O conto como labirinto em Milton Hatoum | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Zeca Camargo participa de webserie sobre produção sustentável de alimentos
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
>>> Edital seleciona 30 participantes do país para produção de vídeos sobre a infância
>>> Joca Andreazza dirige leitura de Auto da Barca de Camiri na série 8X HILDA
>>> Concerto Sinos da Primavera
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgĺrd
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
>>> Sementinas
>>> Lima nova da velha fome
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Entrevista com Paulo Polzonoff Jr.
>>> A Marcha da Família: hoje e em 1964
>>> A escola está acabando
>>> Co-opting creative revolution
>>> Gigantes de Tecnologia na Bolsa dos EUA
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Quem é o abutre
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> O computador de antigamente
>>> Privacidade
Mais Recentes
>>> Revista hot--36--frances sarado. de Sisal pela Sisal
>>> Revista hot--22--picape corsa--opala x opala. de Sisal pela Sisal
>>> Revista carstereo tuning--70--maremoto de Crazy turkey pela Crazy turkey
>>> Carros antigos--02--40 modelos de Escala pela Escala
>>> Revista opala & cia--10--ss caravan--discreto street rod. de On line pela On line
>>> Revista transporte mundial--6--catalogo de onibus e microonibus 2005 de Motor press brasil pela Motor press brasil (2005)
>>> Office 2007 Excel 2007 Básico de Gilberto Carniatto dos Santos pela Senac (2008)
>>> Info Profissional EXCEL de Vários pela Abril (2021)
>>> Venda Mais Nº79 - 2000 GAY de Vários pela Quantum (2000)
>>> Você s/a Exame. As melhores empresas para você trabalhar (edição de 15 anos) de Vários pela Abril (2011)
>>> Nova escola Nº271/2014 (avaliação processual) de Vários pela Abril (2014)
>>> Carta Fundamental Nº44 Era uma vez de Vários pela Carta capital (2013)
>>> Brasil Almanaque Cultura Popular. (edição de aniversário) Nº144 de Vários pela Andreato (2011)
>>> Não se apega, não de Isabela Freitas pela Intrínseca (2015)
>>> Não se apega, não de Isabela Freitas pela Intrínseca (2015)
>>> Pro Teste nº31/nov/2004 - nº34/Mar/2005 - nº22/Fev/2004 de Vários pela Proteste (2004)
>>> Pro Teste Nº129/2013 (Sabões em pó e líquido) de Vários pela Proteste (2013)
>>> Em busca do tempo perdido Vol 3. Dic Porto Fr-Pt-Pt-Fr c/ CD. O Escafandro e a Borboleta de Marcel Proust / Porto / Jean-Dominique Bauby pela Globo
>>> Pro Teste nº67/2008 - nº48/2006 de Vários pela Proteste (2008)
>>> Pro Teste nº122/mar/2013 - nº49/Jul/2006 de Vários pela Proteste (2013)
>>> Pro Teste nº127 - nº123 de Vários pela Proteste (2013)
>>> Password English Dictionary For Speakers of Portuguese de Martins Fontes pela Martins Fontes (1998)
>>> Vidas Secas de Graciliano Ramos pela Record
>>> New Framework 4a de Richmond pela Richmond
>>> New Framework Student Book 2A de Rich pela Richmond
COLUNAS

Quinta-feira, 14/5/2009
O conto como labirinto em Milton Hatoum
Marcelo Spalding

+ de 9600 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Edgar Allan Poe, o grande nome do conto, para muitos o inventor do conto moderno, dizia que o conto deve ser desvendado tal qual um labirinto, do centro para a saída, do fim para o começo. Ou seja, não basta a primeira leitura, mais preocupada com o enredo, é preciso uma segunda leitura para que se perceba as sutilezas, as entrelinhas, as pistas que o bom contista foi deixando ao longo do texto para culminar naquele desfecho necessário e suficiente. Poe dizia muito mais; por exemplo, que o conto não deveria se preocupar em narrar uma sequência de episódios impressionantes ou sugerir uma tese, e sim em causar um efeito. E que sua leitura não poderia ser interrompida, o que exigia extensão reduzida: "se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído".

