Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa | Tais Laporta | Digestivo Cultural

busca | avançada
72442 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> MAB FAAP estará fechado nos próximos dois finais de semana, devido ao Plano SP
>>> Exposição de Pietrina Checcaci é prolongada no Centro Cultural Correios
>>> Escritora Luci Collin participa de encontro virtual gratuito
>>> Máscaras Decoloniais: Dança e Performance (edição bilingue)
>>> Prêmio Sesc de Literatura abre hoje inscrições para edição 2021
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
>>> Jogando com Cortázar
>>> Os defeitos meus
>>> Confissões pandêmicas
>>> Na translucidez à nossa frente
Colunistas
Últimos Posts
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
Últimos Posts
>>> Kate Dias vive Campesina em “Elise
>>> Editora Sinna lança “Ninha, a Bolachinha”
>>> “Elise”: Lara Oliver representa Bernardina
>>> Tonus cristal
>>> Meu avô
>>> Um instante no tempo
>>> Salvem à Família
>>> Jesus de Nazaré
>>> Um ato de amor para quem fica 2020 X 2021
>>> Os preparativos para a popular Festa de Réveillon
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A odisseia do homem tecnomediado
>>> A diferença entre baixa cultura e alta cultura
>>> Van Halen 2013
>>> Treehouse
>>> Música em 2004
>>> O pai tá on: um ano de paternidade
>>> Jornalismo em tempos instáveis
>>> Rasgos de memória
>>> História da leitura (II): o códice medieval
>>> Rufo, 80 II
Mais Recentes
>>> Apostila workshop urbano curso perícias em avaliação de imóveis. de Caavi pela Caavi (2011)
>>> Stewardship: Choosing Service over Self-Interest de Peter Block pela Berrett-Koehler (1993)
>>> Fuvest 2000 - Literatura de Célia N. A. Passoni pela Núcleo (1999)
>>> Doze Contos Peregrinos de Gabriel Garcia Márquez pela Record (1992)
>>> Outeiro da Glória Marco na História da Cidade do Rio de Janeiro de Jorge de Souza Hue e Outros pela Artepadilla (2015)
>>> Le Voyageur et son Ombre de Nietzsche pela Mediations (1979)
>>> Avenidas da Saúde de Dr Haroldo Shryock pela Casa Publicadora Brasileira (1963)
>>> Livro Anne Whit An E Lucy Maud Bordando com as Estrelas de Lucy Maud Montgomery pela Ciranda Cultural (2021)
>>> O Flâneur - um Passeio Pelos Paradoxos de Paris de Edmund White pela Companhia das Letras (2001)
>>> Memórias de um Sargento de Milícias - Coleção o Globo de Manuel Antônio de Almeida pela O Globo (1997)
>>> O mulato de Aluísio Azevedo pela Ática (2000)
>>> Veneno Digital de Walcyr Carrasco pela Ática (2017)
>>> Uma Longa Jornada de Nicholas Sparks pela Arqueiro (2015)
>>> Um Olhar Sobre a Ciência: Desenvolvimento, Aplicações e Políticas de Eloi de Souza Garcia pela Interciência (2003)
>>> O Verão e a Cidade - Os Diários de Carrie de Candance Bushnell pela Galera Record (2011)
>>> O Cotidiano de um Deficiente de Patricia Vaitsman dos Santos pela Interciência (2001)
>>> Um Porto Seguro de Nicholas Sparks pela Novo Conceito (2012)
>>> Um Ano Inesquecível de Babi Dewet, Bruna Vieira, Paula Pimenta e Thalita Rebouças pela Gutenberg (2015)
>>> A Hora da Estrela de Clarice Lispector pela José Olympio (1978)
>>> A Terra dos Meninos Pelados de Graciliano Ramos pela Record (1983)
>>> A Linguagem e Seu Funcionamento - as Formas do Discurso de Eni Puccinelli Orlandi pela Brasiliense (1983)
>>> A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows pela Rocco (2009)
>>> Poesia Que Transforma de Bráulio Bessa pela Sextante (2018)
>>> O Livro de Ouro da Mitologia de Thomas Bulfinch pela Harper Collins (2018)
>>> Memórias Quase Esquecidas: Aqueles Olhos - Vol 1 de Alduisio M. de Souza pela Literatura Brasileira (2001)
>>> A Gênese de Allan Kardec pela Feb (1999)
>>> A Guerra Não Tem Rosto de Mulher de Svetlana Aleksiévitch pela Companhia das Letras (2016)
>>> Mais Coisas Que Toda Garota Deve Saber de Antônio Carlos Vilela pela Melhoramentos (2006)
>>> Engenharia genética - O Sétimo dia da criação de Fátima Oliveira pela Moderna (1995)
>>> O Ladrão de sonhos e outras historias de Ivan Angelo pela Atica (1999)
>>> Necronomicon: the Best Weird Tales of de H. P. Lovecraft pela Gollancz (2008)
>>> Um Dia "Daqueles": Uma Lição de Vida Para Levantar o Seu Astral de Bradley Trevor Greive pela Sextante (2001)
>>> A Cidadela do Caos de Steve Jackson pela Marques Saraiva (1990)
>>> O Calabouço da Morte de Ian Livinstone pela Marques Saraiva (1984)
>>> O Feiticeiro da Montanha de Fogo de Steve Jackson; Ian Livinstone pela Marques Saraiva (1991)
>>> Rostos da Portugalidade de Luís Machado pela Vega (2010)
>>> LIVRO NOVO! A Revolução dos Bichos de George Orwell pela Principis (2021)
>>> A Nave Espacial Traveller de Steve Jackson pela Marques Saraiva (1982)
>>> Norse Mythology de Neil Gaiman pela W. W. Norton & Company (2017)
>>> A Mão e a Luva de Machado de Assis pela Prazer de Ler (2016)
>>> Buda: na Floresta de Uruvella -vol. VI de Osamu Tezuka pela Conrad (2005)
>>> Buda. Em Busca da Iluminação. Vol. IV de Osamu Tezuka pela Conrad do Brasil (2005)
>>> Literatura Ao Sul de Luis Augusto Fischer pela Universidade de Passo Fundo (2009)
>>> Buda. a Outra Margem do Rio. Vol. III de Osamu Tezuka pela Conrad do Brasil (2005)
>>> O Cavaleiro da Esperança de Jorge Amado pela Record (1987)
>>> A Amiga Genial de Elena Ferrante pela Globo (2015)
>>> Passagens da Antiguidade ao Feudalismo de Perry Anderson pela Brasiliense (1987)
>>> O Não Me Deixes - Suas Histórias e Sua Cozinha de Rachel de Queiroz pela Arx (2004)
>>> George Sand de René Doumic pela Perrin (1922)
>>> Sybil de Flora Rheta Schreiber pela Círculo do Livro
COLUNAS

