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Terça-feira, 6/4/2010
Questão de gosto ou de educação?
Débora Carvalho

+ de 4700 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Alguém tem um amigo que canta ópera? Eu tenho. E é amigo de infância. Recentemente, num encontro informal que tivemos no Shopping Campo Limpo para colocar as "fofocas" em dia e verificar a possibilidade/necessidade dele contratar meus serviços de jornalista, descobri coisas incríveis sobre o universo da música. O fato é que o músico Robson Bueno Tavares vai precisar de assessoria de imprensa num futuro breve, assim que concluir seus estudos no exterior. Mas fiquei com as informações do brief/entrevista sobre sua carreira na cabeça, e resolvi compartilhar.

Voz tem idade
Essa foi a primeira curiosidade. Robson Bueno Tavares, nascido em 24 de março de 1982, tem voz considerada jovem demais aos 28 anos. No mundo da ópera, só após os 30 anos a voz é considerada madura. E só então o cantor de ópera realmente inicia sua "carreira".

Talento atrapalha
É o que Robson diz. "Eu não acredito muito em talento. É mais maldição do que benção. Todo talentoso que eu conheço é preguiçoso. O cara que tem ouvido absoluto ouve qualquer som e sabe que som é. Isso é uma maldição, e ele vai ter problemas sérios porque não consegue mudar uma música. O talento atrapalha, sim. Ter uma voz muito bonita, ter facilidade em alguma coisa, por exemplo, quem tem facilidade de respiração, normalmente não estuda música. Não se preocupa em aprender um estilo."

Então Robson Tavares explicou que tem gente que tem talento e se lascou muito, como Pavarotti, que quase perdeu a voz por falta de técnica. Enquanto teve cantor que só estreou depois dos 30, como Franco Coreli, pois tinha problemas em resolver agudos. "E ele é um monstro do canto". "Principalmente quando é a questão da voz muito bonita. Esses são os piores. A voz manda neles e não eles na voz. O cantor se torna escravo da voz. E existem muitos desse tipo em canto."

Questão de educação
Poucas pessoas gostam da música chamada "erudita" ou clássica. Por que tão poucos possuem esse gosto enquanto tantos curtem funk, por exemplo? "Nem sei se é gosto. É a educação, é o alimento, como minha comida", respondeu Robson.

Aí eu descobri por que meu esposo diz que eu gosto de música de gente velha. A culpa é do meu pai, que só escutava a rádio Scala FM, Cultura FM, e LPs de Richard Clayderman e outros instrumentais além das clássicas sinfonias. Até hoje eu sou louca para encontrar meu LP preferido em CD: Um piano acima das nuvens, de Richard Clayderman e James Last ― mas não encontrei. As músicas tocam em minha mente, sozinhas. Mas adoraria ouvir no carro, sem ter que me esforçar por recordar cada nota. Depois veio a world music, com Enya, Aurio Corrá... aquele tipo de música que você escuta e assiste a um filme de imagens mentais enquanto ouve. Não tem como ouvir esses estilos sem concentração. Por isso, em alguns momentos esse tipo de música pode irritar. A mim, irrita.

Robson cresceu tocando violino. Depois mudou para viola erudita, um pouco maior e com corda mais grave que a do violino. Fez musicalização desde dois anos de idade. "Desde que me conheço por gente, meu pai fazia perguntas de percepção musical e reconhecimentos de períodos da música: os estilos (francês, alemão, italiano), os compositores e os períodos (barroco, clássico, romântico, moderno, renascentista). Minha família sempre fazia brincadeiras. A gente ouvia a Rádio Cultura e fazia competições sobre de que período e lugar do mundo eram as músicas, os timbres, que instrumentos estavam tocando, os compassos..."

Dá pra negar que o gosto musical do meu jovem amigo está ligado à educação familiar? Isso me lembra uma aula da disciplina de Jornalismo Cultural. A professora Cláudia Cruz explicou de modo simples a questão da indústria cultural e a diferença entre a música e arte popular e erudita. E a conversa com Robson Tavares confirmou todos os conceitos apresentados na sala de aula. Primeiro, erudito é aquilo que para entender e apreciar é preciso saber como funciona. Diferente da arte que a gente gosta porque gosta e pronto. É entender o grau de dificuldade da composição da música clássica, por exemplo, com seus diferentes timbres e variedades de acordes e notas. Esse tipo de música é bem diferente da música composta no violão, com três acordes, e só.

A ideia de que a arte erudita é para os "ricos" e "cultos" e a popular é para os "pobres" e "sem estudo" é culpa do sistema social que permitia que os patrões tivessem tempo e dinheiro para investir no estudo das artes, enquanto os operários trabalhavam 16 horas por dia a troco de um salário que mal permitia que comprassem alimento. Então, com o pouco tempo e o mínimo de informação, eles usavam a criatividade para fazer a "arte" que podiam. Não podemos negar seu talento. Mas podemos imaginar quanto mais poderiam produzir se pudessem se dedicar um pouco mais.

Ópera era música popular
O que mais me deixou perplexa na conversa com o cantor Robson, foi descobrir que "a ópera é música popular da época. Existe o mito de que ópera é um fenômeno artístico exclusivo para um público elitizado. Mas, pelo contrário, o gênero figurava como o mais popular da música ocidental. Quando foi criado, no século XVII, representava o evento social mais comum, e, como entretenimento, equivalia à novela das 8".

