O conto como labirinto em Milton Hatoum | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 14/5/2009
O conto como labirinto em Milton Hatoum
Marcelo Spalding

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+ 1 Comentário(s)

Edgar Allan Poe, o grande nome do conto, para muitos o inventor do conto moderno, dizia que o conto deve ser desvendado tal qual um labirinto, do centro para a saída, do fim para o começo. Ou seja, não basta a primeira leitura, mais preocupada com o enredo, é preciso uma segunda leitura para que se perceba as sutilezas, as entrelinhas, as pistas que o bom contista foi deixando ao longo do texto para culminar naquele desfecho necessário e suficiente. Poe dizia muito mais; por exemplo, que o conto não deveria se preocupar em narrar uma sequência de episódios impressionantes ou sugerir uma tese, e sim em causar um efeito. E que sua leitura não poderia ser interrompida, o que exigia extensão reduzida: "se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído".

Tais considerações sobre o conto se tornaram ponto de partida para diversos contistas fazerem ficção e teoria, do compatriota Ernest Hemingway ao argentino Julio Cortázar, este o que talvez melhor tenha seguido os passos do mestre (sem esquecer Borges, que tornou a metáfora do labirinto marca de sua contística). E assim o autor de "O gato preto" e "O barril de amontillado" tornou-se um divisor de águas na história do conto, que agora pedia uma estética própria e um leitor aguçado.

Os contos de Milton Hatoum em A cidade ilhada (Companhia das Letras, 2009, 128 págs.), primeiro livro de histórias curtas do premiado romancista amazonense, são dessa linhagem. Trabalhando com temas aparentemente comuns e tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros, Hatoum constrói contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo e retribuindo com conflitos profundos e universais. "Varandas da Eva", o primeiro conto do volume, já é um bom exemplo. A história narra a lembrança de um episódio ocorrido na infância do narrador: quando visitou, pela primeira vez, o bordel Varandas da Eva, e lá passou uma noite, sua primeira, com uma bela e enigmática mulher. Voltou ao local no dia seguinte, e em outros, e outros, e nunca mais encontrou-a, até que muito tempo depois encontraria um grande amigo seu, também dos tempos de meninice, e descobre que aquela mulher era sua mãe.

Uma leitura apressada terminaria aí, e temos uma história interessante mas um tanto prosaica: para penetrar na genialidade de um Hatoum é preciso ir além, mergulhar no rio de silêncios, ler de novo e perceber o amigo do narrador como o menino pobre que ganhou as roupas para visitar o bordel e se emocionou ao experimentá-las, para chacota dos demais; a hesitação do menino no dia da tão esperada visita, e seu posterior sumiço; o carinho e o mistério da mulher para com o narrador. Só na segunda leitura percebemos que cada frase, cada cena, cada comentário tem uma função no texto e ajuda a construir aquele desfecho, e é nessa leitura que entenderemos ser esta não a história de um menino em busca da primeira mulher, mas de um menino tornando-se homem e perdendo, com isso, muito da antiga ingenuidade, muito da ilusão.

"Anos depois, num fim de tarde, eu acabara de sair de uma vara cível, e passava pela avenida Sete de Setembro. Divagava. E já não era jovem. A gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esquivam das perguntas. Coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. As gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo. E a aspereza de cada ato da vida surge como um cacto, ou planta sem perfume. Alguém que olha para trás e toma um susto: a juventude passou."

Esta característica do "conto moderno", à Poe, de contar uma história enquanto esconde a outra, mais profunda e realmente importante, pois é a capaz de causar efeito no leitor, foi bem sintetizada por Ricardo Piglia em "Teses sobre o conto". "O conto clássico", define Piglia, "narra em primeiro plano a história 1 (história aparente) e constrói em segundo plano a história 2 (história oculta)".

Voltando ao livro de Hatoum, as memórias de menino são recorrentes, e outro texto fantástico protagonizado por um menino, provavelmente o mesmo de "Varandas da Eva", embora isso não fique claro e nem seja necessário, é "Uma estrangeira da nossa rua". Aqui a história aparente conta o amor platônico de um menino por uma vizinha ruiva, filha de estrangeiros que jamais deixavam a casa, embora fossem afáveis com todos na rua. A história oculta, porém, revela mais, revela o fosso social que se cria entre comunidades muito próximas, revela a dificuldade de relacionamento entre culturas diferentes, revela o medo e até a soberba daqueles que julgavam trazer o progresso. O conto, aliás, lembra muito um conto de Cortazar, "Final do jogo", em que também uma narradora menina conta a história de um amor impossível, que surge pela juventude e ingenuidade dos amantes e não se concretiza pelas complicadas e definitivas regras sociais.

Há nessa cidade ilhada, ainda, espaço para crimes ("A casa ilhada"), fascínios ("Um oriental na vastidão"), sonhos ("Dançarinos na última noite") e até espaço para outras cidades, como "Bárbara no Inverno", que conta a história de um casal de exilados políticos em Paris, ou "Encontros na península", interessantíssimo conto-ensaio que dialoga com a obra de Machado de Assis.

Vale um trecho de "Encontros na península", em que um jovem brasileiro morando em Barcelona é procurado por uma mulher para aprender português do Brasil com o intuito de ler Machado de Assis e refutar a afirmação de seu amante português de que ele fora infinitamente inferior a Eça de Queirós.

"Não, mas é louco por Eça de Queirós. Ele disse que Machado foi pérfido ao criticar cruelmente dois romances do escritor português. Não sei se isso é verdade; sei que Soares não se conforma com essas críticas, e até ficou exaltado quando perguntou: por que a dor física e a miséria são menos aflitivas que a dor moral? Ele não se cansa de afirmar que Eça é muito superior a Machado, que é o maior escritor brasileiro. Por isso eu quis ler no original o rival de Eça. Coisas de amantes."

Inevitável a comparação desta estreia de Hatoum no conto com os três romances premiados, especialmente os mais recentes Dois Irmãos e Cinzas do Norte. O próprio autor parece incentivar essa comparação ao voltar ao mesmo espaço e tempo de seus romances, e mesmo ao utilizar tipos sociais semelhantes, como o Tio Ran e esse narrador menino que tanto lembra Nael. Mas esse tipo de comparação, especialmente quando se acaba desvalorizando os contos para enaltecer os romances, lembra aqueles que comparam o Chico Buarque compositor com o romancista, ou o Machado poeta com o contista: agem como se possível fosse comparar um livro com um filme, ou um sapato com uma calça.

No conto, já diria Poe e bem sabe Hatoum, leitor experiente e professor atento, a narrativa é apenas um labirinto bem armado para prender o leitor no seu centro, acreditando em sua capacidade de reencontrar a saída.

Nota do Editor
Leia também Entrevista com Milton Hatoum.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 14/5/2009


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/5/2009
21h41min
Há uma geografia do conto em que a narrativa e a poesia cruzam-se, amam-se, entregam-se, têm relações incestuosas e de muita coragem. Sempre que o conto aborda uma cidade, fora do eixo comum dos conhecimentos, é dificil estabelecer o contexto da crítica. Parodiando Ana Cristina Cesar, "é dificil ancorar um navio no espaço".
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
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