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Terça-feira, 13/10/2009
Mazelas do coronelismo
Diogo Salles

+ de 6500 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Participar de um trabalho social não é apenas um alento diante de tantas barbaridades despejadas diariamente pelos noticiários. Para quem busca preencher os vazios da alma, é uma experiência redentora. Se não conseguimos mudar tudo o que gostaríamos, pelo menos podemos enxergar um Brasil que sempre idealizamos, ainda que seus frutos só possam ser colhidos no longo prazo. Porém, muitos voluntários de primeira viagem podem não suportar o fato de que, algumas vezes, nem mesmo esse sonho é possível. Claro que, na maioria das vezes, prevalece o lado bonito. Mas para que ele funcione, existe também o lado político, do qual todos preferem manter distância. Existe, sim, muita promiscuidade entre as ONGs e o poder público. E até mesmo uma ação apolítica, como a do Instituto Brasil Solidário, algumas vezes não consegue se ver livre do apetite dos oportunistas.

Nesses trabalhos sociais pelo Brasil, é comum que aconteça uma reunião com as prefeituras das cidades que visitamos, para que possamos explicar como é feito o trabalho e quais as nossas necessidades no dia em que a ação acontece. À prefeitura, cabe oferecer o almoço a toda a equipe e um local adequado para trabalhar ― geralmente uma escola municipal ou estadual. Além da mobilização da população local para que compareçam, eles devem disponibilizar alguns agentes de saúde para ajudarem na triagem dos pacientes a serem atendidos pelos médicos de nossa equipe. Geralmente nosso trabalho é compreendido e muito bem acolhido por todos. Sempre somos recebidos com euforia, muita festa e demonstrações de agradecimento e carinho. A escola sempre nos prepara alguma homenagem. Geralmente um espetáculo de dança, um coral dos alunos ou um número musical. O prefeito até faz seu discurso, mas apenas para agradecer em nome da escola e da cidade.

Não há dinheiro em jogo, apenas duas forças se unindo, em colaboração. Sem picuinhas partidárias ou ideológicas, a prefeitura deve ser nossa parceira naquele dia em que a ação acontece. Nada além disso. Tudo parece muito simples, mas, algumas vezes, não é. Em meio a tantas faixas e cartazes que nos ovacionam, encontramos alguns parasitas pelo caminho. Felizmente são minoria, mas eles existem ― e estão sempre à espreita. O IBS já passou por quase todos os Estados brasileiros, mas a maioria das ações acontece nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. Para fazer uma média, de cada dez cidades visitadas, em pelo menos uma encontramos políticos locais e pequenos coronéis que mandam e desmandam na cidade, fazendo dela seu curral particular. Alguns vão além e tentam se apossar do nosso trabalho. Montam palanques para falar de "suas" realizações e, com isso, colher dividendos políticos. Gostaria que não fossem verdadeiras as histórias que relato a seguir... Mas são.

Em uma pequena cidade no Tocantins, fomos à casa do prefeito para discutir nossa ação social, que aconteceria dentro de algumas semanas. Nunca gostei de participar dessas reuniões. Todos da equipe sempre souberam do asco que sinto por políticos. Sempre procurei evitar essa gente. Mas dessa vez não tive como escapar. Tínhamos de ir à casa do tal prefeito. Lá chegando, comecei a fazer anotações com os meus olhos. Vi uma casa grande, muito bem arrumada, com um enorme jardim, uma aconchegante sala, com TV a cabo, DVD e outros que tais. Depois que os empregados serviram o almoço, o prefeito já se alongava em sua verborragia. Comecei a bocejar, rezando para acabar logo aquele martírio. Não entro no mérito se o prefeito conseguiu seu patrimônio antes ou depois de ter chegado ao poder. Tampouco procurei saber de que partido ele era (cá entre nós, faz alguma diferença?). O que me impressionou foi o que vi ao chegar à escola onde trabalharíamos. Condições mais do que precárias, banheiros imundos, ralos entupidos, fiações expostas, portas caindo aos pedaços, mesas e cadeiras quebradas. Àquelas alturas, já não era de se estranhar que tudo na casa do prefeito funcionasse tão bem e, na escola municipal, tão mal. O sinal de alerta estava ligado.

Chegado o dia da ação social, nossas piores desconfianças se confirmaram logo na entrada da escola. Causava espanto a quantidade de "parentes" e "amigos" do prefeito aboletados na fila do gargarejo, para serem atendidos antes de todo mundo. Sem nenhuma cerimônia, gestantes e idosos eram passados para trás na fila da triagem. Pessoas com gravíssimos problemas de visão não tinham nem sequer uma senha para entrar na fila e se consultar com o oftalmologista (não havia oftalmologistas na cidade. Aquela era uma oportunidade única para quem realmente precisava ― e de graça).

Enquanto isso, o açougueiro da cidade ― amigo do prefeito, naturalmente ― ostentava sua senha de número 1 para ser atendido. Não era nada demais, segundo ele. Só queria saber se estava tudo em ordem com sua vista. Não contente, ele também organizava a fila à sua própria maneira, decidindo quem ficaria na frente de quem. A turma dos "amigos do prefeito" estava mesmo disposta a aparelhar nossa ação social. Todos pareciam acima do bem e do mal. O retrato de um Brasil subdesenvolvido e escravocrata estava ali, em suas cores mais sombrias.

Mas o espetáculo ainda não estava completo. Ainda faltava chegar ela ― a mulher, que, para melhor se identificar, montou seu próprio crachá (do tamanho de uma cartolina) onde se lia "PRIMEIRA DAMA"... Assim mesmo, em letras garrafais. E não era uma "PRIMEIRA DAMA" qualquer. Quixotesca, distribuía ordens à criadagem e acenos à "plebe". Quando me viu, veio em minha direção. E antes mesmo de dizer "oi", ela já tinha uma ordem para mim: "Depois quero que você separe umas camisetas dessas, iguais à sua, para eu dar de presente".

