O conto como labirinto em Milton Hatoum | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
35423 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A difícil arte de viver em sociedade
>>> Ações culturais
>>> A história do amor
>>> Além do Mais
>>> Derrotado
>>> Acabou o governo
>>> American women kick ass
>>> As duas oposições
>>> Michelangeli & Bach
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
Mais Recentes
>>> Manual do Escotista - Ramo Lobinho de União dos Escoteiros do Brasil pela A União (2011)
>>> A Mágica da arrumação - a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida de Marie Kondo pela Sextante (2015)
>>> PSI-Q - 80 jogos, questionários e experiências para testar sua inteligência psicológica de Ben Cambridge pela Sextante (2016)
>>> Trogan! uma Luz Em Atlântida de Franc Josef pela Speed Art (2000)
>>> Educação Familíar Presente e Futuro de Içami Tiba pela Integrare (2014)
>>> Espíritos Entre Nós de James Van Praagh pela Sextante (2009)
>>> Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais - um diálogo com a psiquiatria de Bernard Rangé (org.) pela Artmed (2001)
>>> O Túnel das Almas de J. Herculano Pires pela Paideia (1978)
>>> O Laço Duplo de Chris Bohjalian pela Nova Fronteira (2008)
>>> O Pálido Olho Azul de Louis Bayard pela Planeta do Brasil (2007)
>>> Apólice para Morte de Sara Paretsky pela Marco Zero (1982)
>>> O Encontro Marcado de Fernando Sabino pela Record (2008)
>>> O Sétimo Unicórnio de Kelly Jones pela Mercuryo (2006)
>>> Morte de um Holandês de Magdalen Nabb pela Bonobo / Novo Século (2009)
>>> Como compreender os símbolos - guia rápido sobre simbologia nas artes de Clare Gibson pela Senac (2012)
>>> Clássicos do Iatismo de Antonio Luiz de Souza Mello Netto pela Media Mundi (2011)
>>> A Casa das Sete Meninas de Georges Simenon pela Nova Fronteira (1982)
>>> Último Azul de Daisy Xavier pela Barleu (2011)
>>> Mas Será o Benedito? de Mario Prata pela Globo (1996)
>>> Querida Sue de Jessica Brockmole pela Arqueiro (2014)
>>> O Escritor de Obituarios de Porter Shreve pela Best Seller (2002)
>>> Rindo E Refletindo Com A História de Richard Simonetti pela Ceac (2007)
>>> História da Civilização Ocidental - Volume 2 de Edward McNall Burns pela Globo (1989)
>>> História da Civilização Ocidental - Volume 1 de Edward McNall Burns pela Globo (1993)
>>> Estranha Economia de Felipe Barbosa pela Apicuri (2012)
>>> A Inspetora e Uma Grande História de Amor (Série Edi Jovem)) de Santos de Oliveira pela Ediouro (1993)
>>> Herry Potter e a Pedra Filosofal de J. K. Rowling pela Rocco (2019)
>>> Revisão do paraíso. Os brasileiros e o Estado em 500 anos de História de Mary del Priore. Organização pela Campus (2000)
>>> Polly Pocket: Teste e Truques de Editora Fundamento pela Fundamento (2007)
>>> Fábrica de Poesia de Roseana Murray pela Scipione (2009)
>>> O Outro Nome do Bicho de Chico Homem de Melo pela Scipione (2007)
>>> A Viagem de uma Alma de Peter Richelieu pela Pensamento (1993)
>>> Isso Não É Brinquedo! de Ilan Brenman pela Scipione (2007)
>>> Os senhores dos rios. Amazônia, margens e história de Mary del Priore & Flávio Gomes. Organizadores pela Campus (2003)
>>> O Gato do Mato e o Cachorro do Morro de Ana Maria Machado pela Ática (2007)
>>> A Voz de Deus de Fernando Pessoa pela Proi (1997)
>>> Medidas Desesperadas de David Morrell pela Rocco (1998)
>>> Como Ler os Quatro Evangelhos de Frei Carlo Maria pela Regnum Dei (1987)
>>> O Extraordinário Poder da Intenção de Esther & Jerry Hicks pela Sextante (2008)
>>> Elos do Passado de Wanda A. Canutti pela Eme (2002)
>>> Na Hora do Adeus de Irene Pacheco Machado pela Rema (1997)
>>> Breve história da cartografia. Dos primórdios a Gerardus Mercator de Abílio Castro Gurgel pela BTAcadêmica (2015)
>>> O Gerente Minuto de Kenneth Blanchard e Spencer Johnson pela Record (1981)
>>> A Charada do Sol e da Chuva de Luiz Galdino pela Ática (1996)
>>> Encarcerados de Nércio Antonio Alves pela Rumo (1990)
>>> O Hotel dos Bichos Desamparados de Ricardo L. Hoffmann pela Ftd (1990)
>>> Crescer é Perigoso de Marcia Kupstas pela Moderna (1994)
>>> Stress Você Pode Ser O Próximo Previna-se de João Vilas Boas pela Paradigma (2019)
>>> Criar Abelhas é Lucro Certo de Márcio Infante Vieira pela Nobel (1983)
>>> O Assassinato de Roger Ackroyd de Agatha Christie pela Globo (2008)
COLUNAS