Quarta-feira, 1/11/2006
Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa
Tais Laporta

+ de 13400 Acessos

O mundo particular de Grande Sertão: Veredas (1956), do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), está exposto em uma sala árida de 480 metros quadrados. De portas abertas em São Paulo desde março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa dedica todo seu primeiro andar a esse enigma em forma de livro. E mostra aos visitantes que a saga do jagunço Riobaldo não é impenetrável, dentro de uma proposta que funde linguagem e arte. O espaço caminha tão bem, que foi considerado o primeiro museu do mundo dedicado exclusivamente a um idioma. Agora, homenageia o primeiro escritor a reinventar a língua de um país.

Organizada pela curadora Bia Lessa, a exposição coincide com os 50 anos do livro (leia as Colunas do Especial Guimarães Rosa). Logo na entrada, a atmosfera convida a sentir o clima do sertão: cores cruas e texturas ásperas no chão, nas paredes e nas janelas. Algo que lembra o som de um vasto campo ressoa nos fundos, quase imperceptível. Mas o que prevalece é o carnaval de letras espalhadas por todos os cantos. De perto, elas ganham sentido. "A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade, não vive". São os esboços do escritor, dispostos com todo cuidado das formas mais criativas.

A íntegra do manuscrito de Grande Sertão, com correções feitas a mão pelo autor, desce do teto em cartazes ampliados. Os tijolos, os vidros e a terra vermelha, todos merecem uma inscrição grafada pelas palavras de Guimarães. No fundo de latões enferrujados, a narrativa dança debaixo d'água. O lixo caótico também abriga trechos do livro. Até os banheiros completam a mostra, com comentários em vídeo de Paulo Mendes da Rocha, Antonio Candido e Décio Pignatari. As 14 últimas páginas do livro são narradas pelo timbre de Maria Bethânia. É assim que a exposição tenta chamar a atenção do visitante para o universo longínquo e desconhecido do sertão. Dentro dele, um mundo ainda mais profundo: o da linguagem como nunca se viu.

Nos rabiscos em caneta, nota-se a obstinação do autor por um vocabulário perfeito, que encaixasse a outros na medida exata, como em uma equação matemática. Apesar da profunda abstração da sua narrativa e da liberdade com que fundia palavras de diferentes classes gramaticais, não faltava lógica nessa ciência vocabular. Isso explica, talvez, porque os leitores de Guimarães parecem ter voltado de uma longa viagem. É como se desbravassem uma selva intocada, que só a obsessão máxima pela linguagem é capaz de permitir. Tanto que Grande Sertão é considerada uma obra mais do que prima.

Ou, então, um oceano de conhecimento. "Falo: português, alemão, francês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, da sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; (...) E acho que estudar o espírito de outras línguas ajuda muito à compreensão do idioma nacional. Principalmente (...) estudando-se por divertimento, gosto e distração." Palavras do autor, em uma entrevista concedida a uma prima.

