Religião prêt-à-porter | Verônica Mambrini | Digestivo Cultural

busca | avançada
47877 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> SÁBADO É DIA DE AULÃO GRATUITO DE GINÁSTICA DA SMART FIT NO GRAND PLAZA
>>> Curso de Formação de Agentes Culturais rola dias 8 e 9 de graça e online
>>> Ciclo de leitura online e gratuito debate renomados escritores
>>> Nano Art Market lança rede social de nicho, focada em arte e cultura
>>> Eric Martin, vocalista do Mr. Big, faz show em Porto Alegre dia 13 de abril
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
>>> Estrada do tempo
>>> A culpa é dele
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
Blogueiros
Mais Recentes
>>> The Social Network ou A Rede Social, o filme
>>> Só notícia boa
>>> Made in China
>>> Para ler o Pato Donald
>>> Prossiga
>>> Mozart 11 com Barenboim
>>> Para amar Agostinho
>>> Discos de MPB essenciais
>>> Conceitos musicais: blues, fusion, jazz, soul, R&B
>>> O Passado, de Hector Babenco
Mais Recentes
>>> Diversidade e Sistema de Ensino Brasileiro volume c2 de Ana Paula Alves Ribeiro / Maria Alice Rezende Gonçalves pela Outras Letras (2023)
>>> Diversidade e Sistema de Ensino Brasileiro volume c2 de Ana Paula Alves Ribeiro / Maria Alice Rezende Gonçalves pela Outras Letras (2023)
>>> O Graal da Serpente de Philip Gardiner com Gary Osborn pela Pensamento (2008)
>>> Organizações de Aprendizagem Educação Continuada e a Empresa do Futuro de Humberto Mariotti pela Atlas (1999)
>>> Python e Mercado Financeiro de Marco Antonio Leonel Caetano pela Blucher (2021)
>>> Um Longo e Solitário Tempo de Airton Marques de Oliveira pela Razão da Terra (1996)
>>> Equações Diferenciais - Volume 2 de Dennis G. Zill e Michael R. Cullen pela Makron Books (2001)
>>> Equações Diferenciais - Volume 1 de Dennis G. Zill e Michael R. Cullen pela Makron Books (2001)
>>> Processos de Transmissão de Calor de Kern pela Guanabara Koogan (1987)
>>> Transformações de Valéria Torres pela Litteris (1999)
>>> Sobrenatural: Impressões sobre os lençóis Maranhenses de Meireles Junior pela Do Autor (2016)
>>> Poesia em Serenata de Margarida Marques pela Evsa (1998)
>>> Panelas em transe de Cassio Machado pela B&b (2005)
>>> Vade Mecum 2008- 6ª Edição - Contém CD de Saraiva (Organizador) pela Saraiva (2008)
>>> Pizzolato: Não Existe Plano Infalível de Fernanda Odilla pela Leya (2014)
>>> Air Gear nº 21 de Oh! Great pela Panini Comics (2011)
>>> Constitution of United States of America de David Osterlund e outros pela Barnes & Noble (1995)
>>> Poder-saber ética da escola de Sandra Mara Corazza pela Unijuí (1995)
>>> Como fazer um disco independente de Chico Mário pela Vozes (1986)
>>> Suagh'Leng'hor de Milton José de Almeida pela Cortez (1990)
>>> As Ideias de Marx de David McLellan pela Cultrix (1993)
>>> Südkurier de Antoine de Saint-Exupery pela Karl Rauch (1949)
>>> Discurso de Metafísica e Outros Textos Gottfried Wilhelm Leibniz de Gottfried Wilhelm Leibniz pela Martins Fontes (2004)
>>> Interview with the vampire de Anne Rice pela Ballantine (1997)
>>> L'horizon Des Esprits de Joseph Moreau pela Presses Universitaires De France (1960)
COLUNAS >>> Especial Deus tem futuro?

Segunda-feira, 10/3/2008
Religião prêt-à-porter
Verônica Mambrini
+ de 6900 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Fui ao guarda-roupa escolher com que religião iria me vestir hoje: zen-budista não... na moda, mas muito exótico. Muçulmana também não, hoje eu acordei libertária, e além do que, tem happy hour e eu não vou deixar de tomar minhas biritas. Mudei de novo, para um look espírita, contemporâneo, urbano, décadence avec élégance, prêt-à-porter para qualquer lugar e ocasião. Mas também não estava rolando.

