenco, em Carandiru, aproveitou os recursos dos contribuintes para mostrar que o Estado - que bancou, em parte, o seu filme -, e, portanto, a Polícia, não vale nada; e que bandidos, assassinos e traficantes também têm coração. É o que o povo, última e curiosamente, gosta de ouvir. Nelson Freire, entretanto, reconhecido no mundo inteiro, continuaria esquecido, aqui, não fosse a iniciativa de João Moreira Salles. É justamente o erudito que, nessa onda toda, quase desapareceu, entre tanto preconceito: e é afastando esse preconceito que Nelson Freire acerta o seu tom.

É verdade que, como documentário, Nelson Freire é pouco informativo, em relação à carreira do pianista, o que, para alguns espectadores, pode ser desagradável, ou decepcionante. Sua estrutura é bagunçada, os depoimentos dispersos, as cenas aleatórias. Pois não é esse necessariamente um problema técnico, senão mesmo um de catalogação. Nelson Freire é considerado um documentário por falta de opção: não pode ser uma aventura, um faroeste, uma comédia-romântica. A atenção com a beleza superou a preocupação documental. Restaram falhas. Mas, enfim, sobrou aquilo que, na confusão urbana que nos rodeia, mais nos falta: o aliviante impacto do que é bonito.


Eduardo Carvalho
São Paulo, 2/6/2003

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Verdadeiros infiltrados: em defesa de Miami Vice de Marcelo Miranda


Mais Eduardo Carvalho
Mais Acessadas de Eduardo Carvalho em 2003
01. Preconceito invertido - 4/7/2003
02. Da dificuldade de se comandar uma picanha - 25/7/2003
03. Contra os intelectuais - 12/12/2003
04. Não li em vão - 17/10/2003
05. Geração abandonada - 14/11/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/6/2003
15h18min
Falou e disse! Abração,
[Leia outros Comentários de Fabio]
11/6/2003
15h29min
Dois ótimos textos, Eduardo. Parabéns!
[Leia outros Comentários de Claudio]
14/6/2003
13h14min
Preferindo comentar sobre o nosso cinema, tenho que concordar sobre o gosto atual dos cineastas. Só realidade criminosa na telona fere, não só os olhos e ouvidos, mas principalmente - e perigosamente - a alma. Um pouco de beleza e refinamento nos roteiros, não seria nada mal.
[Leia outros Comentários de Danilo Amaral]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Maysa So Numa Multidao De Amores
Lira Neto
Globo
(2007)



Cálculos de Construcción
Manuel Company
Gustavo Gili
(1983)



Literatura Brasileira
Luís Augusto Fischer
L&pm
(2007)



O Campo Literário Moçambicano - Tradução do Espaço e Formas de Insílio
Nazir Ahmed Can
Kapulana
(2020)



Centenário do Primeiro Vôo de Avião e o seu Inventor no Brasil
Francisco Bedê
Gráfica
(2000)



O Que Realmente Acontece na Cama
Steven Carter...
Record
(2001)



Piratas do Tietê - Ano 1 nº 5 Setembro 1990 (02)
Toninho Mendes (diretor)
Não Informado



Livro de Literatura Estrangeira Um Momento Muito Longo
Silvina Bullrich
Expressão e Cultura
(1970)



A Droga do Amor
Pedro Bandeira
Moderna
(2003)



First Certificate Star
Luke Prodromou
Macmillan Heinemann
(2003)





busca | avançada
49036 visitas/dia
1,8 milhão/mês