Sobre o Oscar 2006 | Marcelo Miranda | Digestivo Cultural

busca | avançada
79202 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> 7ª edição do Fest Rio Judaico acontece no domingo (16 de junho)
>>> Instituto SYN realiza 4ª edição da campanha de arrecadação de agasalhos no RJ
>>> O futuro da inteligência artificial: romance do escritor paranaense Roger Dörl, radicado em Brasília
>>> Cursos de férias: São Paulo Escola De Dança abre inscrições para extensão cultural
>>> Doc 'Sin Embargo, uma Utopia' maestro Kleber Mazziero em Cuba
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
Últimos Posts
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Bate-papo com Jeanette Rozsas
>>> Mais Kaizen
>>> O Cabotino reloaded
>>> Deleter
>>> O roteirista profissional: televisão e cinema
>>> Clínica de Guitarra de Brasil
>>> Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum
>>> Circo Roda Brasil
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães
Mais Recentes
>>> Prehistoric Animals (ages 4, Back Pack Books) de Philippe Legendre pela Walter Foster Publishing , Inc (2002)
>>> The Battle Of Kursk de Richard Harrison pela Helion And Company (2016)
>>> Disney Frozen - Uma aventura congelante de Abril pela Abril
>>> Geração Alpha Portugues 7 Ed 2019 - Bncc de Cibele Lopresti Costa pela Sm (2019)
>>> Resistindo à Pressão dos Colegas de Jim Auer pela Paulus (2012)
>>> Os Cinco Príncípios Essenciais De Napoleon Hill de Napoleon Hill pela Citadel Press (2022)
>>> Porque podemos viver 120 anos de Erik Frontier pela Germinando (2004)
>>> Que Sera (spanish Edition) de Michael Dertouzos pela Planeta (1997)
>>> Conexões Com A Física 3║ Ano de Blaidi Sant Anna pela Moderna (didaticos) (2010)
>>> The Real History Of The Vietnam War: A New Look At The Past de Alan Axelrod pela Sterling (2013)
>>> Roma Antiga de Companhia pela Companhia Das Letrinhas (2007)
>>> Educação Através do Teatro de Hilton Carlos de Araujo pela Editex (1974)
>>> Livro Democracia E Defesa Nacional: A Criacâo Do Ministério Da Defesa Na Presidência De FHC de Eliézer Rizzo De Oliveira pela Manole (2005)
>>> Projeto de vida e atitude empreendedora 6 de Leo Fraiman pela Ftd (2020)
>>> Fighting For The Soviet Motherland: Recollections From The Eastern Front de Dmitriy Loza pela University Of Nebraska Press (1998)
>>> Hora De Alimentar As Serpentes de Marina Colasanti pela Global (2013)
>>> Fast food around the world de Red Ballon pela Red Ballon
>>> Escolhas Que Brilham de Silvia (camila Mesquita, Illus.) Camossa pela Callis
>>> Administração Estratégica De Mercado de David A. Aaker pela Bookman (2007)
>>> Crianças famosas - Tchaikovsky de Callis pela Callis
>>> The Power Of Business Process Improvement de Susan Page pela Amacom (2010)
>>> A História Das Duas Irmãs - Volume 2 de Various pela Girassol (2015)
>>> Livro O PAPA E O Concílio - Volume 2 de Janus pela Leopoldo Machado (2002)
>>> Shared Services: A Manager's Journey de Daniel Melchior Jr. pela Wiley (2007)
>>> A Troca de Beth O'leary pela Intriseca (2020)
COLUNAS

Segunda-feira, 20/2/2006
Sobre o Oscar 2006
Marcelo Miranda
+ de 6000 Acessos

No próximo dia 5 de março, vai acontecer a cerimônia do Oscar, em Los Angeles. Maior festa de gala do cinema americano, premia anualmente os filmes mais votados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e exibidos no ano anterior. Basicamente é isso, o que não é novidade pra ninguém. Curioso este ano é a seleção final dos concorrentes à estatueta dourada. Depois que a fantasia dominou praticamente todo o espaço dos últimos tempos, tendo seu ápice nos 11 prêmios de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei em 2004, parece que o Oscar resolveu se tornar mais "sério" e, por que não dizer, político.

A guinada veio no ano passado. Quando as bolsas de apostas davam como certa a vitória de O Aviador de Martin Scorsese, eis que um filme pequeno, mas de imensidão cinematográfica infinita, levou na categoria principal: Menina de Ouro podia parecer esquemático à primeira vista. Só que, sendo de Clint Eastwood, não podia ser mais o inverso. Diretor de notável humanidade, sensibilidade e dureza com os temas tratados, fez deste trabalho um dos mais ovacionados da carreira. E mais: dobrou a Academia, notadamente conservadora, ao levar o troféu - já que Eastwood tinha na eutanásia, assunto polêmico por natureza, boa parte da razão de ser de seu filme. Na mesma festa, o espanhol Mar Adentro ganhou como melhor produção em língua não-inglesa, tratando também da eutanásia de forma ainda mais explícita. Algo estava diferente.

