Sobre as estátuas de Viena | Paulo Polzonoff Jr | Digestivo Cultural

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Quarta-feira, 11/7/2001
Sobre as estátuas de Viena
Paulo Polzonoff Jr

+ de 4100 Acessos

Não conheço Viena como a palma da minha mão. Pelo contrário, estive lá por cinco dias e posso dizer que pouco vi de realmente interessante sob um sol de quarenta graus, exceto pela catedral que a guerra quase matou e por um cemitério quase isolado, que se me revelou como uma das mais belas coisas que o homem já construiu para enaltecer o ato de morrer e, por consequência, o de viver.

Na verdade foi um acaso ter descoberto o cemitério. Ia embora naquele dia e estava cansado e um tanto quanto triste. Mesmo no calor Viena entristece por sua solidão. Olha-se para os lados e pensa-se: então aqui é a Solidão. Nem o Volkspark tira-nos esta impressão. Strauss era um homem triste em Viena, mas mais tristes ainda eram Bethoveen, Mozart e Freud. Por alguns dias, compartilhei desta tristeza.

E pude perceber que parte desta tristeza deve vir do cemitério. Sim, os gênios entraram no cemitério e se encontraram com as estátuas. Sentaram na grama rala, olharam em volta as árvores viçosas que se alimentavam dos cadáveres de seus amigos. E compreenderam.

O momento da compreensão é sempre o mais difícil. A boca entorta um pouco, os olhos encolhem-se e tudo fica marejado como o Danúbio. Neste instante, as estátuas começam a falar e você, quase sem querer, com elas está dialogando um diálogo de pedra e de eternidade. Não faço aqui um guia turístico porque sei serem poucos os que são iluminados pelo silêncio das estátuas do cemitério em Viena. É preciso um conjunto de fatores que o eleva como a um monge budista e o faz tocar fogo em sua alma em frente às câmeras de Deus, para renascer, súbito.

Há ainda aqueles que, num primeiro momento, desdenham para as estátuas. Cá está um deles a lhes narrar esta história. Sentei-me num dos muitos bancos. Sabia que dali podia-se sentir algo mais do que a morte centenária das lápides. E bastou-me olhar uma mulher para saber o que era.

Se você, leitor, estiver achando mórbido demais esta história de falar sobre as estátuas de um cemitério em Viena, tenho de lhe avisar que começou o tão esperado capítulo da novela, no qual sicrano diz que ama fulana. Imperdível.

Voltando ao cemitério: quando eu a vi inúmeras foram as comparações que fiz. Primeiro pensei nas estátuas greco-romanas, mas, ora, que comparação mais pífia eu poderia fazer! Aquele monte de japonês tirando foto de uma estátua greco-romana não fazia jus a ela. Então procurei nos desvãos de minha memória algo tão forte e belo. Claro, Beethoven. Claro, A Nona Sinfonia. Ainda assim eu estava num plano inferior aos olhos. Muitos pensam que a Nona de Beethoven não ouve, quando na verdade seu único defeito é não enxergar.

Numa noite triste, contudo, a quilômetros do cemitério em Viena, compreendi que ela se assemelhava não a uma, mas a todas as estátuas daquele cemitério. Mais: ela era a grama rala, os tipos deteriorados das lápides, os chorões convidando ao abrigo, as raízes profanando túmulos. Ah, eu disse noite triste e todos já vão pensar que a tristeza é destas coisas que fazem a gente pensar em morrer. Enganam-se, os ingênuos: a tristeza é o que nos faz não pensar ou, pior, pensar que somos felizes.

Triste sim, não porque eu ousasse não pensar (é defeito conhecido que penso demais), mas porque deixei-me, naquela hora, iludir-me com a idéia da felicidade. E sobre este termo tenho mais ainda a dizer, porque é a ele que está ligada a idéia das estátuas do cemitério de Viena.

Mais um aviso ao leitor, que teve paciência de até aqui chegar. Se para o senhor a felicidade é tão-somente rir diante de uma piada, corra que o senhor ainda pode pegar a segunda parte daquele filme legal com aquele ator legal. Corre!