Embora muitos duvidem que alguém possa ter tanta capacidade no "HD", as anotações originais do escritor confirmam que é possível. Em uma delas, ele coloca em ordem alfabética todas palavras que lembra da língua japonesa. E a lista não é pequena. Guimarães brincava de inventar linguagens com vocábulos estrangeiros e era capaz de passar dias "construindo" o melhor título. A narrativa também era desenhada, geometricamente, em função do tempo, do espaço e dos personagens.

Dessa engenharia literária, nasceram, entre outros, os livros Saragana (1946) e Primeiras Estórias (1962). Este último é o mais indicado para iniciantes - consagrado como o terror do vestibular - com narrativas mais curtas (contos), mas não menos densas. As temáticas escolhidas para "A Terceira Margem do Rio", "A Benfazeja" e "O Cavalo que Bebia Cerveja" beiram o absurdo e, por isso, alcançam o patamar do realismo mágico, um gênero que conquistou a simpatia do público a partir dos anos 50.

Mesma época, aliás, em que os latinos despontavam com clássicos que marcariam as gerações futuras. A começar pelo argentino Jorge Luis Borges, com o psicodélico Ficções e pelo colombiano Gabriel Garcia Márquez, que levou o Nobel de literatura pelo monumental Cem anos de solidão, em 1982. Entre outros, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes também se destacaram. Assim como Guimarães, todos narraram a fronteira entre o fantástico e o real. Mas nosso brasileiro só não alcançou as massas e a popularidade internacional por razões muito particulares.

Primeiro, escrevia com um regionalismo tão peculiar ao sertão, que muitos o consideraram um estrangeiro em seu próprio país. Até hoje, fazer uma tradução de Guimarães para outras línguas é um desafio inacabado. Depois, não que sua escrita seja rebuscada, mas os poucos que encaram livremente o autor, em regra, possuem alguma erudição. Guimarães não é difícil. Simples e sofisticado seja talvez a melhor definição. Por incrível que soe, sua leitura exige mais desprendimento do que inteligência e mais interesse do que preparo. Especialistas diriam que decifrá-la é permitir que palavras novas invadam o inconsciente. Ou ainda, esquecer o certo e o errado.

Assim, num instante, o estranho fica familiar. "Foi de certa feita - o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel", diz "Famigerado", um dos contos mais sarcásticos do autor. Para os já leitores e os que pretendem ser, a mostra temporária no Museu da Língua Portuguesa é um belo convite ao intelecto. Também pega de surpresa os que nem sonhavam em entrar nesse mundo. Isso porque mistura, num ato inovador, literatura com artes plásticas. Se não incentiva a ler o livro, pelo menos introduz o visitante a um universo desconhecido. E não menos fascinante.

Para ir além
Exposição temporária: Grande Sertão Veredas
Museu da Língua Portuguesa
Estação da Luz - Praça da Luz, s/nº
De terça a domingo, das 10h às 18h
R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia-entrada)
Grátis aos sábados


Tais Laporta
São Paulo, 1/11/2006


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Buenos Aires: guia de viagem de Gian Danton
02. Um menino à solta na Odisseia de Carla Ceres
03. Meu Caro Amigo de Carina Destempero
04. O Amor é Sexualmente Transmissível de Isabella Ypiranga Monteiro
05. O homem que inventou o Natal de Gian Danton


Mais Tais Laporta
Mais Acessadas de Tais Laporta em 2006
01. Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa - 1/11/2006
02. Pelas curvas brasileiras - 11/7/2006
03. Ninguém segura Lady Macbeth - 2/8/2006
04. Sem cortes, o pai do teatro realista - 17/5/2006
05. Confissões de uma ex-podcaster - 20/9/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Adolescer, Verbo de Transição
Opas
Opas
(2015)
R$ 17,00



O Poder da Esposa Que Ora
Stormie Omartian
Mundo Cristão
(2014)
R$ 29,00



Papagaios de Papel, Construção, Modelos e Voo as Ideias para a Cria...
Werner Backes
Plátano
(1991)
R$ 20,00



Superinteressante o Novo Judas Nº 226
Vários Autores
Abril
(2006)
R$ 6,99



Revista de Estudos Urbanos e Regionais - Sociedade e Território Ano 3
Abílio Cardosoe António Fonseca Ferreirae Arnal...
Afrontamento
(1989)
R$ 22,33



Aventura da Imagem
Lia Zatz e Diana Zatz Mussi
Moderna
(2013)
R$ 8,00



Como Encontrar Deus
Miguel Lucas
Paulus
(2002)
R$ 5,00



The Estate of Mrs. Charles Allen Jr.
Autor Sothebys
Sothebys
(1997)
R$ 77,00



Projeto Athos História 7º Ano
Joelza Esther
Ftd
(2014)
R$ 18,00



A Fórmula do Amor
Elizabeth Kantor
Realejo
(2013)
R$ 37,40





busca | avançada
72442 visitas/dia
2,4 milhões/mês