E eis que, agora, os cinco principais indicados ao Oscar são filmes, em algum aspecto, combativos, por mais inseridos que estejam na grande indústria. Quase todos de fácil apreensão do público, tratam, sem exceção, de temáticas ousadas ou, no mínimo, questionam alguma realidade - inevitavelmente resvalando para a própria realidade atual dos EUA. A começar pelo mais complexo dos trabalhos, Munique, de Steven Spielberg. É a visão do diretor para os acontecimentos que sucederam o atentado palestino à delegação israelense das Olimpíadas na Alemanha de 1972, fato que provocou a morte de 11 pessoas. Apresenta um grupo organizado pelo Mossad (serviço secreto de Israel) com o objetivo de eliminar os responsáveis pelo ataque, um a um.

Em formato de thriller e jeitão de filme policial dos anos 80 (remetendo a John Frankenheimer e William Friedkin), Munique faz claro paralelo dos acontecimentos na tela com a política do governo de Bush-filho, numa tentativa de ser o mais objetivo e apartidário possível. Spielberg quase consegue, e no fim das contas dá muito bem o recado: os ciclos de violência política e ideológica tendem, acima de tudo, a prejudicar não necessariamente os poderosos, mas as pessoas comuns, soldados do cotidiano que acreditam estar defendendo a pátria, mas apenas lutam por um status quo há muito sem sentido de continuar existindo. A imagem das torres do World Trade Center é a palavra final de um cineasta que parece finalmente ter amadurecido e deixado de lado o maniqueísmo e a fábula que marcam toda a sua obra.

Munique
Munique: paralelo com o governo Bush

Também em paralelo com os tempos modernos (não dos de Chaplin, muito mais otimistas do que ele poderia imaginar nos anos 30), Boa Noite e Boa Sorte é o olhar do ator e diretor George Clooney sobre o macarthismo e a tentativa do sórdido senador McCarthy em calar um jornalista. Critica, através de imagens de arquivo e num preto-e-branco nostálgico e duro, o poderio da política em cima dos meios de comunicação - ou ao menos a tentativa de manter esse poderio. Mais uma vez, um filme que parece querer gritar contra o centralismo da Era Bush, com seus patriot acts e afins. Capote, outro dos indicados, igualmente se passa no universo jornalístico. Menos "engajado" dos cinco favoritos, reconstitui a trajetória de Truman Capote durante a concepção de sua obra-prima literária, A Sangue Frio. Não chega a ser um filme essencialmente provocador, ainda que coloque na tela um homem cheio de facetas, que deixa a ética muito próxima do limite e assume sem medos a homossexualidade.

Homossexualidade, aliás, que ronda o favoritíssimo O Segredo de Brokeback Mountain, em outro filme que parece colocar à prova a tolerância dos votantes da Academia quanto a essas "libertinagens". Afinal, o longa de Ang Lee mexe com os brios do maior ícone do cinema americano - o cowboy - e envolve dois personagens num prolongado e intenso romance proibido no alto das montanhas. Com sua sensibilidade característica, o chinês Lee jamais permite que a narrativa caia em estereótipos ou caricaturas, tornando a relação dos vaqueiros algo não meramente homossexual, mas sim puramente apaixonado e apaixonante. É justamente aí que estaria o nó para a Academia: não é a história de gays como se costuma ver nas telas americanas, em que essa opção sexual costuma ser relacionada a orgias, afetações, doenças e, quando apresentada de forma menos forçada, acaba obrigando o protagonista em questão a algum "castigo" na narrativa. Em Brokeback Mountain, temos dois homens muito machos (para usar expressão que remete justamente ao comportamento de ambos) que simplesmente se vêem aproximados pelo amor, mas não podem assumir a relação devido ao conservadorismo de uma sociedade fincada na premissa da moral e dos bons costumes, seja lá o que isso seja. E a dupla do filme, agora, precisa enfrentar não apenas seus pares, que condenariam sem pestanejar a paixão por eles nutrida, mas também o voto frio da Academia de Hollywood. Será que, ao menos ali, no palco em Los Angeles, no dia 5 de março, a dupla será bem sucedida?

Brokeback Mountain
O Segredo de Brokeback Mountain: favorito

Filho bastardo entre os cinco indicados é Crash - No Limite. Quando penso no sucesso que essa obra vem fazendo, inclusive com premiações e fartos elogios por vários cantos, sempre questiono: será que vi o mesmo trabalho que esse povo todo? Crash é, por baixo, filme nojento e covarde. Tem como ponto de partida o caldeirão social de Los Angeles, com sua mistura de raças. Só que o diretor e roteirista Paul Haggis sai à caça de provar a qualquer custo a tese de que os homens são intolerantes por natureza e enche os 100 minutos de projeção com os mais primários recursos de linguagem e roteiro. Usando termo utilizado pela crítica Liciane Mamede, do site Cinequanon, quando ela escreveu de outro longa, A Passagem, Haggis faz um tipo de cinema "engaiolado" em suas próprias ambições. O cineasta não deixa o filme falar por si; ele insere elementos que apenas servem para corroborar um pensamento, quando o mais lógico, saudável e honesto é que o espectador desenvolva o pensamento sem que, para isso, o diretor o force a seguir determinado caminho pré-estabelecido.

Em Crash, cada peça está esquematicamente colocada de forma a obrigar (literalmente) o público a raciocinar como Haggis, jamais indo contra o que a imagem e os fatos nos apresentam. Os vários personagens que transitam na tela têm funções definidas desde o primeiro instante, e resta a nós apenas averiguarmos os absurdos que Haggis faz para nos mostrar as trajetórias de culpa e redenção que ele tenta tecer. Ao fim, entrega um filme tão firmado nos próprios problemas que tentava criticar que o efeito é inverso. Resta a inocuidade. Para sentir a diferença e entender o que significa paixão pelos personagens e pelo espectador, basta pensar, para ficar no que me vem de imediato à mente, em Clean, drama francês de Olivier Assayas (já disponível em DVD) que acompanha o caminho de uma ex-viciada em drogas em busca do amor do filho pequeno. Imagine Assayas dirigindo algo como Crash, e haverá o vislumbre de uma obra-prima.

Enquanto o petardo equivocado de Paul Haggis (profissional que, ironicamente, roteirizou justamente Menina de Ouro) tenta papar seis Oscars, a pancada de David Cronenberg nas aparências da sociedade em Marcas da Violência foi quase totalmente ignorado pelos votantes - talvez chocados com a violência gráfica e nada agradável mostrada pelo diretor canadense, ou então incomodados pela visão de que não se está a salvo em lugar algum, por mais que se tente conter os ímpetos sangüinolentos do homem. Ou ainda a crueldade das relações amorosas do novo Woody Allen, Match Point, o qual ainda não tive a oportunidade de ver, mas que já sei ser uma guinada no caminho que Allen vinha traçando e um drama de grandes proporções humanas e críticas (quem já viu, por favor, comente aí embaixo se estou muito enganado). Ou até mesmo a coragem de Fernando Meirelles em peitar a indústria de remédios com O Jardineiro Fiel não através de denuncismo puro e barato, mas por uma tenra e singela história de amor.

Match Point
Match Point, de Woody Allen: indicado apenas a roteiro

Engraçado. Comecei esta coluna querendo defender a aparente liberalidade da Academia, mas estou prestes a terminar dizendo justamente o contrário: que por trás dessa casca, existe ainda uma instituição fincada em valores antigos e ultrapassados, aparentemente sem coragem de assumir novos rumos. A Academia de Hollywood transmite anualmente seu recado através do Oscar. Quando a festa termina, temos ali o grande painel do que a maior indústria mundial de entretenimento pensa de sua situação política e econômica. Enganado está quem acha que o Oscar é apenas o desfile de gala e a premiação fútil e desnecessária que pode parecer. Em cada decisão de qual filme ganhar, existe grande peso e a definição por algum posicionamento.

Numa recente conversa informal com o Editor-assistente do Digestivo Cultural, Fabio Silvestre Cardoso, eu disse que os votantes estavam se mostrando mais abertos depois de premiar Menina de Ouro, e que este ano seria mesmo de Ang Lee e seu Brokeback Mountain. Porém, Fabio veio com excelente contra-argumento: afirmou que o Oscar é tão conservador que, quando tenta se mostrar liberal, acumula tudo num ano só, para depois voltar a ser o mesmo de antes. Foi o que aconteceu em 2002, quando se quebrou o tabu, e três atores negros foram premiados (Denzel Washington, Halle Berry e Sidney Poitier) e no ano passado, quando dois filmes sobre eutanásia saíram laureados. Faz sentido. Muito sentido.

Ah, e por curiosidade: Fabio aposta em Munique para melhor filme.


Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 20/2/2006

Mais Marcelo Miranda
Mais Acessadas de Marcelo Miranda em 2006
01. Caso Richthofen: uma história de amor - 31/7/2006
02. Tabus do Orkut - 6/2/2006
03. Filmes extremos e filmes extremistas - 6/3/2006
04. Vida ou arte em Zuzu Angel - 14/8/2006
05. Eu vejo gente morta - 11/9/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Introdução Aos Procedimentos De Pesquisa Em Educação
J. Francis Rummel
Globo
(1981)



Seleção de Preces e Mensagens
Edvaldo Oseas de Araujo
Do Autor



Evolutionary biology
Douglas J. Futuyma
Sinauer
(1986)



Historia Potencial y Otros Ensayos
Ariella
Teoria
(1996)



A Agência - para Mudar de Vida
Lorraine Fouchet
Fundamento
(2004)



Como Enfrentar o Stress
Marilda Novaes Lipp
Icone
(1990)



A Guerra que eu vi 540
General Patton
Biblioteca do Exército
(1979)



Gandhi - Minha vida e experiências com a verdade
Mohandâs Karamchand Gandhi
Edições O Cruzeiro
(1964)



3 Vols. Quarteto Fantástico: O Fim
Alan Davis
Panini / Marvel Comics
(2007)



Voltas Que o Mundo Dá
José Alvarenga
Osvaldo Cruz
(1996)





busca | avançada
79202 visitas/dia
2,3 milhões/mês