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Terça-feira, 17/1/2012
Precisamos falar sobre o Kevin
Guilherme Pontes Coelho

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Eva Katchadourian é carregada por uma multidão vermelha. Ela, também escarlate, de braços abertos e sorriso no rosto, recebe a luz do sol sobre si. Está feliz. Imersa no aglomerado humano, Eva é só mais uma - sente-se especial por estar em comunhão. Assim como ela, milhares se banham de vermelho para celebrar e comungar. Todos anônimos, todos especiais, todos felizes. E todos brincam: jogam tomates amassados uns nos outros.

Eva está na Tomatina, a tradicional festa espanhola, celebrada na última quarta de agosto, desde os anos 1940, na cidade de Buñol. Mas ela não é espanhola, é norte-americana. É uma viajante, mulher de raízes áreas. É um espírito livre, como dizem. Enquanto está mergulhada nas águas vermelhas da Tomatina, sua identidade pouco importa, porque, na verdade, é nesta entrega à anonímia que ela se sente bem. Esta entrega, aparentemente, a transporta a um mundo onde não existem causas e consequências, prenomes e sobrenomes, chegadas e partidas, passado e presente. Cultura e civilização são suspensas. Eva fica em silêncio, fascinada com o espetáculo que vivencia, uma celebração coletiva da alegria.

Esta é a sequência inicial de Precisamos falar sobre o Kevin, filme de Lynne Ramsay (Estados Unidos, 2011), baseado no livro homônimo de Lionel Shriver.

A anonímia, o desgarre, a leveza, a liberdade - pode-se dizer que são estes os ventos que determinam o curso da vida de Eva (Tilda Swinton, sempre ótima), mesmo em sua forma mais pé no chão, a financeira: ela é dona de uma bem sucedida agência de viagens. Mas todo o mundo de Eva perde imediatez da liberdade, a elegância da leveza, a velocidade do desgarre e, principalmente, o calor da anonímia. O agente desta transformação tem nome: Kevin (Ezra Miller, de bom desempenho e fisionomia fidelíssima à descrita no livro de Shriver).

Eva é companheira de Franklin (John C. Reilly, bom ator, mas um pouquinho deslocado,miscast, na película). Ele é um tanto mais sintonizado com questões terrenas (e sem grandes questionamentos) que ela, a ponto de perguntar, durante preliminares, se ela tinha certeza - certeza do sexo sem proteção. A pergunta ficou sem resposta, e veio Kevin, que pintaria de vermelho a vida de Eva.

A responsabilidade por outro ser humano, para uma mulher tão ligada ao desprender-se de si mesma, cresceu dentro dela e se transformou numa deformidade, uma barriga imensa. Enquanto outras mães, antes da hidroginástica, exibiam barrigas maiores sem qualquer intenção de exibi-las, Eva, constrangida, não sabia como se mostrar, nem se era para se mostrar. Ela não sabia o que fazer com aquilo, nem saberia pelos próximos anos.

"Aquilo" nasceu e passou olhá-la nos olhos. "Aquilo", quando adolescente, mais uma vez mergulhou Eva num mar vermelho. Ao contrário da Tomatina, uma comunhão lúdica entre estranhos, as águas vermelhas nas quais Eva foi arremessada pelo filho foram o sangue de uma chacina estudantil: Kevin Katchadourian trancou colegas no ginásio da escola e os matou (mas isso não foi tudo).

Eva então se vê numa terra para qual nunca queria ter ido, a dos párias. Ela é a mãe do assassino, a genetriz do mal, a responsável. Agora seu nome é conhecido, não é mais uma entre tantas; sua vida, uma angústia concêntrica, sem espaço para as aventuras do desgarre; seus dias, pesados. Eva não é livre.

Se no início da película vemos Eva experimentando a aparente suspensão de cultura e civilização por estar imersa no anonimato lúdico da coletividade, Kevin atira a mãe para fora da sociedade, fazendo recair sobre si a mão cruel dos códigos civilizatórios (que ele destruiu e com os quais não se importa) e sobre ela o preconceito ultrajante da cultura.

O filme de Lynne Ramsay é (perdoe a pompa) o binômio comunhão-marginalização, e em ambos os termos a cor predominante é o vermelho. (A direção de arte, que é muito competente, não poupa o espectador desta obviedade.) No decorrer dos cem minutos da película, a Eva de Lynne Ramsay é caracterizada como a Hester Prynne de Nathaniel Hawthorne, porém sem a resignação nem a fibra moral intrínsecas. Estas forças Eva se empenha com o pouco de energia que lhe resta para desenvolver. Posso dizer que o filme é exatamente isto: a luta de Eva para fortalecer a si mesma durante a marginalização que sofre após a chacina. A comunhão com o filho é mais aspecto deste processo, não o cerne de sua reestruturação.

Para ir além






Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 17/1/2012


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