Antes que o prefeito montasse seu palanque para alardear mais este "feito" de seu governo, foi realizada uma tensa reunião a portas fechadas. Convidamos o prefeito e todos os seus pelegos, aspones e apaniguados a se retirarem. A partir dali, o trabalho era com a gente. Precisávamos encontrar um jeito para fazer a triagem e a farmácia funcionar. Junto com alguns voluntários locais, nossa equipe se desdobrou e conseguiu, heroicamente, realizar o trabalho. De um lado, ficamos felizes, pois mostramos muita superação naquele dia tão difícil. Por outro, uma tristeza se abateu, pois ali estava a confirmação do quanto o coronelismo, ainda hoje, corrói cidades e povos pelo Brasil.

Não foi o único lugar onde encontramos essa situação. E certamente não será o último. Esta foi apenas a experiência mais emblemática e, acima de tudo, uma ducha gelada de realidade em todos nós, sempre acostumados a encontrar um Brasil acolhedor. De vez em quando aparece também um representante de alguma "associação", providencialmente apadrinhada da prefeitura, buscando uma boquinha extra. Certa vez, apareceu uma dessas figuras, querendo que a banda ― da qual ele se dizia "empresário" ― se apresentasse na escola, no dia que nossa ação trabalharia lá. Com um detalhe: nós deveríamos pagar o cachê pela apresentação. Parasitas são assim mesmo. Estão por toda parte, sempre buscando um hospedeiro.

Aconteceu também de encontrarmos agentes de saúde espertalhões tentando substituir nossas fichas médicas pelas fichas da prefeitura. Assim, poderiam ser reembolsados pelo SUS. Estavam ali trabalhando pela causa da comunidade, claro, mas sem antes esquecer da causa própria. Pior é quando faziam isso em escolas com esgoto a céu aberto, onde absolutamente todas as crianças estavam com verme. Algumas também tinham berne, mas os casos mais graves eram de sarna, que deixavam as crianças com a cabeça avermelhada e descabelada. Mas, ainda assim, as fichas do SUS pareciam ser mais importantes naquele momento...

Um dia, tive uma revelação enquanto eu me espreguiçava em uma atividade estupidamente trivial. Fazendo palavras cruzadas, tinha ali uma palavra que me incomodava logo de cara: sinônimo para "idealista", sete letras. É o tipo de palavra que costumam usar para definir voluntários de ações sociais e não queria isso exposto à sorte de qualquer julgamento ― quanto mais numa situação tola como aquela. Resolvi fugir do confronto com o meu possível eu. Deixemos esta palavra por último, então. Fui preenchendo as outras questões e o resultado aos poucos aparecia. Resposta: "ingênuo". Pois é... Parece até perseguição. Relutante, fui conferir nas respostas. Estava correto. Meio a contragosto, aceitei o rótulo.

O mundo é mesmo dos "espertos", dos "ideólogos" e dos "politizados", que polarizam os debates, relativizam tudo e justificam seus fins através dos meios mais tacanhos. Para atingir esse "status quo", o caminho mais fácil é filiar-se a um partido político e seguir sua cartilha bovinamente. Depois, basta acreditar em políticos salvadores da pátria (tão salvadores quanto o tal prefeito da cidadezinha do Tocantins ― senão piores) e defendê-lo até a morte. Aí é só esperar que ele vença as eleições e, assim, fazer parte de sua casta de privilegiados. Pronto, você entrou para o seleto grupo dos "Amigos do Prefeito"! Bem vindo! Mas calma... Estamos numa democracia, e qualquer um pode recusar o convite para entrar para a "tchurma". Sim, se você está pensando em fazer um trabalho social, uma hora ou outra terá de escolher entre ser o "amigo do prefeito", que vai pedir reembolso do SUS, ou ser o "ingênuo" que vai tentar ajudar a criança com verme. A opção é sua... E o livre arbítrio é a última esperança.


Diogo Salles
São Paulo, 13/10/2009


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/10/2009
08h53min
Ótimo texto, Diogo! Realmente, uma coisa que nos choca é o contraste, e nos impressiona o quanto um coração pode ser tão duro a ponto de não se importar com isso - como o que você mostrou: casa do prefeito versus escola imunda... Numa dessas escolas, onde o bairro era desses de esgoto a céu aberto, vi uma Hi-Lux zero estacionando e quem desceu de lá? O prefeito, ao lado da primeira-dama (esta debaixo de algumas jóias)... Mas mesmo vendo tudo isso, digo que vale (muito!!!) a pena ser ingênuo. Grande abraço!
[Leia outros Comentários de Wolber Campos]
15/10/2009
14h55min
Mais um texto ótimo do Diogo! Tive um problema desse tipo em Pernambuco. Prefeito e vereador fazendo politicagem no atendimento oftalmológico. Passei por esse tipo de situação em diversos projetos sociais no interior de Alagoas e em cidades no estado do Amapá. E a história sempre se repete. Fico extremamente incomodada ao ver políticos se aproximando durante os atendimentos, e tenho sempre a mesma sensação: gente tentando se aproveitar! É deprimente... Lamentavelmente muitas crianças ficaram sem atendimento oftalmológico por problemas de falta de transporte e, curiosamente, o prefeito aparece lá, trazendo uma "listinha" com nomes de adultos que "deveriam ser atendidas". Quanto às fichas do SUS, vi acontecer isso na Paraíba, mas ficou apenas na tentativa...
[Leia outros Comentários de Sabrina]
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