Quinta-feira, 14/5/2009
O conto como labirinto em Milton Hatoum
Marcelo Spalding

+ de 8700 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Edgar Allan Poe, o grande nome do conto, para muitos o inventor do conto moderno, dizia que o conto deve ser desvendado tal qual um labirinto, do centro para a saída, do fim para o começo. Ou seja, não basta a primeira leitura, mais preocupada com o enredo, é preciso uma segunda leitura para que se perceba as sutilezas, as entrelinhas, as pistas que o bom contista foi deixando ao longo do texto para culminar naquele desfecho necessário e suficiente. Poe dizia muito mais; por exemplo, que o conto não deveria se preocupar em narrar uma sequência de episódios impressionantes ou sugerir uma tese, e sim em causar um efeito. E que sua leitura não poderia ser interrompida, o que exigia extensão reduzida: "se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído".

Tais considerações sobre o conto se tornaram ponto de partida para diversos contistas fazerem ficção e teoria, do compatriota Ernest Hemingway ao argentino Julio Cortázar, este o que talvez melhor tenha seguido os passos do mestre (sem esquecer Borges, que tornou a metáfora do labirinto marca de sua contística). E assim o autor de "O gato preto" e "O barril de amontillado" tornou-se um divisor de águas na história do conto, que agora pedia uma estética própria e um leitor aguçado.

Os contos de Milton Hatoum em A cidade ilhada (Companhia das Letras, 2009, 128 págs.), primeiro livro de histórias curtas do premiado romancista amazonense, são dessa linhagem. Trabalhando com temas aparentemente comuns e tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros, Hatoum constrói contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo e retribuindo com conflitos profundos e universais. "Varandas da Eva", o primeiro conto do volume, já é um bom exemplo. A história narra a lembrança de um episódio ocorrido na infância do narrador: quando visitou, pela primeira vez, o bordel Varandas da Eva, e lá passou uma noite, sua primeira, com uma bela e enigmática mulher. Voltou ao local no dia seguinte, e em outros, e outros, e nunca mais encontrou-a, até que muito tempo depois encontraria um grande amigo seu, também dos tempos de meninice, e descobre que aquela mulher era sua mãe.

Uma leitura apressada terminaria aí, e temos uma história interessante mas um tanto prosaica: para penetrar na genialidade de um Hatoum é preciso ir além, mergulhar no rio de silêncios, ler de novo e perceber o amigo do narrador como o menino pobre que ganhou as roupas para visitar o bordel e se emocionou ao experimentá-las, para chacota dos demais; a hesitação do menino no dia da tão esperada visita, e seu posterior sumiço; o carinho e o mistério da mulher para com o narrador. Só na segunda leitura percebemos que cada frase, cada cena, cada comentário tem uma função no texto e ajuda a construir aquele desfecho, e é nessa leitura que entenderemos ser esta não a história de um menino em busca da primeira mulher, mas de um menino tornando-se homem e perdendo, com isso, muito da antiga ingenuidade, muito da ilusão.

"Anos depois, num fim de tarde, eu acabara de sair de uma vara cível, e passava pela avenida Sete de Setembro. Divagava. E já não era jovem. A gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esquivam das perguntas. Coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. As gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo. E a aspereza de cada ato da vida surge como um cacto, ou planta sem perfume. Alguém que olha para trás e toma um susto: a juventude passou."

Esta característica do "conto moderno", à Poe, de contar uma história enquanto esconde a outra, mais profunda e realmente importante, pois é a capaz de causar efeito no leitor, foi bem sintetizada por Ricardo Piglia em "Teses sobre o conto". "O conto clássico", define Piglia, "narra em primeiro plano a história 1 (história aparente) e constrói em segundo plano a história 2 (história oculta)".

Voltando ao livro de Hatoum, as memórias de menino são recorrentes, e outro texto fantástico protagonizado por um menino, provavelmente o mesmo de "Varandas da Eva", embora isso não fique claro e nem seja necessário, é "Uma estrangeira da nossa rua". Aqui a história aparente conta o amor platônico de um menino por uma vizinha ruiva, filha de estrangeiros que jamais deixavam a casa, embora fossem afáveis com todos na rua. A história oculta, porém, revela mais, revela o fosso social que se cria entre comunidades muito próximas, revela a dificuldade de relacionamento entre culturas diferentes, revela o medo e até a soberba daqueles que julgavam trazer o progresso. O conto, aliás, lembra muito um conto de Cortazar, "Final do jogo", em que também uma narradora menina conta a história de um amor impossível, que surge pela juventude e ingenuidade dos amantes e não se concretiza pelas complicadas e definitivas regras sociais.