As peças criticavam a nobreza. Fígaro, por exemplo, é o personagem de uma série de peças: As Bodas, O Casamento, O barbeiro de Sevilha, A Viagem. Fígaro é um plebeu que se relaciona com a nobreza e se dá bem. Ele é o foco da ópera, e não o nobre, como era na época. O casal de plebeus triunfa sobre o nobre. As Bodas fala do dia em que eles vão se casar e o conde se apaixonou pela noiva. Como qualquer boa comédia francesa da época de Molière, tem uma trama absurda que só se resolve no final."

"Ópera é uma peça cantada. Para ser cantor de ópera, ser só cantor é ser incompleto. É preciso ser um cantor que saiba atuar bem. Os musicais da Broadway vieram da ópera. O pessoal de musical utiliza microfone. Mas na ópera não se admite microfone. Tem que ter resistência física. Pavarotti perdia quatro quilos por ópera. É um trabalho físico bem intenso. E tem que ser muito cuidadoso; qualquer coisa errada detona a voz."

Existe alguma ópera em português? "Não. A maioria das óperas são em italiano."

E tem mais. "Alguns cantores fazem solos de óperas à frente de uma orquestra. São áreas, trechos famosos onde o público se maravilha em como o cantor alcança notas agudas e o impacto dos vários instrumentos que o acompanham. Alguns acham impressionante. Para outros é chato demais. O fato é que ópera nunca foi pensada para ser apresentada dessa maneira. É como retirar um monólogo de uma peça de Shakespeare e o apresentar isoladamente, fora da peça."

Richard Wagner afirma que a ópera é a gesamkuntswerk, ou obra de arte total, pois engloba música, teatro, canto, dança e artes plásticas. É a versão moderna do teatro grego, que apresenta uma história encenada contada por meio do canto. Fragmentos fora de contexto, especialmente quando apresentado a um público que não conhece o enredo, ficam sem significado."

"Uma prova de como a ópera estava inserida na cultura popular: o compositor Giuseppe Verdi esperou até a noite anterior à estreia para ensinar ao tenor a música de "La donna é Móbile", a melodia mais conhecida de Rigoletto. Fez isso porque tinha certeza de que vazaria aos ouvidos do povo que logo estaria cantando ou assobiando a melodia pelas ruas da cidade, antes mesmo da primeira apresentação."

Devido a essa grande popularidade, os cantores de ópera eram verdadeiros popstars de seu tempo, idolatrados pelo povo. Depois das apresentações, eram carregados nos ombros das pessoas, em carreata pela cidade.

Algumas peças foram tão marcantes que até hoje são referência de um sentimento ou estado de espírito. Podemos assistir um desenho animado como Pernalonga e ver o simpático coelho fugir ao som de O barbeiro de Sevilha.

Para Robson, não conhecer as obras mais célebres é uma gafe imperdoável.

― Ai, ai, ai!

"Para quem está começando, existem algumas óperas que podem ser encontradas em DVD. Também não faltam ofertas de seções bem populares em alguma das produções operísticas [que palavra é essa?] nos teatros brasileiros. Aconselho a começar com alguma comédia, provavelmente será uma fonte bem interessante de risadas e de cultura ao mesmo tempo. Só não pode levar pipoca!"

Na internet também dá pra encontrar bastante coisa legal, inclusive o próprio Robson Bueno Tavares.


Débora Carvalho
São Paulo, 6/4/2010


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/4/2010
12h17min
Ópera sempre foi uma manifestação popular, como você bem frisou. Uma leve lembrança disso você pode ainda encontrar nas apresentações (inclusive no Teatro Municipal de SP) em que os mais aficionados na platéia gritam "Bravo", "Brava" ou "Bravi" (dependendendo se para o cantor, cantora ou para ambos) após as árias mais esperadas. Parece jogo de futebol. Agora, com relação à idade... Tem alguns que admiram a energia e o "punch" de uma voz nova: por volta dos 40 anos as vozes começam a "engrossar" e perder o brilho. Mas parabéns por chamar a atenção dos jovens para esse genero de música (que eu particularmente adoro).
[Leia outros Comentários de Eugenia Zerbini]
12/4/2010
11h03min
Prezada Sra Carvalho, antes de mais nada, não sou Italiano apenas um velhão politicamente totalmente errado(INCORRETO) portanto a minha descrição não teria nenhuma relevancia para os eruditos e entendidos pois afinal, sou o que sou! Incorreto! Mas, o que diz o dicionário do mestre Carlo Parlagreco(?)? Opera = obra (de arte ou coisa que valha) Este era um genero muito apreciadop pela população dos seculos XIX e (presto) XX. Então naquela época era considerada um manifestação artistica popular e muito bem apreciado pelo 'populacho'. Me pergunto, será que a "ralé' era mais culto naquela época ou era simplesmente a falta de midia mais penetrante no meios sociais menos favorecidas, ou outra coisa qualquer (como a constante 'proletarização' dos gostos populares? Hoje sim a opera é apreciada por gente mais culta e eu não me inclo entre estes pois (devido a minha educação inicial)não gosto o genero (apenas gosto ou lembro de algumas árias mais conhecidas e aceitas). Eu não gosto de rótulos in
[Leia outros Comentários de Lajos Attila Sarkozy]
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