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Quarta-feira, 17/10/2007
Cadeia Educacional
Débora Costa e Silva

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+ 1 Comentário(s)

Dizem que a época da faculdade é a melhor fase da vida de alguém. Festas, viagens com a turma, contato com a profissão e com profissionais (o que teoricamente deveria ser um prazer, afinal, parto do pressuposto de que as pessoas escolhem um curso que gostam), formatura, entre outras alegrias. Se você ingressa na faculdade logo depois do Ensino Médio então, ainda tem um plus: a sensação de estar se tornando adulto e responsável, mas sem o peso de ter que sustentar a casa. Com uma ressalva: esse "descompromisso" se dá quase que exclusivamente com jovens de classes média e alta. E é de dentro da perspectiva desses jovens que eu vou falar sobre ensino superior, afinal, mais do que conviver com essa parcela da sociedade, faço parte dela.

Acho que basicamente existem quatro momentos fundamentais nessa fase: a escolha da carreira, o vestibular e a escolha da universidade, o curso em si (incluindo a experiência acadêmica e os estágios), e o momento pós-formado. Ainda não passei pela última etapa e creio que essa dure por toda a vida.

No meu caso, nem passei por muitos dramas durante a primeira etapa. Sempre quis ser jornalista, apesar de nunca ter sido uma grande leitora de jornais. Gostava mais de revista mesmo. E de romances, poemas e gibis. Mas por gostar de falar, perguntar, ler e escrever, achava mais do que natural seguir na área de comunicação. Até cheguei a ter contato com outras áreas, como propaganda e marketing, mas não me interessei. Pelo contrário. Descobri a publicidade nas aulas de arte, quando a professora passou um vídeo sobre como Hitler utilizava a propaganda a seu favor. Desde então, passei a desprezar essa profissão mercenária e desumana. Criativa e inteligente também, não há como negar. Mas sempre fui mais com a cara dos fracos e oprimidos - mesmo descobrindo mais tarde que o jornalismo não tem nada de salvador da pátria e precisa (e muito) da "inimiga" para sobreviver.

Na hora de preencher as fichas de inscrição de algumas faculdades, confesso que fiquei muito tentada a prestar Psicologia, História, Ciências Sociais e até Música. Acho que na hora que você completa aquela lacuna onde está escrito "curso" sempre dá um frio na barriga: é isso que serei pelo resto de minha vida? Taí o primeiro grande problema! Aos 18 anos, idade em que geralmente se termina o Ensino Médio, somos capazes de escolher uma atividade que queremos fazer para sempre? Acho que não. Quantas pessoas você conhece que escolheram um curso, acabaram cursando outro e hoje trabalham em uma área completamente diferente das duas primeiras?

Minha própria turma pode servir de exemplo. Quatro anos de faculdade de Jornalismo. Começamos o curso em fevereiro de 2004 com 80 alunos. Hoje, setembro de 2007, reta final, todo mundo fazendo o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), restam 52 pessoas. Entre os 28 que saíram, metade desistiu e a outra metade "se deu bem": arrumou um estágio legal (e integral) e mudou para a turma da noite. Dos que ficaram, cerca de 30 trabalham na área e 15 não querem mais ser jornalistas. Não posso garantir, mas acredito que na minha turma muitos entraram sem certeza do que queriam e esperavam que, ao fazer o curso, pudessem se sentir mais seguros ou pudessem até ser convencidos de que tomaram a decisão certa. O fato é que alguns só descobriram que não gostam de jornalismo. Ficou faltando descobrirem do que gostam e o que querem...

Outro problema está no vestibular. Só esse assunto já renderia uma coluna, pois remete a uma série de outras polêmicas, como as cotas raciais, o Pró-Uni, Enem, sem falar nas discussões em torno da qualidade da provas (se consegue, de fato, avaliar candidato ou não). Mas o pior mesmo são aquelas faculdades que nem vestibular fazem. Quer dizer, existe oficialmente uma prova. Mas, se você não for bem, tudo bem: faça uma redação, use somente os pontos do Enem, pague uma certa quantia, converse com o diretor... É o jeitinho brasileiro dando as caras por aqui. E, infelizmente, funciona. O desespero em começar rápido um curso é tanto, as faculdades que brotam de esquina em esquina são tantas, a (boa e velha) pressão (dos pais, amigos, "mercado") é tanta... E lá se vão alguns milhares de estudantes começarem uma faculdade assim, da noite pro dia, sem entender bem como e porquê.

Ok, eu confesso: comigo foi um pouco assim. Escolhi minha faculdade mais por pressa de começar logo o curso (e preguiça de fazer cursinho) do que por qualquer outra coisa. Prestei vestibular em quatro faculdades: Metodista, Mackenzie, Cásper Líbero (na época considerada pelo Guia dos Estudantes como a melhor faculdade de Jornalismo de São Paulo) e USP (lá eu prestei História, diziam - e ainda dizem - que Jornalismo lá não é muito bom, apesar de que a FFLCH também não vai bem).

