Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor | Daniel Aurelio | Digestivo Cultural

busca | avançada
42881 visitas/dia
1,2 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Sexta-feira, 7/11/2003
Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor
Daniel Aurelio

+ de 15800 Acessos
+ 3 Comentário(s)

A primeira das sete vezes em que li "A Hora do Amor", do romancista Álvaro Cardoso Gomes, foi por urgência. Aos doze anos, eu não passava de um mau aluno estudando em uma má escola pública, que ladeava suas divisas territoriais com o que havia de menos dócil na periferia. Eu tinha tudo para dar errado.

Minha mãe fora convocada pela diretoria da EMPG. Motivo de briga, eu acho. Eu tinha tudo para dar errado, mas ainda sim me pelava com as chineladas maternas. Um completo merdinha. Um merdinha que, apesar dos pesares, consumia sozinho uma página semanal do controle de empréstimos na biblioteca.

Eu precisava despistar o temor. Melhor que ela chegasse logo, com os ouvidos ainda queimando expurgos contra o caçula da prole, que o ínterim é de uma angústia atroz. Precisava ler qualquer coisa. E na estante do meu irmão desbotava-se o livro, herança das obrigações de sua oitava série. Gostei do título: ouvia muita música romântica, Michael Bolton, essas coisas. Naturalmente, eu estava apaixonado pela garota mais bonita da sala, e cultivava uma foto sua - tirada por um amigo numa dessas Cânon antiqüíssimas, toda disforme - debaixo da gaveta de cuecas. Nunca escondi que sou um cara comum, escrevendo sobre coisas comuns. E um cara comum se apaixona pela garota mais bonita da sala, perdendo o foco da lousa a cada trinta segundos. A "Hora do Amor" parecia um título animador.

Não escapuli do merecido castigo. E a leitura não me tele-transportou para paraísos infinitos e multicoloridos, como insinuava uma antiga propaganda do Ministério da Cultura. Não é estritamente necessário perpetrar espaços metafísicos para achar beleza e encantamento. O amor interiorano-interiorizado de Beto e Lúcia Helena fincou meus dois pés no firmamento. O tal cavalgar no arco íris de Bandeira começava a fazer sentido.

A história descrevia a sessentista Americana dos bailinhos, sorvetes, estilingues e pés de goiabeira no quintal, uma excentricidade para quem nasceu e cresceu em uma metrópole cinza-chumbo, amotinado defronte a tv e o vídeo-game.

Eu nunca soube dependurar-me em árvores.

Que faz de um enredo simples e reiterado - a paixão juvenil - arrebatador a ponto de sobressaltar-se na avalanche de paradidáticos despejados a cada temporada no mercado de livros?

A resposta, em parte, está na biografia do autor, ali no ano de nascimento: 1944. Cardoso Gomes atravessou sua juventude no período, um fator que, se não serve de regra inflexível para a construção minuciosa de um cenário, tem a seu favor a placidez da reminiscência pessoal, a pincelada de emotividade que uma obra do gênero pressupõe. Tendo um infanto-juvenil escrito e engavetado pela ditadura da "linha editorial", atesto o quão saboroso é embrenhar-se por um tempo que lhe pertenceu quando moleque.

Outro aspecto importante, e que não costuma ser privilegiado na escolha do catálogo das editoras especializadas - a julgar pela predileção por contadores de causos operários, ou seja, com metas de publicação a bater - é o refinamento do autor. E Álvaro Cardoso Gomes é um de nossos melhores prosadores, constituindo uma sólida trajetória na literatura adulta, apesar de ser deletado do senso coletivo e reconhecido por uma minoria de iniciados.

Ao cerrar seu mundinho em códigos datados, a obra abarca um mundaréu jovem com o mínimo tino para a leitura. Não é preciso saber quem foi Sivuca para tornar-se cúmplice das desventuras do protagonista.

O traço econômico, marcado por pontuações rápidas e capítulos curtos é a estrutura perfeita para o desfile de preocupações que marcam Cardoso Gomes e seus pares contemporâneos. A sisudez do sistema de ensino - historicamente incapaz de lidar com a adolescência - e os pudores silenciosos das relações familiares, no ato contínuo de castrar-se o indivíduo em um meio marcado pelo rigor e zelo ao "futuro do menino". E Beto encontrara o amor. Mas também os padrões de ascensão social, como a figura fraudulenta do Tagliato, premiado com um dez por uma redação escrita pelo pai, toda ela recheada de inofensivo parnasianismo, enquanto o potencial inventivo de Beto, insinuado em diversas passagens do livro, era tomado - aos gritos pelo mestre - como personificação do blasfemo. E tinha o Mário António, seu algoz. O cara que roubara sua paixão de tímido flerte, a Lúcia Helena.

Impossível não reconhecer um Mário António por ai, com sua pose galante e narcíseo ao limite. Não que Mário António fosse uma figura do mal, apesar de nos compadecermos pelo Beto: o antagonista era um cidadão sem crimes, sugado pela mentira de sucesso que projeta aos outros e seguramente deve ter tido, a despeito de sua clamorosa superficialidade, uma vida tranqüila mais para frente, com as nádegas a esquentar alguma cadeira de escritório. No teatro da vida, Beto ousara amar. E respeitar a inteligência da amada, desvelando-se um rapaz confuso, sem saber ao certo como dançar a música tão apreciada pelos convivas.