Um pretinho básico e agnóstico ajuda em qualquer hora (até porque o agnóstico é um candidato em potencial para a conversão), mas confesso que tem dia que eu morro de vontade de sair com uma roupa daquelas que não fica bem em qualquer um. Acho o judaísmo o máximo. Queria poder adotar os costumes sem precisar adotar a religião, mas cairia em um ridículo profundo. Oferecer chocolates e maçãs para desejar um ano doce no Rosh Hashaná, conhecer melhor a sabedoria da Cabala, ter tido um Bat Mitzvah ― como são animadas as festas dos judeus! ― e compartilhar de tantos detalhes, festas e pesares. Mas, a não ser que eu case com um judeu ou tenha uma profunda experiência pessoal que me leve a uma conversão, é um mundo do qual farei parte como espectadora, e olhe lá.

Hoje existe tanta liberdade para se escolher a religião, ou a ciência no lugar dela, que sufoca. Mas a religião é história; ela tem história e muitas vezes, se mistura à origem atávica dos povos. Antes de fundarem a filosofia e o teatro, os gregos inventaram o nascimento dos deuses ― com poesia, é claro. Na Teogonia, poema de Hesíodo, vários deuses, como Cronos, Caos, Eros, Zeus, Urano entram em conflito e geram filhos também divinos, que estabelecem seu reinado sobre o cosmos. Em cada ponto do globo, o surgimento dos povos se explica em uma mitologia própria. Como na glória e ira do deuses dos povos nórdicos, passando por fábulas tribais, até o mito hindu de criação do universo, em que as quatro cabeças de Brahma, os braços de Vishnu, o poder de destruição de Shiva e os muitos elementos simbólicos dizem respeito não apenas à uma idéia de criação, mas a uma cultura, às características naturais de uma região e a como aconteceu ali o processo civilizatório. Há até mil, mil e quinhentos anos, era impensável escolher a própria religião.

A religião tem freqüentemente um papel de demarcador de ritos de passagem e de funções sociais do indivíduo. Em certa medida, facilitava muito as coisas... ter um batizado, primeira comunhão, crisma e casamento deixavam bem claras as fases na vida da pessoa nascida em uma comunidade católica. É uma instituição ajudando você a saber que o tempo está passando e o que as pessoas passam a esperar de você. É um lembrete aos pais, vizinhos e amigos de que você está crescendo e ocupando seu lugar no mundo. Muita gente vive melhor sem essa simbologia, que acaba virando uma amarra e obrigação. Mas nem todo mundo se adapta a tanta liberdade; com a diluição cada vez maior do limite entre a infância, a adolescência, a vida adulta e a maturidade, a falta sinais claros de que a fase de vida está mudando deixa as gerações um pouco desnorteadas. Fases mais longes e menos distintas é uma característica do mundo contemporâneo ocidental, e se a responsabilidade por essa mudança não é da religião, seria ingênuo não reparar que ela teve um papel muito forte na atribuição de sentido às coisas da vida.

Tudo que diz respeito à religiosidade como forma de cultura pode ser apartado da fé. Os princípios de teologia, propriamente ditos, caminham em outra direção, e tendem a ser universais, o que desobriga os adeptos da religião de serem nascidos em determinado grupo histórico ou social. É o que torna conceitualmente possível a conversão. Muitas das religiões protestantes e neo-protestantes são fortemente sustentadas pelo pilar da conversão, o que explica o crescimento vertiginoso delas, seja nos grades centros urbanos ou em rincões do mundo cheios de dor e sofrimento. É de cortar meu coração ver missionários espalhados em lugares remotos (ou nem tão remotos assim) difundindo uma fé construída tão recentemente, com arcabouço bíblico, e passando como um rolo compressor por cima de outras culturas. Toma-se a herança cultural judaica-cristã, dentro de princípios que mal e mal cabem no guarda-chuva conceitual de evangélicos e essa fé engole outras manifestações religiosas (e às vezes costumes incompatíveis com essa forma de cristianismo). Choque de fé contra fé, mas com a nítida desvantagem de que, quem busca converter, irá procurar pessoas e comunidades fragilizadas, e usar a fragilidade como porta de entrada.

Religião é pura linguagem. Existe a experiência mística, que é intransferível. Se uma pessoa experimenta a transcendência (a iluminação, a comunhão com Deus, o amor etc.), ela pode contar aos outros, mas nada substitui a experiência individual. Mas a tentativa de comunicar, seja por apelos racionais, emocionais, filosóficos ou teológicos, é quase sempre um jogo de sedução. Religiões exploram campos lexicais; é quase impossível pensar no Deus monoteísta acima das cabeças cristãs, judias e muçulmanas sem pensar num Pai e Senhor; nem em seus fiéis como filhos, cordeiros, servos. Mas a relação de paternidade e servidão pouco serve às religiões orientais, como o Budismo e Taoísmo. Justamente nas filosofias orientais, a linguagem é mais poética, menos coercitiva, mais reflexiva.