Tais considerações sobre o conto se tornaram ponto de partida para diversos contistas fazerem ficção e teoria, do compatriota Ernest Hemingway ao argentino Julio Cortázar, este o que talvez melhor tenha seguido os passos do mestre (sem esquecer Borges, que tornou a metáfora do labirinto marca de sua contística). E assim o autor de "O gato preto" e "O barril de amontillado" tornou-se um divisor de águas na história do conto, que agora pedia uma estética própria e um leitor aguçado.

Os contos de Milton Hatoum em A cidade ilhada (Companhia das Letras, 2009, 128 págs.), primeiro livro de histórias curtas do premiado romancista amazonense, são dessa linhagem. Trabalhando com temas aparentemente comuns e tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros, Hatoum constrói contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo e retribuindo com conflitos profundos e universais. "Varandas da Eva", o primeiro conto do volume, já é um bom exemplo. A história narra a lembrança de um episódio ocorrido na infância do narrador: quando visitou, pela primeira vez, o bordel Varandas da Eva, e lá passou uma noite, sua primeira, com uma bela e enigmática mulher. Voltou ao local no dia seguinte, e em outros, e outros, e nunca mais encontrou-a, até que muito tempo depois encontraria um grande amigo seu, também dos tempos de meninice, e descobre que aquela mulher era sua mãe.

Uma leitura apressada terminaria aí, e temos uma história interessante mas um tanto prosaica: para penetrar na genialidade de um Hatoum é preciso ir além, mergulhar no rio de silêncios, ler de novo e perceber o amigo do narrador como o menino pobre que ganhou as roupas para visitar o bordel e se emocionou ao experimentá-las, para chacota dos demais; a hesitação do menino no dia da tão esperada visita, e seu posterior sumiço; o carinho e o mistério da mulher para com o narrador. Só na segunda leitura percebemos que cada frase, cada cena, cada comentário tem uma função no texto e ajuda a construir aquele desfecho, e é nessa leitura que entenderemos ser esta não a história de um menino em busca da primeira mulher, mas de um menino tornando-se homem e perdendo, com isso, muito da antiga ingenuidade, muito da ilusão.

"Anos depois, num fim de tarde, eu acabara de sair de uma vara cível, e passava pela avenida Sete de Setembro. Divagava. E já não era jovem. A gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esquivam das perguntas. Coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. As gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo. E a aspereza de cada ato da vida surge como um cacto, ou planta sem perfume. Alguém que olha para trás e toma um susto: a juventude passou."

Esta característica do "conto moderno", à Poe, de contar uma história enquanto esconde a outra, mais profunda e realmente importante, pois é a capaz de causar efeito no leitor, foi bem sintetizada por Ricardo Piglia em "Teses sobre o conto". "O conto clássico", define Piglia, "narra em primeiro plano a história 1 (história aparente) e constrói em segundo plano a história 2 (história oculta)".

Voltando ao livro de Hatoum, as memórias de menino são recorrentes, e outro texto fantástico protagonizado por um menino, provavelmente o mesmo de "Varandas da Eva", embora isso não fique claro e nem seja necessário, é "Uma estrangeira da nossa rua". Aqui a história aparente conta o amor platônico de um menino por uma vizinha ruiva, filha de estrangeiros que jamais deixavam a casa, embora fossem afáveis com todos na rua. A história oculta, porém, revela mais, revela o fosso social que se cria entre comunidades muito próximas, revela a dificuldade de relacionamento entre culturas diferentes, revela o medo e até a soberba daqueles que julgavam trazer o progresso. O conto, aliás, lembra muito um conto de Cortazar, "Final do jogo", em que também uma narradora menina conta a história de um amor impossível, que surge pela juventude e ingenuidade dos amantes e não se concretiza pelas complicadas e definitivas regras sociais.

Há nessa cidade ilhada, ainda, espaço para crimes ("A casa ilhada"), fascínios ("Um oriental na vastidão"), sonhos ("Dançarinos na última noite") e até espaço para outras cidades, como "Bárbara no Inverno", que conta a história de um casal de exilados políticos em Paris, ou "Encontros na península", interessantíssimo conto-ensaio que dialoga com a obra de Machado de Assis.

