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Terça-feira, 11/9/2001
Proibida ou não, é musa inspiradora
Vera Moreira

+ de 3900 Acessos

A banana está na moda. Chefs europeus deixam a criatividade voar alto para transformar essa fruta comum, mas de infinitos recursos, em receitas sofisticadas que encantam os gourmets em seus restaurantes finos – algo que a culinária tailandesa, por exemplo, desde longa data já descobriu, assim como também a indiana, cubana e africana. A mídia, mais sensível às tendências gastronômicas da Europa, detectou agora este momento de glória da musa paradisíaca ou musa sapientum (nomes botânicos) e dedicou-lhe páginas e páginas em jornais e revistas. Lendo algumas dessas matérias, descobri que, para muita gente, a banana é a fruta proibida do paraíso, o que desbancaria do tradicional posto a maçã. Pra mim foi novidade absoluta, nunca ouvira essa tese. Fui atrás, claro, curiosa em descobrir a origem de tal afirmação.

Vamos começar pela referência em latim, afinal, acredito haver motivo para respeitar a nomenclatura atribuída por Lineu às plantas. Jane Grigson, em “O Livro das Frutas”, explica que Musa vem da palavra árabe mouz, banana, derivada do sânscrito moka, ou da cidade do café na Arábia do Sul. Lineu provavelmente tomou o termo Sapientum de Plínio, conhecedor de Alexandre e de bananas, embora nunca tivesse visto uma. Escreveu que os sábios da Índia – sapientes indorum – delas se alimentavam: “A folha é como asa de pássaros (...) A fruta cresce diretamente do tronco e é deliciosa por sua doçura”. Paradisíaca é uma outra referência aos árabes, que afirmavam ser a bananeira a Árvore do Paraíso, ou seja, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Os europeus – incluindo Plínio – no início chamavam a banana de figo: figue d’Adam, figue du Paradis para os franceses, antes que eles adotassem o termo banane, fico d’Adamo na Itália. Bebendo nas fontes da história, Lineu denominou a banana Musa Paradisíaca, contribuindo para reforçar a versão corrente no século XVIII de fruta proibida.

No Livro do Gênesis, a princípio, Adão é inocente e ignorante, uma lousa sem nada escrito. Então, a astuta serpente dá a Eva duas escolhas: o pecado e o discernimento ou a falta de ambos. Depois da mordida libertadora na maçã, Jeová expulsa suas duas pessoas, agora propriamente humanas, do Éden sempiterno para a inclemente planície mesopotâmica. Ao contrário de Abraão, Adão e Eva não são nômades, mas agricultores. A subseqüente formação da raça faz parte do resultado da queda, do conhecimento da árvore do bem e do mal. Assim – de acordo com John Romer em “Testamento, Os Textos Sagrados Através da História” – é solucionado o enigma que sempre tem de estar presente na narrativa das primeiras famílias, como acontece com Abraão e Sara, mostrando-o como o menor dos males quando se tem de enfrentar a necessidade da procriação. Um rabino, que escreveu há quinhentos anos um comentário sobre o Livro do Gênesis, sugere que a extraordinária fecundidade de Sara, mulher de Abraão, foi por causa da ingestão de uma mandrágora, planta cujas flores púrpuras amadureciam em frutos mágicos todo outono e cujas raízes cresciam como um cacho de pênis. As mandrágoras carregavam a fertilidade dentro de si. Quando uma mandrágora era arrancada da terra, dizia-se que o grito da planta fazia as pessoas enlouquecerem.

A bananeira não é da família das mandrágoras – estas pertencem às solanáceas, como o tomateiro, o pimentão, etc -, mas é curioso que o seu fruto também cresça como um cacho de pênis. E mais, há uma tradição que diz que a bananeira, ao brotar o cacho, iniciado pelo mangará, geme como mulher no parto... Seria, então, por uma semelhança com a mandrágora na associação de fecundidade, que a banana ganhou a versão de fruto proibido? Sabe lá e chego a conclusão de que não há conclusão a chegar, porque o mundo do Livro do Gênesis, o mundo de Abraão, é um mundo de crença, conforme diz Romer, “um mundo sem conhecimento nem ética fora da fé”. A maçã continua sendo a referência no Jardim do Éden.

Assim, proibida ou não pra quem ainda quiser viajar na maionese, ops, na banana, a verdade é que ela é musa inspiradora de delícias sem fim, quanto a isso não há discussão. Crua ou madura, amassada, cozida, assada, frita, transformada em prato doce ou salgado, suco, aperitivo, vitamina ou sorvete, até como remédio já foi indicada. E a folha da bananeira é altamente útil, nela envolvemos os acaçás e os abarás da Bahia para serem cozidos e os peixes para assar ou grelhar. No Mato Grosso, faz-se uma sopa com bananas verdes. No Norte e no Nordeste, assim como na África e na América Central, por vezes, substitui o pão e a batata. E qual a criança já não se deliciou com uma banana bem desmanchada com o garfo, coberta de aveia, açúcar e canela? Eu acho que as lembranças gustativas da infância são as mais poderosas, não cedem lugar à receita sofisticada de qualquer espécie, só dividem lugar. Minha mãe fazia para nosso lanche uma torradinha com banana no forno que era uma delícia: coloca-se sobre uma fatia de pão, queijo prato, banana cortada em fatias no sentido longitudinal e polvilha-se com açúcar e canela em pó. Huummm, posso sentir o cheiro...

Apesar de ser uma de nossas frutas mais populares, não se origina na América e sim na Ásia e na África. É engraçado, porque em geral se faz uma idéia da bananeira como uma planta nativa de nossas florestas tropicais, mas nem mesmo os índios a conheciam. Os nambiquaras da Serra do Norte, Mato Grosso, já tinham lindos roçados de mandioca e milho, ornavam sua cerâmica, fabricavam bebidas fermentadas e, em 1912, tinham até cães de estimação, mas ainda desconheciam a banana. Luis da Camara Cascudo diz na “História da Alimentação no Brasil” que ela é hóspede desde o século XVI, e foi tomando lentamente a posse da casa. O que só nos trouxe benefício, para a economia e a população, tem grande volume de exportação e ajuda no sustento de nossa larga parcela carente da sociedade (uma composição poderosa e saborosa com arroz e feijão), pelo fácil cultivo, preço acessível e uma fantástica gama de propriedades nutricionais: vitaminas A, B, C, e E, sais minerais (especialmente potássio), fibras e carbohidratos em grande quantidade. Que o diga nossa estrela do tênis Guga e sua indefectível banana nos intervalos dos jogos. Fruta de vencedor, yes, nós temos banana!

Compota de ...
Pêssego. Deveria ser de Banana, dado o tema da coluna, eu sei... Mas quero oferecer esta receita ao Sérgio Faria, que me citou no seu Catarro Verde, me deixando muito lisonjeada. Não é exatamente a compota que carrego nas mãos, Sérgio; é melhor! Aí vai: coloque os pêssegos inteiros para cozinhar com uma garrafa de vinho branco, açúcar, dois paus de canela, quatro cravos-da-índia e casca de limão em fatias finas. Coe esta calda e acrescente a ela um pouco de Amaretto. Sirva o pêssego com um pouco da calda e uma bola de creme de chantilly.


Vera Moreira
Gramado, 11/9/2001


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