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Terça-feira, 3/8/2004
A Ditadura e seus personagens (II)
Fabio Silvestre Cardoso

+ de 3500 Acessos

Sobre o ex-presidente da República João Belchior Marques Goulart (1919-1976) existem algumas "teorias". De um lado, há quem o considere um líder fraco, e a prova disso seriam os acontecimentos subseqüentes ao seu mandato como presidente do Brasil. Por outro lado, há quem o julgue jovem e lutador, tendo sido deposto quando quis fazer as reformas de base no País. A fim de esclarecer o que há de fato e o que há de ficção por trás dessas "teses", o historiador Marco Antonio Villa assina Jango: um perfil (Ed. Globo, 287 págs.). Trata-se, com efeito, não apenas da trajetória de eminentes políticos no Brasil do século XX, mas também de uma versão até agora não contada dos momentos que precederam a entrada da Ditadura Militar no país. Afora isso, a obra serve para esclarecer, uma vez mais, que o Golpe de 64 não nasceu da noite para o dia, ao contrário do que muitos ainda imaginam.

Como não poderia deixar de ser, o autor, de início, discorre acerca da infância e da adolescência de João Goulart. Nessa primeira parte, ainda que discretamente, o leitor começa a travar contato com algumas peculiaridades de Jango, em especial seu apreço pelas mulheres (um dos folclores bastante cultivados sobre João Goulart). Descobre-se, também, que nos seus primeiros anos a verve política de Jango não era muito desenvolvida. O autor explica, inclusive, que o então fazendeiro só se envolveu com política por acaso: "Dois acontecimentos mudaram a vida de Jango. Um, na esfera política: a queda de Getúlio em 29 de Outubro de 1945; outro, na esfera privada: a morte de Getúlio Vargas Filho, dois anos antes, aos 25 anos de idade". Aos poucos, a participação política de Jango cresce até ele se tornar o principal interlocutor político de Vargas.

No entanto, mesmo após ter alcançado o posto de Deputado Estadual nas eleições de 1947, Goulart não foi um parlamentar importante. Segundo Villa: "[Jango] Não era, certamente, um homem talhado para as discussões parlamentares e, durante os dois anos de mandato, ficou muito mais em São Borja do que em Porto Alegre". Nesse sentido, é curioso observar que o homem que seria "ungido" como o sucessor político de Vargas não tivesse o mínimo talento para a atuação administrativa e burocrática, preferindo atuar no campo do lobby e dos interesses políticos. De fato, esta é uma característica marcante da persona de João Goulart. Tome-se como exemplo sua participação não menos discreta nos governos de Getúlio - que se suicidaria em 1954 - e Juscelino Kubitschek - de quem foi vice-presidente.

Embora o historiador demarque, ainda no título, o período (1945-1964) em que analisará a vida política de Jango, é correto afirmar que a partir da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, o livro traz uma descrição mais detalhada dos meandros do governo e da política brasileira. E é nesse panorama que ganha destaque o "personagem" João Goulart, não porque o autor decide esmiuçar a vida particular do perfilado, mas sim porque o autor faz um trabalho de análise diária da atuação de Jango a partir de agosto de 61. Dessa maneira, Villa consegue mostrar a personalidade de Jango a partir de suas movimentações políticas.

Exemplo disso é quando o autor esclarece os acontecimentos subseqüentes à renúncia de Jânio. No dia da renúncia, Jango estava em viagem à China. No Brasil, os políticos e militares estavam divididos no que se refere à atitude a ser tomada. De um lado, havia aqueles que acreditavam que Jango deveria assumir, conforme estava previsto na Constituição. Os militares, por sua vez, queriam impedir a posse a todo custo. Jango, o único que poderia decidir o rumo nação, escolheu um caminho apoiado por uma minoria: o parlamentarismo. A decisão foi muito mal recebida pela classe política e pelo povo, que esperava que Jango assumisse a presidência sem concessões a qualquer outro grupo. Nas palavras de Villa: "Quando voltou ao território nacional, Jango contava com o respaldo de grande parte do Exército e com enorme apoio popular (...) 81% dos eleitores eram favoráveis à posse de Goulart sem parlamentarismo, 10% a defendiam com parlamentarismo e somente 9% eram a favor do impedimento do presidente".