Vale um trecho de "Encontros na península", em que um jovem brasileiro morando em Barcelona é procurado por uma mulher para aprender português do Brasil com o intuito de ler Machado de Assis e refutar a afirmação de seu amante português de que ele fora infinitamente inferior a Eça de Queirós.

"Não, mas é louco por Eça de Queirós. Ele disse que Machado foi pérfido ao criticar cruelmente dois romances do escritor português. Não sei se isso é verdade; sei que Soares não se conforma com essas críticas, e até ficou exaltado quando perguntou: por que a dor física e a miséria são menos aflitivas que a dor moral? Ele não se cansa de afirmar que Eça é muito superior a Machado, que é o maior escritor brasileiro. Por isso eu quis ler no original o rival de Eça. Coisas de amantes."

Inevitável a comparação desta estreia de Hatoum no conto com os três romances premiados, especialmente os mais recentes Dois Irmãos e Cinzas do Norte. O próprio autor parece incentivar essa comparação ao voltar ao mesmo espaço e tempo de seus romances, e mesmo ao utilizar tipos sociais semelhantes, como o Tio Ran e esse narrador menino que tanto lembra Nael. Mas esse tipo de comparação, especialmente quando se acaba desvalorizando os contos para enaltecer os romances, lembra aqueles que comparam o Chico Buarque compositor com o romancista, ou o Machado poeta com o contista: agem como se possível fosse comparar um livro com um filme, ou um sapato com uma calça.

No conto, já diria Poe e bem sabe Hatoum, leitor experiente e professor atento, a narrativa é apenas um labirinto bem armado para prender o leitor no seu centro, acreditando em sua capacidade de reencontrar a saída.

Nota do Editor
Leia também Entrevista com Milton Hatoum.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 14/5/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Blockchain Revolution, o livro - ou: blockchain(s) de Julio Daio Borges
02. Nice, Bebeth e Anjali de Marta Barcellos
03. O Direito mediocrizado de Celso A. Uequed Pitol
04. Porque ela pode, de Bridie Clark de Rafael Rodrigues
05. Dia do lixeiro passar de Guga Schultze


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2009
01. Quanto custa rechear seu Currículo Lattes - 5/3/2009
02. O melhor da década na literatura brasileira: prosa - 31/12/2009
03. Literatura para quê? - 17/12/2009
04. Era uma vez o conto de fadas - 2/4/2009
05. Literatura e interatividade: os ciberpoemas - 10/9/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/5/2009
21h41min
Há uma geografia do conto em que a narrativa e a poesia cruzam-se, amam-se, entregam-se, têm relações incestuosas e de muita coragem. Sempre que o conto aborda uma cidade, fora do eixo comum dos conhecimentos, é dificil estabelecer o contexto da crítica. Parodiando Ana Cristina Cesar, "é dificil ancorar um navio no espaço".
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Um Capitalista Em Moscou
Armand Hammer
Best Seller
(1989)
R$ 26,00



Rumo a uma Vida Significativa
Simon Jacobson (adap)
Maayanot
(2001)
R$ 60,00



Sociedade e Território Vol. 29 Julho Revista de Estudos Urbanos e R...
Diversos Autores
Reur
(1999)
R$ 22,33



História da Venerável Ordem 3ª da Penitência do Seráfico..
Marieta Alves - 5766
Sec Cultura Est. Bahia
(1948)
R$ 65,00



Santa Rita Velha Safada
Mouzar Benedito
Santa Rita Velha Safada
(1987)
R$ 25,00



Garota Online
Zoe Sugg
Verus
(2015)
R$ 28,37



Meu Pescoço é um Horror - e Outros Papos de Mulher -7593
Nora Ephron
Racco
(2007)
R$ 10,00



Estratégia Empresarial E Negóciacao
Eduardo Pinto Vilas Boas
Kls
(2016)
R$ 35,00



Destrinchando
Lucas Machado
Atividade
(2003)
R$ 9,00



Navegar é Preciso (crônicas de Muitas Lutas) 2 Volumes
J. C. de Macedo Soares Guimarães
Rio Fundo
(1996)
R$ 30,00





busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês