As Mil e Uma Noites de Nélida | Luis Eduardo Matta | Digestivo Cultural

busca | avançada
62663 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 11/5/2004
As Mil e Uma Noites de Nélida
Luis Eduardo Matta

+ de 11000 Acessos

Um clássico da Literatura árabe e uma das peças literárias mais fascinantes de todos os tempos, a coletânea de contos de As Mil e Uma Noites atravessou séculos encantando gerações com a atmosfera inebriante e sedutora de um Oriente longínquo, mágico e quase mítico. O Califa de Bagdá, após descobrir a infidelidade da sua esposa que o traíra com um escravo, a mata e decide vingar-se de todas as donzelas do reino, deitando-se com uma a cada noite e assassinando-as no dia seguinte. A filha do Vizir, a, sagaz e impetuosa Scherezade, a mais linda princesa da corte, decide arriscar a própria vida para por um fim a essa matança indiscriminada e oferece-se para passar uma noite com o soberano, pedindo-lhe, apenas, a companhia de sua irmã, Dinazarda na câmara nupcial. O Califa concorda e, no meio da noite, Dinazarda, obedecendo ao plano previamente arquitetado pela irmã, pede a Scherezade que lhe conte uma de suas fábulas maravilhosas. Seduzido pela narrativa, o Califa adia a execução da jovem por um dia a fim de poder conhecer o seu final. No entanto, a habilidade de Scherezade em contar histórias, aliada a uma bem urdida tática de sempre reservar o desfecho para a noite seguinte a fim de atiçar a curiosidade do soberano, faz com que sua morte seja postergada indefinidamente por mil e uma noites, ao término das quais o Califa, irremediavelmente apaixonado pela jovem, renuncia à sua sede de vingança.

Símbolo da tradição oral dos povos muçulmanos, a maior parte das histórias de As Mil e Uma Noites teria sido redigida no Egito no século XIV e sua primeira versão para o Ocidente, realizada pelo francês Antoine Galland, data do XVII. Por se tratar de uma obra tão antiga e cativante - e, por isso mesmo, já suficientemente explorada por escritores, dramaturgos e artistas em todo o mundo - debruçar-se sobre ela com o intuito de recontá-la sem cair na armadilha da repetição fácil, é um desafio com enormes chances de fracasso. É preciso que o autor possua uma sensibilidade e um talento imaginativo tão extraordinários quanto os da própria Scherezade, além de uma profunda intimidade com a natureza da obra e das suas personagens, para conseguir recriá-las de forma lúdica e atraente sem, contudo, trair a sua essência original.

Com a recente publicação do romance Vozes do Deserto (Record; 352 páginas; 2004), a escritora e acadêmica Nélida Piñon foi além dessas expectativas e brindou os leitores com um verdadeiro tratado sobre o exercício da criação literária, ao magnificar duas das grandes metáforas presentes na história: a relação entre autor e leitor - representados respectivamente por Scherezade e pelo Califa - e a própria formação do escritor e o gradual aprimoramento da sua técnica, simbolizados pelas noites seguidas nas quais a princesa tenta seduzir o soberano com suas fábulas, pondo repetidamente à prova a sua capacidade imaginativa. Dessa forma, Nélida expõe com rara habilidade todos os mistérios, dilemas e angústias inerentes ao ofício literário, que vão desde a escrita propriamente dita até o desafio de cativar leitores através das palavras, convidando-os a abrir mão, por alguns instantes, da realidade e imergir no universo onírico da ficção. Uma bela homenagem da autora à arte milenar de contar histórias.

Valendo-se da linguagem elegante, refinada e fluente característica dos seus livros, como A República dos Sonhos e A Casa da Paixão, Nélida transpõe com maestria a história, originalmente ambientada na Pérsia, para a esplendorosa e vibrante Bagdá do apogeu do Califado Abássida. A escritora dedicou cinco anos ao estudo minucioso da história e da cultura árabe e islâmica a fim de reproduzir com fidelidade atmosfera, hábitos e sensações do Oriente Médio de mil anos atrás, tomando, porém, o cuidado de não lotear o livro com informações em excesso, uma verdadeira tentação para os escritores às voltas com pesquisas aprofundadas, longas e, muitas vezes, apaixonantes. É justamente nesse ponto que reside, a meu ver, um dos maiores méritos do livro: o seu caráter inovador dentro do contexto da Literatura brasileira. Ao optar pelo Oriente Médio medieval como cenário de seu livro - uma região pródiga e extraordinária na criação, a começar pela invenção do Deus monoteísta, segundo a própria escritora - Nélida Piñon contrariou uma espécie de regra informal vigente entre os escritores brasileiros de, unicamente, conceber livros sobre o Brasil, ambientados no Brasil ou, ao menos, protagonizados por brasileiros, sob pena de terem os seus trabalhos tachados como pastiches sem identidade. O Brasil, talvez por conta da sua eterna e insaciável busca por uma imagem e um sentido que satisfaçam aos anseios das elites e dos intelectuais e, ao mesmo tempo, se ajustem à realidade nacional sem mais ousar adaptá-la a um desejado e inacessível modelo puramente europeu, sempre desprezou aqueles que buscaram lançar um olhar para além das nossas fronteiras, provavelmente por julgar que temos muitos problemas por aqui que necessitam ser continuamente debatidos e aprofundados. Não deixa de haver uma certa lógica neste raciocínio, ainda mais se considerarmos que os grandes cérebros são escassos em nosso país, mas a Literatura e a arte de um modo geral, não podem se deixar confinar por esses limites, pois isso vai contra a sua natureza insubordinada e liberta. Uma obra como a monumental O Último Refúgio, da inglesa M. M. Kaye, uma saga apaixonante ambientada na Índia da segunda metade do século XIX e um dos melhores romances lidos por mim até hoje, certamente jamais alcançaria a projeção que alcançou, caso houvesse sido escrita por um brasileiro (e, naturalmente, encontrasse alguma editora disposta a lançá-la). Da mesma forma, o peruano Mario Vargas Llosa não conseguiria publicar autênticas obras-primas como A Festa do Bode (passado na República Dominicana do ditador Trujillo) ou A Guerra do Fim do Mundo (sobre o conflito de Canudos), nem Shakespeare teria escrito peças célebres do quilate de Romeu e Julieta e Hamlet, se vivessem no Brasil, pois o patrulhamento intelectual disfarçado de patriotismo não permitiria.

