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Terça-feira, 15/8/2006
Poder, sexo e fé na história dos vendilhões
Marcelo Spalding

+ de 8000 Acessos

Política, religião e mulher não se discute: ainda bem que Scliar nunca deve ter ouvido esta frase.

Em Vendilhões do Templo (Companhia das Letras, 2006, 296 págs.), as personagens não apenas discutem como suas vidas são movidas pela política, pela religião ou pelas mulheres. Quando não o são é porque a personagem deixou-se levar pela ganância, pelas moedas sujas que Cristo já condenara no episódio do vendilhão do templo.

Aliás, uma resenha séria sobre esta obra necessariamente começaria reproduzindo os versículo 12 e 13 do capítulo 21 do evangelho de Mateus: "e entrou Jesus no Templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no Templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombos. E disse-lhes: 'Está escrito: a minha casa é casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões'". É a partir deste episódio bíblico que Scliar conduz a narrativa. A primeira parte é uma narração em terceira pessoa com o foco no vendilhão do Templo molestado por Cristo na Jerusalém do ano 33 d.C. Aqui não apenas o vendilhão é humanizado e suas virtudes (a superação, o amor aos filhos) postas ao lado de seus pecados (a ganância, a ganância, a ganância) como também Cristo é mais um grande homem como o de Saramago (em Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991) do que o bíblico filho de Deus.

Mas a obra vai além, e o salto de mil e tantos anos que o narrador faz da primeira para a segunda parte é proporcional ao salto que faz um escritor experiente, seguro e consagrado como Scliar, não se limitando a recontar uma história bíblica e sim resgatando-a para falar dos conflitos contemporâneos. Nesta segunda parte somos levados a uma fictícia redução indígena no Sul do Brasil, no ano de 1635, para onde é enviado um jovem jesuíta. Lá ele deve substituir o padre mais experiente, mas este morre antes mesmo que o jovem aprenda a falar guarani. Sem querer antecipar o desfecho desta parte, vale apenas mencionar que um suspeito andarilho chegará no local de forma misteriosa e será o intérprete entre índios e jesuíta.

Esta segunda parte retoma alguns elementos da história bíblica, primeiro demonstrando de que forma a palavra do Mestre, perseguida pelos romanos e calada na cruz, se espalhou até chegar a menor das reduções indígenas no sul de um outro continente num outro século. E com que distorções, naturalmente. Também está aí a ganância do vendilhão, ainda que os vendilhões de então já não vendam pombos, mas índios. Como o protagonista da primeira parte, o desta vive mais de dúvidas do que certezas, aliás uma frase que o autor retoma nos momentos capitais do livro. Mas ainda que retomando elementos anteriores, esta parte da história funciona por si só e, mais que isso, vale a leitura da obra. Quem leu O Continente, de Erico Veríssimo, aqui lembrará do capítulo "A fonte", em que ele narra um episódio na mais famosa das colônias indígenas, a de São Miguel das Missões. Mas a abordagem de Scliar é outra, o conflito é bem mais sutil e o desfecho, sublime.

Terceira parte, novo salto no tempo, desta vez para o ano de 1997 na mesma redução indígena, hoje cidade (fictícia) de São Nicolau do Oeste. Aqui o narrador é um jornalista sem dinheiro, separado, trabalhando como funcionário da prefeitura e bastante melancólico. A história começa com uma ligação do amigo Félix - espécie de reencarnação do vendilhão do Templo ou do andarilho misterioso - um patife, nas palavras do próprio narrador. Ele quer um favor do jornalista, uma intervenção na prefeitura, mas a simples lembrança de Félix faz com que o narrador volte no tempo, mais precisamente ao final de um ano letivo em que Félix organiza uma peça de teatro sobre o episódio do Vendilhão do Templo (sim, aqui era só um, nenhum colega aceitou ser vendilhão a não ser Matias).

Na terceira parte abundam personagens, todos complexos e com conflitos próprios. À ideologia religiosa, digamos assim, soma-se a ideologia política, pois Félix representa um herdeiro com mentalidade liberal (queria transformar a casa que herda em Mc Donald's), enquanto o novo prefeito e o chefe do narrador são eminentemente de esquerda (e querem tombar a casa que Félix herda para fazer um Centro Cultural). Há também um professor de História que se torna camelô, uma grande fodedora que ronda a prefeitura, um padre que dá aulas de Matemática, um menino esquizofrênico, todos girando em torno no narrador-protagonista. E a esta altura ficamos sabendo que as duas histórias anteriores são fruto de uns manuscritos deste jornalista mais ou menos frustrado, mais ou menos fracassado, emocionalmente falido e ideologicamente vazio.

Esta última carta que Scliar tira da manga, este último nó que o autor dá para ligar as três partes acaba também o absolvendo de eventuais críticas ideológicas (das feministas, dos cristãos, dos marxistas ou dos liberais), pois como se disse o livro trata de política, religião e mulher, três temas explosivos. Poderia se dizer que ainda mais explosivos nas mãos de um judeu, homem, branco, médico, gaúcho, mas neste sentido Scliar é magistral, deixa sua ideologia transparecer bem menos que a de um Saramago, por exemplo, e bem menos que a do próprio Scliar de Um Exército de um homem só (1973).

Este distanciamento maduro não impede que na obra estejam representados conflitos bastante latentes, e aqui nos damos a liberdade de reproduzir apenas um trecho (da primeira parte) em que se nota o olhar dos anos dois mil para a história dos anos trinta e três.

"Só que duvidava dessa possibilidade. Duvidava que o homem fosse capaz de fazer milagres. Por uma simples razão: se estava a seu alcance realizar tais prodígios, por que continuava pobre, usando vestes comuns, andando no meio da multidão? Por que não produzia, do nada, ouro, palácios, manjares, mulheres? Ou será que mulheres não lhe interessavam?" (pág. 86)

Como se percebe neste pequeno trecho, o narrador não se furta de tocar em feridas ainda abertas como a mercantilização até mesmo das ideologias ou a falta de sentido e de respostas para a vida da classe média (a classe que é produto da histórica atividade dos vendilhões, opa, dos comerciantes), afinal o narrador, o nosso jornalista emocionalmente falido e ideologicamente vazio, não deixa de ser um produto destes dois mil anos de História. Como nós.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 15/8/2006


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