Há nessa cidade ilhada, ainda, espaço para crimes ("A casa ilhada"), fascínios ("Um oriental na vastidão"), sonhos ("Dançarinos na última noite") e até espaço para outras cidades, como "Bárbara no Inverno", que conta a história de um casal de exilados políticos em Paris, ou "Encontros na península", interessantíssimo conto-ensaio que dialoga com a obra de Machado de Assis.

Vale um trecho de "Encontros na península", em que um jovem brasileiro morando em Barcelona é procurado por uma mulher para aprender português do Brasil com o intuito de ler Machado de Assis e refutar a afirmação de seu amante português de que ele fora infinitamente inferior a Eça de Queirós.

"Não, mas é louco por Eça de Queirós. Ele disse que Machado foi pérfido ao criticar cruelmente dois romances do escritor português. Não sei se isso é verdade; sei que Soares não se conforma com essas críticas, e até ficou exaltado quando perguntou: por que a dor física e a miséria são menos aflitivas que a dor moral? Ele não se cansa de afirmar que Eça é muito superior a Machado, que é o maior escritor brasileiro. Por isso eu quis ler no original o rival de Eça. Coisas de amantes."

Inevitável a comparação desta estreia de Hatoum no conto com os três romances premiados, especialmente os mais recentes Dois Irmãos e Cinzas do Norte. O próprio autor parece incentivar essa comparação ao voltar ao mesmo espaço e tempo de seus romances, e mesmo ao utilizar tipos sociais semelhantes, como o Tio Ran e esse narrador menino que tanto lembra Nael. Mas esse tipo de comparação, especialmente quando se acaba desvalorizando os contos para enaltecer os romances, lembra aqueles que comparam o Chico Buarque compositor com o romancista, ou o Machado poeta com o contista: agem como se possível fosse comparar um livro com um filme, ou um sapato com uma calça.

No conto, já diria Poe e bem sabe Hatoum, leitor experiente e professor atento, a narrativa é apenas um labirinto bem armado para prender o leitor no seu centro, acreditando em sua capacidade de reencontrar a saída.

Nota do Editor
Leia também Entrevista com Milton Hatoum.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 14/5/2009


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2009
01. Quanto custa rechear seu Currículo Lattes - 5/3/2009
02. O melhor da década na literatura brasileira: prosa - 31/12/2009
03. Literatura para quê? - 17/12/2009
04. Era uma vez o conto de fadas - 2/4/2009
05. Aranhas e missangas na Moçambique de Mia Couto - 6/8/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/5/2009
21h41min
Há uma geografia do conto em que a narrativa e a poesia cruzam-se, amam-se, entregam-se, têm relações incestuosas e de muita coragem. Sempre que o conto aborda uma cidade, fora do eixo comum dos conhecimentos, é dificil estabelecer o contexto da crítica. Parodiando Ana Cristina Cesar, "é dificil ancorar um navio no espaço".
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




FINANCIAL ANALYSIS: A PROGRAMMED APPROACH
NEIL SEITZ
RESTON
(1976)
R$ 25,00



COISAS DE MENINO (EDIÇÃO 2009)
ELIANE GANEM
JOSÉ OLYMPIO
(2010)
R$ 31,28



UM SONHO DE BELEZA
ANTERO DE QUENTAL ILUSTRAÇÕES VALENTE ALVES
COLARES
(1995)
R$ 8,87



DA REGENERAÇÃO À REPÚBLICA
JOEL SERRÃO
LIVROS HORIZONTE
(1990)
R$ 39,66



PAVANA PARA UM MACACO DEFUNTO - ANTÔNIO GALVÃO NACLÉRIO NOVAES (TEATRO BRASILEIRO)
ANTÔNIO GALVÃO NACLÉRIO NOVAES
SNT/MEC
(1967)
R$ 25,00



O FASCINANTE LIVRO DOS TRENS
BRIAN HARESNAPE
SCILIANO
(1987)
R$ 20,00



HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DO MUNDO - A CRIAÇÃO AINDA NÃO TERMINOU
F L BOSCHKE
BOA LEITURA
R$ 6,50



MEU BEBÊ: A INCRÍVEL CAPACIDADE DE EVOLUIR...
DESMOND MORRIS
LAROUSSE
(2008)
R$ 69,00



REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEORAPHICO DE SÃO PAULO VOLUME X
INSTITUTO HISTORICO E GEORAPHICO DE SÃO PAULO
TYPOGRAPHIA DO DIARIO OFFICIAL
(1906)
R$ 140,07



NOVAS TRAMAS PRODUTIVAS - UMA DISCUSSÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA
LEDA GITAHY E MARCIA DE PAULA
SENAC
(2005)
R$ 4,80





busca | avançada
35423 visitas/dia
1,3 milhão/mês