Entretanto, o que parecia uma manobra ingênua não passava de uma estratégia de Jango para esvaziar aqueles que desejavam dividir o poder com ele. Nesse ponto, o ingênuo político (como insinuavam alguns dos seus inimigos) que deixou de assumir a presidência com plenos poderes, nos braços do povo, soube manipular as peças do jogo do poder - não sossegou enquanto não arrumou um plebiscito - e sair do parlamentarismo para regressar ao presidencialismo como forma de governo. Segundo o autor: "finalmente, 16 meses depois de ter chegado ao palácio do Planalto, estava próximo de gozar o que tanto almejava: o pleno exercício do poder". Essa, talvez, tenha sido sua única "vitória" como líder político.

Para Goulart, 1962 não poderia ter começado melhor. Porém, essa autoconfiança parece ter sido um dos caminhos para a ruína do seu governo. Pois, como queria se manter em pé com apoio tanto da direita quanto da esquerda, Jango fez uma política de ziguezague, o que a longo prazo provou ser uma péssima idéia, visto que não era possível agradar a todos ao mesmo tempo. Com isso, não demorou muito para que começassem a surgir as insurreições e as tentativas frustradas de Golpe, esse último um estado de sítio proposto pelo próprio presidente.

É preciso mencionar, além disso, o fato de os militares, em quem Jango depositava enorme confiança, também não estarem contentes com o governo. Segundo as Forças Armadas, havia muita influência do comunismo na gestão de Goulart. Da mesma forma, os EUA cobravam do governo brasileiro uma postura mais firme no que se refere ao combate ao comunismo, a ponto de os norte-americanos dizerem: "logo chegará o momento em que teremos de perguntar a nós mesmos se é do nosso próprio interesse que Goulart continue a cambalear até o fim do seu mandato em 1965 [...] ou se nossos interesses seriam mais bem servidos se Goulart fosse 'aposentado' do governo antes da data marcada". De acordo com a análise de Villa, todos esses elementos foram importantes para minar a credibilidade e a governabilidade de João Goulart ao longo de 1962 e 1963.

Em 1964, cada vez mais sem legitimidade política, e com os índices de desenvolvimento pífios, Jango parecia não ver que os movimentos pró-golpe cresciam a dia após dia e insistia com a cantilena das reformas de base. Na esquerda, na direita e também com os militares. Até mesmo os norte-americanos, conforme anota o historiador, estavam cientes disso: "Diferentemente de outros países latino-americanos, onde os diplomatas americanos tiveram até de organizar os golpistas para derrubar os governos que não agradavam a Washington, no Brasil, a oferta golpista era tão farta que o maior problema foi evitar a sobreposição de esforços". Nesse ínterim, Jango deu uma guinada populista em suas ações, bem como nos discursos na Central do Brasil e no Automóvel Clube do Brasil. Esse último foi o epílogo de sua trajetória como presidente. Para Villa, o discurso "empurrava os militares indecisos para derrubar Goulart".

No perfil que Marco Antonio Villa traça de João Goulart, pode-se dizer que, em meio às idas e vindas, aos freqüentes e inusitados recomeços, assim como face à visível falta de liderança na função (para Lincoln Gordon, o ex-presidente era uma rolha balançando na água), João Goulart foi um líder que teve uma única preocupação enquanto esteve na presidência: manter-se no cargo. Por esse motivo, suas reformas de base não saíram do papel e seus discursos não surtiram efeito sob o ponto de vista pragmático. A propósito, a definição de Brizola não poderia ser mais precisa: "um homem que amava o poder, mas que detestava governar".

Para ir além






Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 3/8/2004


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