O racionalismo e cientificismo da cultura ocidental hoje tomaram um espaço que as religiões nunca mais terão. O acesso à informação põe em xeque muitas concepções baseadas num conhecimento mais restrito do mundo; possivelmente o mundo para o qual as religiões foram construídas não exista mais, e o homem que era seu motor de propulsão também não. As religiões crescem em terrenos onde existe demanda emocional; onde existe uma necessidade, por exemplo, de um pai e senhor, onisciente e protetor. Claro que existem lugares em que a opção religiosa não é exatamente uma opção; nascer muçulmano no Oriente Médio não deve deixar muita alternativa à maioria das pessoas nascidas nesse contexto. Mas ainda assim, é uma questão muito mais social e histórica do que de fé. Num mundo em que a religião está tão ligada a história, à economia, e aos valores sociais, ainda há muito espaço para Deus. Já num mundo dessacralizado, Deus precisa se virar para ser entendido.

Sou de classe média, minha família não tem religião definida, moro em São Paulo e tenho uma certa cultura cosmopolita, muito mais voltada para o mundo do que para minhas raízes. Em outras palavras, nada em meu cotidiano está vinculado com a religião: nem meus horários, nem minhas refeições, nem meus modos, muito menos minhas roupas são definidos por alguma igreja ou denominação religiosa. Tampouco meus valores, que prefiro condicionar à ética a que à moral. Ainda assim, persistem duas coisas: a regra de ouro e a idéia de Deus, difícil de definir e dar forma. Ao falar de Deus, não consigo defini-lo, tanto quanto minha capacidade de expressão me define.

Mas a regra de ouro das religiões é simples e pacificadora, fundamentada na tolerância. No cristianismo, surge de forma afirmativa: "Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles" (Mateus, 7:14). Confúcio diz a mesma coisa, ao afirmar que "O que vós não quereis que vos façam, não o façais aos outros" (Anacletos, 15:23), assim como o a recomendação pode ser encontrada em O Buda, nas palavras de Maomé, no Mahabharata hindu. Se seguido acima de qualquer interesse, esse princípio é capaz de pôr fim às sanções às mulheres, garantir a liberdade de culto à cada seita, limitar o estrago causado pelo abuso de poder de muitos religiosos. Com ou sem Deus na perspectiva, a regra de ouro é compreensível e praticável.


Verônica Mambrini
São Paulo, 10/3/2008

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Lamartine Babo e futebol, uma simbiose de Marco Garcia
02. Samba da Vela de Débora Costa e Silva


Mais Verônica Mambrini
Mais Acessadas de Verônica Mambrini em 2008
01. Boas histórias — e de verdade - 28/1/2008
02. Religião prêt-à-porter - 10/3/2008
03. Ao vivo do Roda Viva, pelo Twitter - 6/10/2008
04. Noite branca no cinema - 18/12/2008
05. Mitofagia: Machado ao molho pardo - 16/6/2008


Mais Especial Deus tem futuro?
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/3/2008
09h45min
Verônica, um dos melhores textos da série. Didático, pontual, leve e vazio de conflitos. Um convite a reflexão com o vigor das constatações. Particularmente, apreciei o uso das referencias históricas e culturais como contraponto. Um texto leve e com um final confessional/quase laico. Adorei.
[Leia outros Comentários de Carlos E. F. Oliveir]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Quando Deus Quer Agir
Silas Malafaia
Central Gospel
(2009)



Ruah - Quebrando os Paradigmas de Que Gordura É Saúde e Magreza É
Padre Marcelo Rossi
Principium
(2015)



Livro -Quando Te Vejo - Você Conseguiria Amar Alguém Sabendo Como Tudo Vai
Holly Miller
Harper Collins
(2021)



Literatura Comentada: Antônio Callado
Antônio Callado
Abril
(1982)



Simples Verdades - um Guia Amoroso Sobre Grandes Temas da Vida
Kent Nerburn
Sextante
(2007)



A Morte e a Morte de Quincas Berro Dagua
Jorge Amado
Record
(1999)



Superdicas para Empreender Seu Próprio Negócio (2008)
Ruy Leal
Saraiva
(2011)



Livro - Olhai os Lírios do Campo - Col. Aventura de Ler
Erico Verissimo
Globo
(1994)



A Love Affair in Rome - Pocketbook
Ercole Patti
Penguin
(1958)



Tajá e Sua Gente (1986)
Jose J. Veiga
Salamandra
(1986)





busca | avançada
47877 visitas/dia
1,6 milhão/mês