Pois bem. A felicidade às vezes está num olhar melancólico. Há inúmeras mulheres que vejo pela rua e tenho a intenção de interpelá-las e perguntar-lhes o porquê da melancolia, o porquê daquela felicidade que, bem sei, ela não vai notar, porque está mais preocupada em cuidar de suas olheiras e de sua maquiagem prestes a borrar por conta do choro que escorrerá lindo pela face rosada que odeia. Oh, meu Deus, por que me deste a percepção da melancolia, a adoração da melancolia, a paixão da melancolia? Destas mulheres, muitas chegarão em casa e deitarão em suas camas e pensarão que são infelizes. Até verem as estátuas de Viena, claro.

Aproximar-se, por exemplo, de um anjo, só é possível neste cemitério - e depois da "iluminação". Dele estive perto, contemplei-lhe o olho caído, o queixo quase a encostar no peito, as asas sem vida. E sob este anjo, tão divinamente melancólico, o túmulo de um nome alemão que desconheço, mas cujos restos, sob a terra, exalavam um sincero ar de felicidade. O anjo estava rente ao muro e sua expressão era de uma resignação acalentadora. Assim são os colos das mães e das mulheres após o amor: acalentadores. Como o olhar daquele anjo.

Um anjo, contudo, é um ser que às vezes pode ser traiçoeiro. Melhor pensarmos nas figuras infantis que enfeitam os túmulos daquele cemitério em Viena. Por Deus, não há lugar onde a vida se faça tão expressiva quanto naquele anjo balofo e morto sobre o túmulo de uma criança, pela qual desesperou-se a mãe!

Aqui já bastaria para dar um exemplo da felicidade que é poder compará-la sutilmente ao cemitério de Viena. Sua doce melancolia, seus olhos fundos e sem explicação, seu sorriso travesso, seu andar maduro, sua voz que conflui para um sinfonia de Tchaikovsky, por mais que dele desgostem os experts. Sua melancolia é como aquele quadro de Hopper sobre o qual falávamos naquela noite: uma mulher em tons de verde, segurando um papel, provavelmente uma carta, decidindo ir embora para sempre daquele quarto de hotel, guardar num porão no lóbulo temporal direito todas as agruras e até mesmo todas as alegrias daquele dia, concluindo, por fim, que a vida vale a pena, nem que seja para, num átimo, estar sob as estátuas num cemitério remoto em Viena.

Esqueci de mencionar outra figura comum entre as ruelas esverdeadas do cemitério: a donzela. Pelo menos imagino ser uma donzela. É uma figura sempre quebrada: faltam-lhe os braços ou a cabeça ou ambos. Pode-se perceber um capuz que se transforma num manto escondendo as omoplatas. O olhar é como o do anjo: baixo. É tão pungente o seu sofrer que não condenaria um vândalo que porventura a destruísse. Eu quero ver uma lágrima de sangue sair dos olhos pétreos da donzela, mas tudo que vejo são fungos e uma boca para sempre silenciosa, num lamento profundo, sobre o qual nossa percepção diz muito pouco. Esta donzela é a beleza em seu estado maior. Deve ter sido feita às dúzias por um escultor qualquer. Não tem beleza diante de turistas japoneses no Louvre. Sobre aquele túmulo, contudo, é sublime.

Assim encerro este texto que fala das estátuas do cemitério de Viena e do jeito como a tristeza pode ser subvertida em seu significado mais vulgar. Foi pensando nisso tudo, foi lhe beijando e pensando naquele maldito poeta cujo nome sempre me escapa e que disse uma vez que quem ama por uma noite ama eternamente, foi assim que lhe disse que queria te fazer feliz.

Queria muito. Mas como isto não é possível, porque somos dois seres melancólicos, queria fazer com que sua melancolia fosse a mais linda de todas as tristezas que já vi e vivi. Queria que sua melancolia se parecesse com as eternas estátuas dos túmulos de Viena. Queria que as mulheres, num futuro, brancas e pálidas e tristes, com olhos verdes mais tristes que os seus, invejassem-na porque você teve a mim, um homem que fez de sua melancolia sinônimo subvertido da felicidade.



Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 11/7/2001


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