Passei nas duas primeiras, mas não na que eu queria. Foram dois dias de uma tristeza profunda por não ter passado na Cásper. Mas durou só isso. O primeiro dia de aula na Metodista foi na mesma semana em que eu havia recebido a notícia catastrófica. Mas eu ia lá, mesmo a contragosto, para ver como era. Caso não gostasse, faria cursinho para tentar mais uma vez. Afinal, não dizem que quem faz a faculdade é o próprio aluno? Então, quem sabe insistindo um pouquinho não dava certo...

Mas nem precisei de muito esforço. O primeiro dia de aula me encantou: professores falando sobre o curso, a profissão e a faculdade e pessoas que se pareciam comigo, afinal, queriam mudar o mundo do mesmo jeito que eu (essa impressão também durou pouco tempo). Tudo lindo. Tinha tudo para viver os "melhores anos da minha vida". E vivi. Mais por motivos pessoais do que profissionais, é verdade.

Enfim, chegamos na terceira etapa (a mais importante, creio eu) que é o curso. Existe um debate sobre teoria e prática: qual deve ter mais peso na grade curricular? Na Cásper, sei que o primeiro ano é apenas teórico. Na Metodista, começamos a escrever matérias logo de início e temos aulas de fotografia, rádio e TV entre o primeiro e segundo ano. Conseqüentemente, a parte teórica é, sim, um pouco defasada. Existem professores bons, mas é tudo muito rápido e superficial. O método parece ser "quem quiser que se especialize ou estude por conta o que lhe interessa".

Pegando como base as editorias dos principais jornais, posso dizer que tivemos um pouco de Cultura e Economia, mas nada de Esportes, Política, Cidades e Internacional. Aprendemos que um jornalista tem que saber de tudo um pouco. Será que sei "de tudo um pouco"? E o que um jornalista deve saber, então? Escrever? Acho que é o mínimo. Mesmo assim, até o semestre passado tinha professor berrando com aluno por causa de vírgulas. Bom, se existem pessoas que não aprenderam nem o básico até o penúltimo semestre, será que alguém aprendeu o "além"?

É tolice esperar que uma faculdade de quatro anos te faça o jornalista mais culto, correto e informado do mundo. Se o estudante não for atrás de um estágio na área, ler jornais e livros por conta própria, não vai virar nada. No entanto, não acho que a faculdade tem tanta culpa assim. Para dar conta de tanto aprendizado, os cursos teriam que durar uns 10 anos, pelo menos, e isso é totalmente inviável.

Acho fundamental uma faculdade de Jornalismo investir em aulas práticas para que os alunos tenham uma noção de como é a realidade das redações, assessorias etc. Mas é uma noção. Fazer um programa de rádio na faculdade, onde só seus colegas de classe vão te ouvir e você parece estar "brincando" de jornalismo, é bem diferente de estar numa rádio de verdade - óbvio. Mas também é preciso que os alunos tenham uma noção de como gravar, diagramar, editar, fazer reportagem na rua, entre outras coisas. Não se pode abrir mão dessa prática, esperando que o aluno também aprenda isso por conta própria.

A verdade é: eu gostei do meu curso e faria tudo de novo, sim. Claro que devo muito aos estágios que fiz desde o primeiro ano e ao meu próprio interesse pela profissão, que aumentava cada dia mais, diferente do que aconteceu com muitos colegas. Acho que os problemas encontrados no Ensino Superior se relacionam em sua maioria com questões que fazem parte do todo o processo de ingressar em um curso universitário: ensinos básico, fundamental e médio, o vestibular, as faculdades de esquina e o próprio aluno. É um conjunto de coisas que se interligam. Se um dos fatores for deficiente, toda a formação "superior" de alguém continuará entre aspas.

Resumindo: se não existe educação de qualidade no país, se o sistema de seleção e avaliação de alunos por meio do vestibular for precário ou inexistente, se a faculdade não for boa, nem na teoria nem na prática, e, por fim, se o indivíduo sentar e ficar esperando que todo o aprendizado e conteúdo necessário caia do céu, seja entregue de bandeja ou mastigado, é impossível se ter um ensino de fato superior. A conseqüência será uma quantidade cada vez maior de profissionais incompetentes, desempregados e, claro, insatisfeitos.

Não quero eximir das universidades a responsabilidade que têm em relação ao ensino no país, mas ela é apenas um dos elementos que contribuem na formação de um profissional. Aliás, é o último elemento dessa cadeia educacional. Se no decorrer do processo construiu-se uma torre de babel, não vai ser a construção de uma belíssima cobertura que vai salvar a estrutura do prédio. Mais cedo ou mais tarde, ele vai cair de qualquer jeito.


Débora Costa e Silva
São Paulo, 17/10/2007


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
1/11/2007
20h31min
Sua reflexão veio de encontro com a minha. Estou fora dos ares universitários desde 1995 e meu projeto é voltar 2008 cursando Psicologia. Partilho da sua visão de que é uma tolice pensar que 4 ou 5 anos de curso faz o profissional e acho ainda que cada um deve corre atrás do seu.
[Leia outros Comentários de Patricia Lara]
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