E foi o cosmopolita e letrado Lelo, seu irmão mais velho, quem ensinou o significado da palavra marginal. No sentido amplo e restrito. E também o apresentou à "literatura proibida" de Julio Ribeiro e Balzac. Beto adorou saber disso. Por breve interlúdio, acabou marginal restrito e não é difícil entender o por quê.

O mocinho errante encontrou seu rumo e, no vagão de trem que rumava para a capital, a Lucia Helena. Se nos sentimos vingados por ele, sabemos também que ali se encontrava, nos braços de sua enamorada garota, o "homem mais feliz do mundo". O começo do fim. O cidadão enlaçado. Não pelo amor. Mas pela via de tráfego mais fácil. O Beto é um cara comum, que optou pela honradez de uma boa noite de sono ao carnaval que sempre tem um fim. Sou mais Beto que Mário António. Só não sei isso é alguma vantagem.

E desde então que peguei essa mania de, ao entrar em desatino, abrir um livro desconhecido. Mania boa essa a minha.

Para ir além






Daniel Aurelio
São Paulo, 7/11/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. 29ª Bienal de São Paulo: a politica da arte de Jardel Dias Cavalcanti
02. 10º Búzios Jazz e Blues de Marília Almeida
03. 5º Rio das Ostras Jazz & Blues de Marília Almeida
04. Sexo, drogas e rock’n’roll de Marcelo Spalding
05. Leituras, leitores e livros – Final de Ana Elisa Ribeiro


Mais Daniel Aurelio
Mais Acessadas de Daniel Aurelio em 2003
01. Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor - 7/11/2003
02. Canto Infantil Nº 1: É Proibido Miar - 26/9/2003
03. O Sociólogo Machado de Assis - 5/9/2003
04. O Calígrafo de Voltaire - 13/6/2003
05. Elogio Discreto: Lorena Calábria e Roland Barthes - 19/12/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/11/2003
15h26min
Daniel: Fiquei sensibilizado com seu texto sobre meu despretensioso "A hora do amor" que, apesar dos pesares, virou um best seller. Por que será? Sei lá, talvez por algumas das coisas que você tão bem aponta. Foi mesmo um prazer lê-lo. Um abraço do Álvaro Cardoso Gomes
[Leia outros Comentários de Álvaro Cardoso Gomes]
11/6/2004
17h51min
Daniel você não é o unico que leu esse livro a força. No meu caso(há anos) foi quase que por acaso e hoje é o meu livro de cabeceira, que me deixa calmo e me faz esquecer da correria do dia-a-dia de nossas cidades grandes. Já perdi as contas de quantas vezes li esse livro e toda a vez que eu o leio faz parecer que é a primeira vez (dou risadas sozinho, choro, fico com raiva do Mario Antonio...) e minha esposa pergunta mais uma vez: vai ler de novo este livro?
[Leia outros Comentários de Wellington Farias]
25/8/2009
19h36min
Adorei lê-lo! Dava altas risadas, entrei na história mesmo... amei! :D Queria saber se tem o número 2 dele :X Qualquer coisa, me avisa? Abraço *-*
[Leia outros Comentários de Maria Izabel]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




LIBERDADE PARA APRENDER
CARL R. BORGES
INTERLIVROS
(1978)
R$ 55,00



OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO
ITALO MORICONI; DIVERSOS AUTORES
OBJETIVA
(2001)
R$ 10,00



O NOVO PROCESSO CIVIL BRASILEIRO
ALEXANDRE FREITAS CÂMARA
ATLAS
(2016)
R$ 110,00



LUTAS SOCIAIS NA ROMA ANTIGA
LEON BLCH
EUROPA AMÉRICA
(1991)
R$ 10,00



CINEMA NO DIVÃ - GRANDES FILMES EM ANÁLISE
DANIT FALBEL PONDÉ
LEYA
(2015)
R$ 24,00



A TURMA QUE NÃO ESCREVIA DIREITO
MARC WEINGARTEN
RECORD
(2010)
R$ 20,00



SUPER INTERESSANTE Nº 2 ESTE ROBÔ QUER A MAMÃE
VÁRIOS AUTORES
ABRIL
(1995)
R$ 9,90



AL PIE DE LA LETRA GEOGRAFÍA FANTÁSTICA DEL ALFABETO ESPAÑOL ...
VARIOS
CAJA DUERO
(2001)
R$ 80,00



NUVEM DE PÓ
PRISCILA FERRAZ
MARCO ZERO
(2008)
R$ 8,90



REGULAÇÃO PÚBLICA DA ECONOMIA NO BRASIL
ROGÉRIO EMILIO DE ANDRADE
EDICAMP
(2003)
R$ 30,00





busca | avançada
42881 visitas/dia
1,2 milhão/mês