Se bem que, se pensarmos com cuidado, tanta artilharia não encontraria munição suficiente no caso particular de Vozes do Deserto, uma vez que a saga de Scherezade não é exclusiva dos povos árabes; ela pertence a todos que prezam a imaginação e o fabulário como patrimônios intransferíveis do homem. Inclusive, mostrando através de histórias como as de Aladim, Simbad e Ali Babá que não há fronteiras para o exercício da criação. Vozes do Deserto, além de um romance primoroso, funciona como uma aula sobre a prática de narrar, de inventar, de não ter pudores em mergulhar no mundo da imaginação e da fantasia. Todo ficcionista que der as mãos a Nélida Piñon e a Scherezade e se entregar com atenção e arrebatamento às páginas deste livro, certamente terminará a leitura com um sorriso no rosto e a certeza de ter auferido um inestimável conhecimento técnico e sensorial a partir da experiência da mais célebre contadora de histórias da Literatura universal.

Para ir além






Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 11/5/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Crônica de um jantar em São Paulo de Elisa Andrade Buzzo
02. A lei da palmada: entre tapas e beijos de Débora Carvalho
03. Tiros, Pedras e Ocupação na USP de Duanne Ribeiro
04. O beatle George de Luiz Rebinski Junior
05. Professoras, maçãs e outras tentações de Ana Elisa Ribeiro


Mais Luis Eduardo Matta

colunista_mais_acessadas_query=SELECT colunistas.iniciais, colunas.ano, colunas.acessos, colunas.codigo, colunas.titulo, colunas.dia, colunas.mes FROM chamadas, colunas, colunistas WHERE colunas.codigo = chamadas.coluna AND colunas.colunista = colunistas.codigo AND colunistas.iniciais = 'LEM' AND colunas.ano = 2004 ORDER BY colunas.acessos DESC LIMIT 10 Mais Acessadas de Luis Eduardo Matta em 2004
01. Os desafios de publicar o primeiro livro - 23/3/2004
02. A difícil arte de viver em sociedade - 2/11/2004
03. Beirute: o renascimento da Paris do Oriente - 16/11/2004
04. A discreta crise criativa das novelas brasileiras - 17/2/2004
05. Deitado eternamente em divã esplêndido – Parte 1 - 13/7/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O DIABO NUNCA DORME
DANIEL RHODES - PINHEIRO DE LEMO
CASA MARIA
(1989)
R$ 5,00



NATURAL GOLF 9939
SAM SNEAD
A S BARNES
(1953)
R$ 23,00



ALTMAN ON ALTMAN
DAVID THOMPSON
FABER AND FABER
(2006)
R$ 40,00



CONTOS DE PERRAULT - CLÁSSICOS DA INFÂNCIA
VÁRIOS AUTORES
CÍRCULO DO LIVRO
(1995)
R$ 9,80



CONTRATOS INTERNACIONAIS- DIREITO
LUIZ OLAVO BAPTISTA
LEX MAGISTER
R$ 25,00



LOVE AND RESPONSIBILITY
KAROL WOJTYLA ( JOHN PAUL II)
FARRAR STRAUS GIROUX
(1994)
R$ 45,28



GEOGRAFIA GERAL E DO BRASIL 8 - BNCC
EUSTAQUIO DE SENE/ JOAO CARLOS MOREIRA
SCIPIONE
(2019)
R$ 169,90



DIGA ADEUS AO VELHO ARISTÓTELES
WILSON DAHER
FLOR DE LYS
(1997)
R$ 12,00



ANDORINHA
MANUEL BANDEIRA
LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO
(1966)
R$ 150,00



O SABOR DO CHURRASCO
CARLOS GABRIEL
MELHORAMENTOS
(2005)
R$ 20,93





busca | avançada
62663 visitas/dia
2,6 milhões/mês